outras teclas

Voz que chega pelos olhos

Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador.
Ambas me seduzem

Bancos Amarelos

Um dia. Num ônibus...


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O que havia naquele ventre?

A manhã do dia anterior havia me traumatizado. Afinal, é incompreensível fazer em duas horas e meia um trajeto que anormalmente se faz em uma. Sim, porque normalmente era há dez anos, quando se fazia em meia.

Por conta disso, readquiri um velho e providencial costume, aposentado nem sei por que. Meus óculos escuros. Sei lá qual o efeito psicológico que eles exercem em mim, mas tendo-os no rosto me sinto protegido, preservado e poupado. Selecionei um ray-ban da Uruguaiana 100% espelhado, o que não gosto muito, pois quando acontece de soltar uma mecha do meu rabo de cavalo e esta fica dependurada a partir do canto da testa, fico parecendo o Michael Jackson. Poderia procurar um mais sociável, mas este combinava com minha pálida e emburrada cara traumatizada.

Mas voltando ao motivo que me fez usá-lo, lá estava eu entrando no mal e novo 457, rumo a Botafogo. Um único banco vazio, logo após a roleta. Amarelo. A propósito, a cor amarela é a mais ambígua de todas no sistema de transportes do Rio de Janeiro. Se for táxi, chame. Se for sinal, pare (é o mesmo que vermelho). Se for assento de ônibus, afaste-se. Não sabe ler o adesivo colado no vidro? Eu, diligentemente, me afastei.

Posicionei-me alguns após, cercando duas velhinhas sentadas nos azuis (mas o amarelo não é pra elas?). Quase pedi que ao menos uma delas trocasse, mas desisti. Tinha a certeza de que saltariam assim que atravessássemos o viaduto. Salta muita gente naquele ponto. O problema é que entra muito mais gente nesse mesmo ponto. Optei por uma ansiedade feliz e silenciosa.

Há poucos metros desse meu micro-destino tão aguardado, uma delas inclinou o tronco pra frente, ajeitou a alça da bolsa no ombro, apoiou a mão no assento da frente e... a outra começou a falar da morte do Wando. Minhas esperanças ruíram como uma calcinha sem elástico.

O ônibus recém-parado, enchia. O banco amarelo já fora devidamente ocupado por alguém com idade pra ser meu filho e eu, quando as bolsadas nas costas já começavam a ficar ritmadas em homenagem ao carnaval que se aproxima, avistei no meio do veículo um outro banco vazio. Amarelo também. As vovós do Wando sequer perceberam meu riso sarcástico, do tipo “Pode ficar aí no azul mesmo! Tem um amarelo ali atrás que além do mais é maior, porque também é pra obeso!” A passos largos e sinuosos, aproximei-me antes de qualquer um dos que entravam, e impiedosamente... sentei. No mesmo instante, três, eu disse TRÊS bancos próximos de onde eu estava anteriormente ficaram vagos. Nenhum amarelo.

Dane-se. Com a cabeça um pouco inclinada para trás, o ray-ban 100% espelhado da Uruguaiana ajudaria a simular o sono fictício. Mas não. Afinal o banco era amarelo, mas o espírito cristão deve ser alvo como a neve. Precisava estar alerta. Mas não vai aparecer ninguém, tenho certeza! Todos os metros quadrados já foram devidamente ocupados e não há mais ninguém que queira ou possa entrar nessa lata. Relaxa!

“Com licença, com licença!” Eu ouvi. Não era pra mim, mas eu ouvi. Vinha lá da frente. Ainda não era possível associar a voz à pessoa graças à lotação, mas eu ouvi. E ela surgiu.

De todos os sentimentos humanos, creio que somente dois não se desfazem com o tempo, que ao contrário só o faz consolidá-los. A saudade e a dúvida. O tempo cura dor, decepção, raiva. Mas saudade e dúvida...

Do primeiro, não quero falar agora, mas do segundo...

O que havia naquele ventre? Ela continuava a pedir licença e agora caminhava na minha direção. Se me cercar como eu cerquei as vovós do Wando, não vai ter jeito, vou ter que ceder o lugar, pensei. Até porque o fatídico assento amarelo no qual estava não é somente destinado a idosos e obesos. Serve também pra gest... ah! todo mundo já sabe isso. E não há ray-ban 100% espelhado da Uruguaiana que impossibilite a leitura desta frase. Que vontade de voltar a ser um bebê de colo!

Ela passou direto por mim. Posicionou-se um banco atrás. Mas quando passou, a barriga fez questão de esbarrar no meu rabo de cavalo e me transformou em Michael Jackson. Não podia fingir que não percebi. Ajeitei o cabelo por detrás da orelha enquanto oferecia o lugar.

