Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos.

ELLES - O NOVO E OUSADO FILME DA EXCELENTE JULIETTE BINOCHE

Juliette Binoche entrevista garotas de programa nessa obra que deveria receber censura mais alta.


Elles_movie_review.jpg A atriz Juliette Binoche pode ser considerada uma das maiores representantes do cinema mundial atual. A parisiense de 48 anos já foi inclusive a imagem nos cartazes em um ano recente do prestigiado Festival de cinema de Cannes, honra cedida para verdadeiros ícones da sétima arte. Binoche já molhou os pés no cinema de Hollywood também, e ganhou notoriedade em filmes como “O Paciente Inglês” e “Chocolate”; filmes nos quais abocanhou a estatueta de melhor atriz coadjuvante e foi indicada ao prêmio de atriz principal respectivamente, na maior premiação do cinema, o Oscar.

A francesa participou da prestigiada trilogia das cores (“A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”) do cineasta polonês Krysztof Kieslowski, e nos últimos anos marcou presença em obras intrigantes e instigantes do nível de “Caché” (2005), de Michael Haneke (“A Fita Branca” e “Violência Gratuita”), e “Cópia Fiel” (2011), do iraniano Abbas Kiarostami.

elles1.jpg Agora, Binoche entrega “Elles”, obra rodada em sua terra, escrita e dirigida pela polonesa Malgorzata Szumowska. Na trama, a protagonista vive Anne, uma jornalista casada e mãe de dois filhos, cuja próxima matéria irá mudar sua vida. A personagem de Binoche trabalha para uma revista e decide fazer uma matéria com duas jovens prostitutas vivendo em Paris. De certa forma as jovens carregam a mesma bagagem de vida, duas meninas com sonhos de vencer na cidade grande, que acabam aderindo à profissão mais antiga do mundo – segundo dizem.

Charlotte (interpretada por Anaïs Demoustier) é a mais tranquila, e de convivência fácil. Concorda rapidamente em falar sobre sua vida, e sobre tudo o que envolve sua profissão. A jovem é vista rapidamente numa cena ao lado da família durante um jantar. Também possui um pseudo-namorado, que fica sem entender quando sua amada resolve não transar com ele numa tarde sozinhos no apartamento (acontece que anteriormente a jovem já havia “ganhado a vida”). É através da personagem Charlotte que vemos o risco do ofício, quando um cliente abusa de forma violenta dela.

ct-mov-0608-premier-attraction-20120608-001.jpg Também somos apresentados a Alicja, papel da também polonesa Joanna Kulig, que não consegue a bolsa de estudos, e logo se vê na mesma situação profissional de Charlotte. A diferença é que Alicja possui um temperamento mais fervoroso, e inicialmente não aceita a repórter. Ao descobrir que não tem onde ficar, acaba aceitando a oferta de um colega de curso, e o momento entre os dois numa varanda de apartamento, quando primeiramente a loirinha começa a gritar, para depois trocarem frases em seus idiomas oficiais, é a cena mais honesta, sincera, e a melhor do filme. Porque nesse momento conseguimos olhar através de um vestígio de humanidade, e de ingenuidade que iria se perder, talvez para sempre, na personagem.

As cenas em “Elles” são fortes e explícitas, esse não é um filme que deveria receber a censura equivocada de 16 anos. Discussões sobre censura sempre se tornaram grandes debates entre críticos americanos, justamente por muitos filmes receberem recomendações de idades equivocadas. No Brasil claramente podemos ver que isso também acontece repetidas vezes. “Elles” não fica devendo em nada em matéria de fortes cenas sexuais, e consegue ser ainda mais explícito do que filmes recentes como “Shame” ou “Confissões de uma Garota de Programa”.

elles-movie-scene-juliette-binoche-1cc8a.jpg A protagonista vivida por Binoche se deixa invadir, é o caso da criatura contaminar o criador. Ao desenvolver a história, a semi-frígida e intelectual Anne, percebe a forma casual como essas meninas lidam com sexo, e começa a pensar se não existe algo de errado com todas as outras pessoas do mundo, como ela mesma, na forma em que tratam sua sexualidade. Obviamente a protagonista se deixará envolver, principalmente pela loira Alicja.

E ao final surgem em duas cenas, incógnitas do que verdadeiramente a diretora queria passar, a serem discutidas pelos cinéfilos de plantão. A obra é eficiente em abordar o tema, mas acaba sofrendo um pouco com a falta de desenvolvimento das principais interessadas, as jovens prostitutas. “Elles” perde tempo demais em querer ser uma obra explícita, para um público adulto e sofisticado (mesmo com a censura não tão alta), e deixa passar em branco o que essas meninas querem realmente.

elles6.jpg Em determinada cena a mãe de uma delas confronta-a sobre sua forma de sustento. Mas o que realmente ela faz com seu dinheiro, aonde o gasta, o que gosta de fazer nas horas vagas, como se diverte? Obras como o excelente “docu-drama” de Steven Soderbergh, protagonizado pela estrela pornô Sasha Grey possuía muito mais a dizer sobre o universo das acompanhantes.

A protagonista era inteligente e sofisticada, uma mulher de negócios, que dava dicas de investimento a seus clientes durante a crise econômica recente americana. Possuía mais conteúdo sobre relacionamentos, sobre o distanciamento da profissão e da vida pessoal. Acima de tudo sabíamos quem era e o que queria a protagonista. Sabíamos de cada emoção sua sem que precisasse dizer uma palavra. O que faltou em “Elles” foi o insight de uma verdadeira profissional do ramo, coisa com que Soderbergh armou seu filme.


Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos..
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