outras teclas

Voz que chega pelos olhos

Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador.
Ambas me seduzem

A Menina do Laticínios

A solidão e a tristeza nossas de cada dia, (en)cobertas pela máscara da necessidade.


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Ela estava triste. Mas como posso afirmar isso se através daquele seu uniforme niqab só se viam os olhos? Sim, a menina-anjo de botas, calça, blusa, luvas, touca e máscara indubitavelmente brancas me lembrou uma daquelas que vivem no Oriente Médio que nada sentem, nada falam. Ela, um pouco mais afortunada, ainda tinha uma única palavra a dizer. Sempre a mesma.

Trabalha no setor de laticínios do mercado. Celina, seu nome. É tudo a mais que sei sobre ela. Estava no crachá que encoberto, ora por um pedaço de queijo minas, ora por trezentos gramas de muçarela, fiz força pra ler.

Em troca de um salário que certamente lhe representa muito, sai de cena a jovem que como qualquer outra gosta de se relacionar, de falar da vida, de bobagens ou não via face, e entra a lacônica. Aquela que passa o dia ouvindo, em troca de seu repetido chamado, um "me vê..." antes mesmo de um "bom dia". Por isso, posso afirmar: Celina estava triste.

Em troca deste mesmo salário, desaparece aquela que possui suas vaidades e surge a que não existe. Já disse, de Celina só sei o nome. Mas tento vislumbrar seu passado de menina sonhadora, quando dançando ao som de um rádio alto e se lambuzando de batom rosa em frente ao espelho, roubava a maquiagem da mãe para, em vão, tentar combinar as cores de pálpebras com a das bochechas e mais o laço no cabelo escovado. Alquimia de cores que hoje resultam em... branco. Pálido branco. Também por isso, posso afirmar: Celina estava triste.

De algumas senhoras ela ainda ouve um "minha filha..." que haverá de ser "carinhoso" se for antes do pedido, mas certamente inquisidor se ela, porventura não tiver deduzido que as azeitonas deveriam ser sem caroço.

Dos homens, jovens ou não, nenhum galanteio. Nem mesmo uma cantada baixa. Celina é um fantasma frouxo sem curvas, sem peitos, coxas ou bunda. Atributos que, coincidentemente, poderiam instigar naqueles que só vêem isso numa mulher, uma outra maneira de dizer "me vê...".

Na pausa para o lanche, ironicamente, Celina toma iogurte. Isso eu sei. Já vi. E não por ter metido a cabeça pela janela do refeitório do mercado, mas porque a "pausa" é feita enquanto trabalha. Dependendo da hora, é possível perceber a chegada de um de seus colegas trazendo uma grande garrafa térmica e copos de plástico, para oferecer a ela e aos demais não mais que um copo de algo que, vez ou outra, também pode ser vitamina.

O que nunca havia percebido era justamente sua tristeza. Enquanto aguardava o momento de lhe cumprimentar com o meu "me vê...", torcia por um sorriso que só poderia ser deduzido pelo apertar de seus olhos. Mas ele não veio.

E depois de botar meu pedaço de queijo no carrinho, o máximo que pude fazer foi juntar-me à tristeza de Celina, que respondeu o meu "obrigado, querida!" com um... "próximo!".


Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador. Ambas me seduzem.
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