outras teclas

Voz que chega pelos olhos

Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador.
Ambas me seduzem

Selfie-se quem puder!

Sorria! Você está sendo fotografado. Por você.


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É bacaninha. É até divertido. Solitário ou em grupo. É moderno. E quem ainda não fez, que dispare o primeiro flash.

O selfie está aí, bem na nossa cara! Uma ação que poderia ter nome em português. Mas se você a concebe usando um smartphone, para em seguida fazer um upload e promovê-la na web, que tolice a minha querer chamá-la de autorretrato. É selfie e pronto. Pronto? Peraí... Deixa eu ajeitar minha franja e olhar pro lado, fora da lente, tipo um Stevie Wonder displicente. Atenção... click! Click??? Não necessariamente. Você escolhe o som. Pode ser tek, plin, ploft... depende do seu smart. Click era na época das máquinas com rolinho de filme – que jamais fizeram click, é bom que se diga.

Por falar em máquinas fotográficas da vovó, questões de ordem puramente anatômica sepultaram definitivamente o uso da Polaroid para fins de selfie, concorda? Sim, porque afinal somente alguém com braços de macaco pra evitar o choque da foto com a própria cara. No fundo, bem no fundo, eu até gostaria. Não de ver você engolindo o registro que acabou de fazer, mas acho que tem selfie demais por aí.

Acordando? Selfie com remela no olho. Tomando café da manhã? Selfie com requeijão no canto da boca. Indo pro trabalho? Selfie no elevador, para logo em seguida, selfie no retrovisor do carro. Ainda não tive notícias, mas a conseqüência deste último muito em breve há se chamar selfie com supercílio aberto. E o dia só está começando... haja bateria! Afinal, registro sem divulgação não faz o menor sentido. Divulgação sem comentário alheio é preocupante e te faz ficar revendo a foto em busca de algum defeito. E se nem umazinha curtida tiver, é a prova cabal que ninguém além de você gosta de você. Isso consome energias.

Falei do macaco linhas acima, mas penso que no mundo animal - em se tratando de auto-promoção pura e simples - nosso desejo mesmo era ser um polvo. Imagina! Oito câmeras na mão, registros simultâneos em ângulos distintos. Perto, longe, muito longe. A glória de sermos nossos próprios paparazzi. Pobre do T-Rex que, tentando entrar na brincadeira, só conseguiria registrar o próprio queixo. Mas voltando ao ambiente onde #nemtodossomosmacacos (exceção feita aos de auditório), uma das coisas que mais me incomoda no selfie, além do culto à própria imagem, não é o resultado da foto, muito menos o fato. É o ato. Ver a pessoa clicando-se é deprimente. Aquele braço esticaaaaaado, acompanhado de um sorriso também esticaaaaado, somados à reativação daquela velha brincadeira de criança me dá uma angúúúústia... Estátua!!!!!

Ok, eu já fiz e devo continuar fazendo meus selfies, mas com um mínimo de coerência, porque pensa comigo: Se o selfie é um registro fotográfico de você, feito por você, é normal imaginar que este ocorra num espaço onde só esteja... você. Daí, fazer selfie em público não faz sentido algum. É muito mais fácil chegar pra alguém e pedir: "- Tira uma foto minha?" Sou desse tempo. Gostava desse tempo. Ajudava na socialização, na geração de relacionamentos, ainda que estes tivessem a duração de um click.

Selfie é legal. Curtir selife é positivo. Mas tenho saudades do negativo.


Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador. Ambas me seduzem.
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