Somente as gestantes aceitam esse oferecimento sem uma recusa inicial. E isso só fez aumentar minha dúvida, já que ela, a princípio, negou. Velhinhos, em sua quase totalidade também rejeitam, afirmando que vão saltar no ponto seguinte. E realmente saltam. Fora as vovós do Wando, velhinhos adoram passear por dois ou três pontos de distância. Ainda existem aqueles que depois da recusa ficam olhando pra você com aquela cara, tipo “Fica sentado aí mesmo jovem sedentário, cliente Mc Donald’s. Tô indo fazer ginástica na praça e daqui a dez anos sou eu que vou oferecer meu lugar pra você.”

Mas gestantes nunca recusam. Sorriem, agradecem e sentam, não necessariamente nessa ordem. Por que aquela mulher de ventre dilatado tinha de recusar? O que quer que ela tivesse a esconder por debaixo daquela blusa que um dia foi folgada já não era mais possível.

Insisti e ela sentou-se confortavelmente enquanto eu me desconfortava. Passei então a observá-la para ao menos ter a certeza de ter praticado uma boa ação. Os seios fartos não diziam nada. Até mesmo os implantes da francesa PIP proporcionam o mesmo resultado, antes do primeiro furo.

A aliança no dedo indicava que era casada. Meus avós (olha eu falando de saudade) teriam isso como forte indício de que pudesse estar grávida. Eu não, ainda mais porque sua mão não acariciava a barriga. Futuras mamães adoram acariciar a barriga. Acho um lindo gesto. Mas a mão dela debruçava-se sobre a bolsa, que debruçava-se sobre a barriga. A única pista agora recaia sobre aquela blusa apertada.

Era sem manga, cintada abaixo dos seios e “deveria”, daí pra baixo, ficar folgadinha. Mulheres que me lêem: se você não está grávida, mas está acima do peso, não use este tipo de blusa. Isso é uma maldade para com os homens que ainda guardam algum cavalheirismo e que pegam o 457.

Pode botar biquíni, não tem problema. Ninguém deve ter vergonha do seu corpo, só não trapaceie. Mas... pensando bem, biquíni também não! Nem tanto pela possibilidade de assédio (não da minha parte, claro!), mas sim pelo fuzuê que causaria, visto que o ponto final do 457 é em Ipanema, pertinho da praia. Assim, todos os trabalhadores que pegam esse ônibus têm repulsa aos praianos que também o pegam. É o paradoxo de pessoas com ideais absolutamente distintos valendo-se de um mesmo veículo (literalmente falando) para chegarem aos seus objetivos. Tá bom, tá bom, aí eu me incluo.

Sei que parado ali, minha tentativa de encontrar alguma resposta que justificasse meu ato gentil, a essa altura já era maior do que a própria vontade de viajar sentado. Desejo este devidamente sepultado quando percebi que ao meu lado parou uma elegante e perfumada moça, ou seja: ainda que a embuchada ou barriguda, sei lá, levantasse, eu teria de mais uma vez ceder o lugar.

Deixa pra lá, já estávamos no Maracanã quando, pela janela, pude ver uma reunião de operários que reformam o estádio. Carro de som. Alguém em cima dele chamando-os de companheiros. Esteticamente era até bonito ver aquele mar de gente de macacão azul e capacetes das mais variadas cores. Feio era ter de ouvir o cara do carro de som falando do reajuste que lhes estava sendo proposto. Irônica e displicentemente, no mesmo instante passava por eles um grupo de militares correndo de camisetas brancas, shorts verdes e bambas pretos. Só podiam ser militares, pois não há no mundo academia de ginástica que ofereça uniforme tão feio. À frente deles (e atrás também) um que diferia dos demais por carregar uma bandeira vermelha. Tinha também um que cantava alguma coisa para, em seguida, os outros repetirem. Tenho a impressão de ter ouvido um cânone do refrão “brava gente brasileira” enquanto passavam entre os operários. Segue a viagem.

Botafogo está chegando, eu pelo visto vou saltar antes dela, mas não poderia levar comigo a dúvida. Vou perguntar. Notei, entretanto, que ela dormia. Arrã! Obesos sentem mais sono, li isso numa revista. Mas, [email protected]#$%, a matéria dizia que as gestantes também sentem.

Mais uma trapaça que não vai me derrubar. Preparei uma joelhadinha no seu braço para em seguida pedir desculpas e, matreiramente, desejar-lhe uma boa hora. Ganharia um tapa ou um sorriso, não importa. Teria a resposta que tanto queria. Foi quando alguém passou atabalhoadamente atrás de mim e me transformou em Michael Jackson novamente. Mas como a mão que bate é a mesma que acaricia, senti uma no meu ombro juntamente com um pedido de desculpas. Como o dono da mão viu que eu estava agitado, só faltou se apresentar como Dr. Conrad Murray e me oferecer uma dose de propofol.

Tá na hora de saltar. Deixei aquele ventre pra lá, levei a dúvida e desembarquei, mas não sem antes ter de desviar de uma moçoila que, de biquíni, sorria tranquilamente à espera da instalação dos bancos verdes - possível nova providencia da prefeitura - que atenderá seu segmento. Os praianos. Ah, os praianos!


Márcio Castro

Teclas. De um piano ou de um computador. Ambas me seduzem.
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