outras teclas

Voz que chega pelos olhos

Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador.
Ambas me seduzem

Arma Branca


armabranca.jpgPenso que todos os órgãos de proteção à vida deveriam enquadrá-lo nessa categoria. Sim, o microfone é arma branca. Dissimuladamente branca.

Mesmo não se mostrando perigoso como a tesoura e a faca, com suas pontas e gumes, o microfone pode matar. De choque? – você pergunta. É mais ou menos por aí, eu diria.

Microfone não tem ponta, mas aponta. Culpados, inocentes e rumos. Microfone apronta. Sorrateiro, tem seus disfarces. Permitam-se citar alguns e, brevemente, discorrer sobre eles:

- De mão: corpo cilíndrico e cápsula redonda. Clássico. Sem arestas, às vezes leva uma cobertura em espuma para amenizar o im”p”acto das consoantes bilabiais. Grande coisa... E o impacto das outras dezesseis, mais as vogais? Sem falar no importado reforço do K, W e Y. Possui variações. Com fio e sem fio. Um, limita a aproximação com a vítima. O outro não. E isso faz grande diferença no modus operanti de quem o tem em mãos.

- De lapela: como o próprio nome diz, é preso na lapela da roupa. Grande coisa II... O problema não é onde ele é preso, mas quem e o que ele prende. É potencialmente perigoso, pois deixa as mãos livres, aumentando o efeito sinestésico. Ps.: o Google me apresentou um sinônimo para a palavra lapela: É “rebuço”. E sabem qual é um dos significados dessa palavra? “Falta de sinceridade, dissimulação, disfarce”. Curioso, não?

- De cabeça: de longe, não parece nada, nem microfone. De perto, lembra uma simples verruga, um sinal. Mau sinal.

Qual será seu próximo disfarce?

Antigamente não havia microfone. Era tudo no gogó. Na Bíblia, por exemplo, o apóstolo Tiago já advertia sobre o uso da língua. Na verdade, o capítulo de sua epístola que leva à tona o assunto não é um tratado de fonoaudiologia, onde, por ainda desconhecer o uso do microfone, poderia apresentar novos métodos de dicção, pronúncia e impostação, destinados especialmente àqueles que falavam ao público. Tiago tão somente usa uma figura de linguagem para expressar o cuidado e a importância do que se diz. Mas isso é passado, algo sem importância. Voltemos aos nossos dias.

Muita gente faz uso do microfone. Eu mesmo já estive em contato com ele algumas vezes. Tal experiência não me viciou ou fez de mim um serial speaker, mas confesso que foi difícil. Precisei ensaiar cada palavra. Escrever antes e ler, reler até decorar e parecer natural. Timidez? Sem dúvida alguma, mas o que motivava tanto esforço não era esta eterna batalha contra meu jeito de ser e sim a intenção, posteriormente transformada em dúvida, de estar dizendo a coisa certa.

Como músico, costumo dizer que prefiro tocar pra mil a falar pra dez. Sei que não sou o único, mas este contingente do qual faço parte é ínfimo. Definitivamente não possuo o dom da oratória, que bem sei é “destinado” a muitos. Para os desejosos, mas inaptos, o mercado disponibiliza até cursos. De canetas atravessadas entre os dentes até um dicionário de trava línguas, as técnicas se aprimoram a cada dia. Tudo com o intuito de transformar-nos num ser especial. Aquele que terá o legítimo direito a desembainhar um microfone. É quase como um pré-requisito. Uma licença. Um porte. Eu, diligentemente, respeito, mas receio por estas vidas.

Dos sussurros Joãogilbertanos aos berros Silasmalafaiescos, ele transita em todas as esferas da sociedade. Contra o segundo, o primeiro até sugere: “- Pra que gritar, depois que inventaram o microfone?” Mas tanto um quanto o outro são apenas vítimas indefesas desta invenção tecnodemoníaca.

Vítimas, assim como os apresentadores de jornal, repórteres, atores, cantores, políticos, esportistas, líderes e formadores de opinião em geral.

Já eu e meu pequeno grupo, não. Estamos livres disso. Afinal, "inocentemente", só ouvimos.


Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador. Ambas me seduzem.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Márcio Castro