Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos.

UM TIRA ACIMA DA LEI

Woody Harrelson no papel do policial sujo ignorado pelo Oscar.


rampart_movie.jpgWoody Harrelson por anos pôde ser considerado um dos atores mais subestimados de sua geração. De certa forma sua carreira nunca conseguiu decolar ao patamar da de outros atores que começaram na mesma época que a sua, e vieram a se tornar astros. Gente como Brad Pitt, por exemplo, que em meados dos anos 90 ainda era um ilustre desconhecido, até “Entrevista com o Vampiro” é claro. E não é dizer que a diferença é por Pitt ser um galã, porque a quantidade de galãs aspirantes a atores e astros que morrem na praia é imensa, e também a de astros longe de qualidades físicas propícias, vide o eterno durão do cinema, Humphrey Bogart.

Harrelson começou a carreira nos anos 80, mas teve reconhecimento nos anos 90, com papéis em filmes como “Homens Brancos Não Sabem Enterrar” (considerado um dos melhores filmes de esporte de todos os tempos), “Proposta Indecente” e como protagonista em “Assassinos Por Natureza” (de Oliver Stone, tido por muitos como um dos melhores filmes da década de 90). No fim da mesma década Harrelson foi inclusive indicado ao Oscar por sua personificação exata do subversivo dono da revista Hustler, Larry Flint, em “O Povo Contra Larry FLynt”.

rampart-harrelson.jpgNa década seguinte o ator ficou renegado a papéis coadjuvantes em filmes nem sempre de muita visibilidade artística, vide “Tratamento de Choque”, “Ladrão de Diamantes” e “Os Aloprados”.

Mas agora felizmente, assim como outros atores de qualidade, Woody Harrelson foi redescoberto por Hollywood, e o sujeito tem entregue projetos interessantes um atrás do outro; seguiram o suspense subestimado e pouco visto “Expresso Transiberiano”, “O Mensageiro” (drama pelo qual recebeu sua segunda indicação ao Oscar, dessa vez na categoria coadjuvante), o cult instantâneo “Zumbilândia” (mostrando que sabe ser cool junto da garotada, em um filme que promete sequência), “2012” (super-produção vazia mas que serviu para colocá-lo no elenco de um dos filmes mais rentáveis de 2009), até chegarmos nos recentes “Jogos Vorazes”, “Virada no Jogo”, e nesse “Um Tira Acima da Lei”.

No filme Harrelson interpreta David Brown, o pior tipo de policial que anda pelas ruas, no caso as ruas da cidade de Los Angeles. O sujeito é corrupto, de certa forma gosta da maneira que lida com seu trabalho, e luta para as coisas não mudarem para ele. Não possui consciência, nem remorso, há anos foi transformado pelo trabalho e entende bem o sistema de como as coisas funcionam.

rampart.jpgPorém tudo muda para o sujeito após uma colisão com seu automóvel da polícia. O explosivo agente da lei persegue o culpado pelo acidente de trânsito, que o agride e foge, somente para o protagonista alcançá-lo e deixá-lo inconsciente com o espancamento. Para seu azar extremo, uma câmera flagra seu abuso de poder, como diversos casos ocorridos nos EUA, e ao redor do mundo. Na verdade o sujeito é conhecido em seu departamento pelo apelido de “Estuprador”, trata-se de uma espécie de prêmio que recebeu por ser creditado pela morte de um, logo em seu início de carreira como policial, embora algumas pessoas duvidem do fato ter ocorrido exatamente da forma narrada pelo protagonista.

Entre as pessoas céticas de seu heroísmo está a personagem da veterana Sigourney Weaver, uma espécie de psicóloga do departamento que está constantemente batendo de frente como o sujeito problemático. Daí é só ladeira abaixo para o personagem principal de Harrelson, diversas outras acusações começam a vir à tona, e o sujeito ao invés de se manter discreto deixando a poeira baixar, continua chamando atenção com outros escândalos, como o assassinato de um ladrão, que também pode não ter ocorrido da forma reportada.

rampart2.jpgHarrelson está ótimo no papel de um policial tão desvirtuado que não fica devendo em nada para outro grande policial disnfuncional do cinema recente, e o primeiro que vem à mente quando pensamos em personagens assim, o vilão que deu o Oscar para Denzel Washington em “Dia de Treinamento”. O detetive Alonzo de Washington tinha um plano, e para isso passaria por cima de qualquer um. Já o David Brown de Harrelson apenas vive um dia após o outro da melhor forma que pode, com suas duas ex-mulheres irmãs (interpretadas por Anne Heche e Cynthina Nixon, de “Sex and the City”), e suas duas filhas. O mais assustador é que o sujeito não conhece outra realidade, e para ele isso é o melhor que pode fazer, mesmo que não diferencie muito o certo do errado, e se entupa de bebida, cigarros e drogas quando as coisas começam a apertar.

Rampart-3.jpgO elenco conta ainda com Ben Foster (parceiro de Harrelson em “O Mensageiro”, que atua também como produtor aqui), Robin Wright, Ned Beatty, Steve Buscemi, Brie Larson (de “Scott Pilgrim Contra o Mundo” e “Anjos da Lei”, que aqui faz a filha mais velha), e Ice Cube como um agente da corregedoria. O filme é dirigido pelo mesmo Oren Moverman de “O Mensageiro”. Na época do lançamento do filme nos EUA, no fim do ano passado, diversos críticos americanos davam como certa, e defendiam uma indicação ao Oscar de melhor ator para Harrelson, coisa que não veio.

“Um Tira Acima da Lei” é escrito por James Ellroy, o autor de “Los Angeles – Cidade Proibida”, “Os Reis da Rua” e “Dália Negra”, e é um filme nu e cru, que mostra a realidade de pessoas designadas para proteger cidadãos comuns. Por debaixo dos panos vemos que muitas vezes tais profissionais são tão desequilibrados, ou mais psicologicamente abalados do que os que perseguem. “Um Tira Acima da Lei” é uma versão séria e de arte, de “Dia de Treinamento”, é um filme intenso que nos convida a passar duas horas com um agente da lei que não iríamos querer nos servindo ou protegendo.


Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos..
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