Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos.

GUS VAN SANT - 60 ANOS DE PURO CINEMA

Um dos mais prestigiados cineastas do mundo.


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Tornou-se um dos maiores representantes da força do cinema independente americano, Gus Van Sant começou a carreira na década de 80, e chamou a atenção com “Drugstore Cowboy”, road movie subversivo sobre jovens viciados, estrelado por Matt Dillon e Kelly Lynch. Nesse primeiro sucesso de crítica, Van Sant marcaria a temática que iria levar por alguns filmes (o road movie, ou filme de estrada), e o olhar sincero na vida de jovens disfuncionais (que levaria por toda a carreira).

Seguiram “Garotos de Programa” (1991), estrelado por Keanu Reeves e pelo falecido River Phoenix, levemente baseado nas peças de Shakespeare, “Henrique IV – Parte 1”, “Henrique IV – Parte 2”, e “Henrique V”, e adaptado para a atualidade tendo como protagonistas dois jovens em uma jornada de auto-descoberta pelas estradas americanas; e “Até as Vaqueiras Ficam Tristes” – baseado num livro de alto conceito, esse pode ser considerado o primeiro fracasso de crítica de Van Sant, que conta com Uma Thurman como a protagonista de grandes dedões. Ela os aproveita para pedir carona, e sua jornada pelas estradas a levam até uma fazenda de vaqueiras lésbicas.

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A seguir Van Sant passou para a que é considerada sua fase em Hollywood. De filmes independentes de pequeno orçamento, o diretor ganhava as graças de grandes estúdios, nomes famosos, e entregava produtos de certa forma mainstream, que atingiam o grande público. Nessa fase Van Sant deu a primeira grande chance para Nicole Kidman brilhar num papel de protagonista, interpretando uma aspirante a jornalista e apresentadora, que faria de tudo e passaria por cima de todos pela carreira, em “Um Sonho Sem Limites”.

Caiu nas graças da Academia com “Gênio Indomável”, que trazia Matt Damon (que escreveu o filme ao lado do amigo Ben Affleck) como um gênio em potencial sem grandes aspirações, que com a ajuda de um psicólogo canaliza suas prioridades. O filme foi indicado para nove Oscar, incluindo melhor filme, diretor para Van Sant, ator para Matt Damon, e ganhou nas categorias roteiro original e melhor ator coadjuvante para o subestimado Robin Williams, que interpreta o psicólogo.

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Em 1998 viria sua proposta mais arriscada e ousada, a refilmagem de um dos filmes mais cultuados de todos os tempos, a obra-prima do suspense, considerado o filme quintessencial do mestre Alfred Hitchcock, “Psicose”. Um dos maiores baques sofridos pelo diretor, que foi acusado de egocentrismo ao entregar o remake de uma obra intocável, a versão de “Psicose” de Van Sant é um exercício interessante de cinema. O diretor duplica diversas tomadas e ângulos de filmagem do mestre Hitchcock, acrescentando cores vivas e algumas pitadas inusitadas.

Mal interpretado na época, o filme de Van Sant soa como grande homenagem ao imortal cineasta inglês, e sem dúvidas é, se para mais nada, um exercício em curiosidade máxima. Não existe nenhum cinéfilo, estudioso ou entusiasta da sétima arte, que mesmo por curiosidade mórbida, tenha deixado de conferir o que Van Sant aprontou para a sua versão de um dos mais icônicos projetos do cinema de suspense e terror. Sua versão para “Psicose” é aquele tipo de filme que não precisava existir, mas já que existe não pode ser ignorado.

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Continuando em mais um projeto no cinema mainstream, o cineasta se une a Sean Connery (em um de seus últimos trabalhos antes da aposentadoria em 2003), para contar outra história sobre um mestre e um pupilo incomuns, em “Encontrando Forrester”. Aqui Van Sant coloca sua lente sobre um rapaz afro-americano de um bairro pobre e perigoso, com grandes aspirações, que busca no recluso escritor interpretado por Connery, um mentor. Um dos temas recorrentes em seus filmes é a relação dos jovens com o mundo. Sejam jovens perdidos, ou os que procuram um caminho. A reunião com Matt Damon aconteceu em “Gerry”, seu filme mais “não comercial”, que fala sobre dois amigos sendo testados ao se perderem no deserto sem água para beber. O irmão do ator Ben Affleck, Casey Affleck co-protagoniza.

