Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos.

RED STATE - A "SEITA MORTAL" DE KEVIN SMITH

Embora vendido como o filme de terror de Kevin Smith, "Seita Mortal" soa mais como uma crítica ao fanatismo religioso.


RedState1.jpgO diretor Kevin Smith apareceu no mundo da sétima arte como uma das vozes mais originais no terreno do humor independente. Sua estreia foi 1994 com o cultuado "O BALCONISTA", obra crua e real, que expunha os bastidores da juventude através do pensamento de dois jovens que trabalhavam no balcão de uma loja de conveniências. Os dois discutiam vários assuntos, e falavam de tudo, de um jeito que os jovens de verdade falam. E o diretor nos apresentou também os personagens cultuados Jay e Silent Bob, que seriam recorrentes da maioria de seus filmes (Silent Bob é inclusive interpretado pelo próprio Smith).

Porém, o cineasta logo de cara dava sinais de como iria se portar sua carreira, entre erros e acertos. Com seu segundo filme "BARRADOS NO SHOPPING"(MALLRATAS, 1995), uma comédia escrachada feita por encomenda para a garotada, Smith perdia parte de seu público mais adulto. O filme recebeu esse título odioso no Brasil devido a presença da atriz Shannen Doherty, na época ainda famosa por ser a protagonista feminina do seriado adolescente de sucesso BARRADOS NO BAILE (BEVERLY HILLS 90210). Em 1997, Smith recuperava seu prestígio com seu terceiro filme, o drama romântico com toques de humor, "PROCURA-SE AMY", voltando aos filmes mais sérios.

Red-State-Movie.jpgDois anos depois, o cineasta realizava seu melhor filme, a sátira/crítica religiosa "DOGMA", com um grande elenco, muito humor e coisas sérias e interessantes a dizer. O filme fez, de certa forma, Smith ficar maldito. Depois o diretor seguiu para dar um presente a seus recorrentes coadjuvantes Jay e Silent Bob: um filme só da dupla em 2001, e aí veio mais humor escrachado e besteirol, como diz o título no Brasil. Seus trabalhos seguintes ficaram entre erros e acertos com "MENINA DOS OLHOS", "O BALCONISTA 2" e "PAGANDO BEM, QUE MAL TEM?".

Smith chegaria ao ponto mais baixo de sua carreira em 2010, quando pela primeira vez dirigiria um filme que não era de sua autoria. Com "TIRAS EM APUROS", estrelado pelo astro do cinema de ação Bruce Willis, o cineasta entregou um filme rotineiro cujo humor não consegue penetrar em nenhuma cena, não funcionando nem como filme de dupla policial, nem tampouco como comédia. Mas Smith não se deu por vencido, e ano passado entregou "RED STATE", voltando a escrever, o diretor mais uma vez fala sobre religião. Vendido como o filme de terror de Kevin Smith, a obra começa com três rapazes do interior, interpretados por Michael Angarano, Kyle Gallner e Nicolas Braun, desesperados para transar eles vão ao encontro de uma prostituta.

Red State movie (3).jpgChegando ao local inóspito percebem que a mulher mora num trailer e está decidida a fazer com que os três bebam bastante antes de consumar o ato. Ela é interpretada pela ganhadora do Oscar passado Melissa Leo, a primeira surpresa do elenco da obra. Obviamente a fim de dar início à trama, as cervejas dos rapazes estavam batizadas, e quando eles vão à lona, entram em cena homens que os capturam. Logo somos apresentados ao culto que havia sido mencionado anteriormente no filme. Os fanáticos religiosos protestantes da igreja "das cinco pontas" comandados pelo pastor Abin Cooper, papel do ótimo Michael Parks (colaborador de Quentin Tarantino em "KILL BILL", "À PROVA DE MORTE" e "UM DRINK NO INFERNO").

O bitolado religioso não se atém a rezar e dar sermões, seus cultos na igreja incluem lavagem cerebral e assassinato em primeiro grau. Ele pega como exemplo, “pecadores” de todos os tipos, e os manda para o inferno com passagem só de ida, e com requintes de crueldade. A polícia descobre por acidente seus atos, mas o xerife, papel de Stephen Root é colocado contra a parede e impossibilitado de agir. Logo um federal figurão é chamado, e chega na propriedade com seu pequeno exército particular. Ele é interpretado de forma eficiente pelo veterano John Goodman (de "O GRANDE LEBOWSKI").

5.jpgTecnicamente o novo filme de Kevin Smith não se encaixa muito como terror, na primeira parte até temos alguns momentos de tensão, intercalados com os diálogos que soam como total sátira, escritos por Smith, que aqui recupera e demonstra plena forma. O diretor utiliza de seu humor ácido de início de carreira aqui, e em variados momentos aponta a loucura de extremistas através de cenas inusitadas. A segunda metade do filme se concentra no grande confronto entre a polícia e os fanáticos que tinham a seu dispor um verdadeiro arsenal, e são logo taxados de terroristas pelos paranóicos em poder. Sobra para todo mundo no texto de Smith, e pode-se dizer que esse filme é sua redenção.

O elenco é todo eficiente, mas o destaque absoluto fica para a interpretação caricata e hilária de Michael Parks, como o pastor psicopata, sua dancinha ao final é impagável. Outro destaque fica para a desconhecida Kerry Bishé, que interpreta a filha da personagem de Melissa Leo, um membro da família que escolhe a auto-preservação. Com essa nova obra, Kevin Smith demonstra que ainda tem mão para a coisa, e através de cenas de ação bem realizadas, que tomam toda segunda parte do filme num festival de chuva de balas, momentos nervosos, e principalmente um material tema bem escrito onde o humor flui naturalmente, Smith mostra que ainda é um cineasta talentoso.


Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos..
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