outras teclas

Voz que chega pelos olhos

Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador.
Ambas me seduzem

Montanhas

Do que somos capazes para ascender?


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Tenho algum encanto por elas. Das de desenho animado, que possuem um castelo em seu topo - tal como uma cereja sobre um doce - ,até as gigantes do Himalaia cobertas de neve que são, na verdade, o próprio doce.

Não sei dizer quando isso começou. Imagino que tenha sido há uns quinze anos, quando um amigo me emprestou um livro. “No Ar Rarefeito” é o relato de Jon Krakauer, um jornalista e montanhista que acompanhou uma das muitas expedições ao Everest. Sobre diversos aspectos este livro me trouxe ensinamentos e, fato é, que de lá pra cá nunca mais olhei para uma montanha do mesmo jeito.

Bem verdade que deveria estar atento a elas antes mesmo da leitura do livro, visto que falo de algo que ao término do terceiro dia já havia sido criado, quando Deus separou o que era molhado do que era seco. Mas tanta admiração nunca passou disso, e como admirar nada mais é do que mirar à distância, isso é o que mais fiz e faço. Exceção feita por volta do anos de 2000, quando estive no majestoso, enigmático e desafiador... Pico do Penedinho.

Nota do autor: O Pico do Penedinho fica na região de Itatiaia, no Rio de Janeiro, e creio que qualquer grupo de lobinhos deve tê-lo como teste probatório em seu primeiro dia de aspirante à escoteiro. Ou seja: não oferece dificuldade alguma. Quase uma rampa. Depois de bravamente atingir seu “cume”, quis mais - ô homem!, animal insaciável. Decidi posar para a foto no ponto mais alto do que já era “alto” e com isso parei, displicentemente, em cima de um formigueiro em plena atividade. Mas nem mesmo o posterior esvaziamento de tubos de omcilon me fez perder a doçura e o respeito. Doce, formigas... Deveria ter pensado nisso antes.

Durante algum tempo, na minha vida de cigano suburbano, morei num espetacular apartamento. Sala grande, três quartos, dois banheiros e varanda com vista para... Uma montanha. Ah, danem-se a sala, os quartos e os banheiros! Espetacular era por causa da varanda e da vista que ela proporcionava, tanto que não foram poucas as manhãs nas quais me peguei deitado na rede apreciando toda aquela sinuosidade, delineada por tons de verde e marrom. Seria capaz de passar todo o meu dia ali e esteja você certo de que minha visão não seria a mesma, visto que o caminhar do sol (ou seria da montanha?) proporcionava a cada instante novas nuances. Divino.

Montanhas estão por aí. Sempre estiveram. E quando não as vemos, criamos. Ou criam para nós. Mas é nesse instante que a história muda.

Vai-se embora o olhar plácido e o deslumbramento dá lugar ao enfrentamento. Somos empurrados da rede, calçamos botas, colocamos mochilas, checamos cordas e mosquetões e vamos encará-las. É preciso transpô-las, nem que para isso precisemos cravar grampos em sua superfície, já que a regra nos diz que não é aconselhável confiar em grampos alheios.

O “é necessário caminhar” já não basta. “Correr” é relativo. Urge subir. Cada vez mais alto e preciso, nem que para isso seja preciso...

Aquela nuvem que antes repousava sobre as saliências agora turva a visão. A fenda que traçava outros contornos e relevos tornou-se armadilha coberta por um tapete alvo de neve que não tem outro intuito senão nos impedir de chegar ao alvo.

E vem o frio. E vem a noite.

E nada nos freia, pois a certeza de que cada passo dado fará diminuir a distância desse horizonte vertical nos hipnotiza, a ponto de não percebermos que mais do que ir em frente, vamos pra baixo, pois a neve fofa nos cobre até o joelhos.

O ar, tão abundante e disponível quando estávamos ao nível do mar e dos demais, agora é objeto cobiçado e engarrafado num pequeno cilindro.

E o corpo dá sinais. Nossa pele dormente já não é mais sensível ao toque. A pressão externa é tão grande que ficamos surdos. Estamos quase cegos, graças aos reflexos na superfície branca de um sol que um dia foi guia. A razão falha, em função da pouca oxigenação do cérebro. Ofegantes, pois o vento não sopra a favor e o máximo que tem a nos oferecer é um edema nos pulmões, carecemos daquele cilindro, que será nosso antes de qualquer um.

A notícia recebida de que uma avalanche dizimou uma expedição inteira que ia à frente da nossa, nos sensibiliza. Mas por pouco tempo. Estamos no frio. Estamos frios e nossa lágrima congela rapidamente. Faltam poucos metros – é tudo que dizemos.

A esta altura, as desistências já são muitas. Estamos cada vez mais sós e isso, ao contrário do que poderia parecer, nos faz mais obstinados, pois não teremos de dividir méritos.

E assim chegamos. Todos. Cada um de nós no cume de sua respectiva montanha. E agora não importa saber que o tempo que teremos para desfrutar de nossa glória será efêmero - a regra também nos diz que a decida é mais difícil do que parece. Queremos perpetuar este momento e lá de cima avistar a próxima montanha antes mesmo de olhar pra baixo e ver o que deixamos pra trás.

Memórias, pessoas. Dor e poesia. Tudo isso já não pode ser mais visto de onde estamos. Menos ainda aquelas folhas amassadas que tremulam espremidas e esquecidas entre uma pequena rocha e o sopé (ou ao lado de uma rede, numa varanda). Nelas, palavras de Fernando Pessoa, afirmando que “Na vida, aquece ser pequeno”.

Seriam de grande valia para acender uma fogueira nas longas noites geladas que enfrentamos.


Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador. Ambas me seduzem.
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