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Voltando para o cinema independente no qual começou a carreira, Van Sant entrega uma de suas obras mais cultuadas no universo do cinema de arte, “Elefante”. O filme levaria diversos prêmios no Festival de Cannes de 2003, inclusive a Palma de Ouro. No filme Van Sant mostra a rotina de jovens em um colégio americano, mudada bruscamente por um atentado. A obra tem forte apelo emocional devido às trágicas feridas abertas a que o tema remete. Van Sant demonstra porque é um dos mais respeitados diretores da atualidade, realizando longas tomadas sem cortes pelos corredores da grande escola, inovando na narrativa, e entregando um dos mais eficientes “docu-dramas” do cinema recente. Seguindo com “Last Days”, o diretor homenageia Kurt Cobain nessa espécie de biografia e drama musical.

Van Sant também marca presença com seus segmentos em obras aonde diversos cineastas homenageiam um tema específico, seja uma cidade – “Paris, Te Amo”, o progresso e os desafios da melhoria da vida no nosso planeta – “8”, ou o cinema em si – “Cada um com Seu Cinema”. O cineasta volta ao estilo “docu-drama” quando entrega “Paranoid Park”. Baseado num romance, Van Sant entra no universo de adolescentes skatistas, apresentando uma trama de suspense e mistério, quando um rapaz se envolve na morte acidental de um guarda de segurança.

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Em 2008, seu segundo grande flerte com o Oscar veio na forma de “Milk”, biografia do primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um cargo público, Harvey Milk. Indicado para oito Oscar, incluindo melhor filme e diretor para Van Sant, “Milk” levou para casa os prêmios de melhor roteiro original e melhor ator para o eficiente Sean Penn, que vive o protagonista. A obra ainda possui um grande elenco de nomes promissores, que conta com Josh Brolin, Emile Hirsch, James Franco, Diego Luna e Alison Pill.

O último filme de Gus Van Sant lançado até então foi o emotivo “Inquietos”. Exibido no Festival de Cannes no ano passado, a obra é produzida pelo diretor Ron Howard e por sua filha, a atriz Bryce Dallas Howard. No filme, Van Sant trata do relacionamento entre uma menina doente terminal (ótima performance de Mia Wasikowska, em seu melhor desempenho da carreira até hoje), e um rapaz disfuncional sofrendo com a perda dos pais (papel do igualmente ótimo filho do ícone Dennis Hopper, Henry Hopper – em seu primeiro papel no cinema). O filme é dramático, mas apenas na medida certa, e possui sua dose de doçura e cenas agradáveis igualmente.

gus_van_sant_to_be_honored_by_palm_springs_short_film_festival.jpg Van Sant está atualmente envolvido em outros dois projetos: O primeiro é a homenagem orquestrada por James Franco para o ator River Phoenix, “My Own Private River”, alusão ao título original de “Garotos de Programa”, no qual o cineasta ao lado de seu ator de “Milk” dirigem recontextualizando o material utilizado na época (imagens de Phoenix), com novas filmagens, programado para ser lançado ainda esse ano. O segundo projeto é “Promised Land”, terceira união com o ator Matt Damon. A trama fala sobre a experiência transformadora na vida de um vendedor de uma empresa de gás natural ao chegar a uma cidadezinha. Programado para 2013, o novo projeto desperta a curiosidade desde já pelo fato de se tratar de um novo roteiro escrito pelo ator Matt Damon (seu terceiro após “Gênio Indomável” e “Gerry”), agora em parceria com o ator John Krasinski. O elenco conta ainda com o próprio Krasinski, Rosemarie DeWitt, Frances McDormand e com o veterano de 87 anos, Hal Holbrook.


Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos..
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