Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos.

COSMÓPOLIS - O PRIMEIRO FILME SOBRE O NOVO MILÊNIO

O visceral e revolucionário David Cronenberg nos convida para uma viagem a bordo da limusine de um jovem magnata, enquanto o mundo explode num verdadeiro capitalismo predatório e selvagem.


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É impossível analisar “Cosmópolis” fora do contexto das obras do diretor David Cronenberg. Mesmo se tratando de um texto criado por Don DeLillo, em seu livro homônimo de 2003, a produção cinematográfica exala Cronenberg. O cineasta canadense começou a carreira e ganhou notoriedade com obras viscerais voltadas para o horror explícito, em filmes como “Scanners”, “Videodrome” e “A Mosca”, o que lhe garantiu os apelidos de Barão do Sangue e Rei do Horror Venéreo.

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As esquisitices de Cronenberg ganharam toques de intelectualismo em anos seguintes, com obras como “Mistérios e Paixões”, “Existenz”, “Crash – Estranhos Prazeres” e “Spider – Desafie sua Mente”; e logo após se tornaram acessíveis ao grande público em produções de prestígio (inclusive no Oscar) como “Marcas da Violência” e “Senhores do Crime”. Quando todos esperavam que o diretor seguisse pelo caminho do aceitável, eis que a carreira de Cronenberg sofre mais uma metamorfose (assim como grande parte dos personagens em seus filmes), e o cineasta entrega trabalhos como “Um Método Perigoso” e o novo “Cosmópolis”.

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Em sua nova fase Cronenberg não deseja falar com o grande público, muito pelo contrário, o diretor cria projetos de difícil identificação, segmentando seus espectadores a um número diminuto. Fica claro que “Cosmópolis” não é um filme para todos, e mesmo os que forem adeptos de leituras cinematográficas intensas e complexas de obras literárias igualmente, podem encontrar grande barreira ao se prontificarem a assistir o novo trabalho do diretor. Na trama, Robert Pattinson (sim, o vampiro reluzente da série juvenil “Crepúsculo”) é Eric Packer, o jovem dono mundo, um megaempresário de Wall Street, que se encontra a caminho de um corte de cabelo em sua limusine.

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Com essa premissa básica e direta, DeLillo e agora Cronenberg criam teias de complexidade filosófica, e discutem tecnologia, futuro, fidelidade, sociedade, humanismo, e outros temas existencialistas milenares. A estrutura narrativa (singular de Cronenberg) é montada na forma de personagens que vão cruzando o caminho do protagonista, e deles nascem as interações usadas como tópicos do filme. A cidade está parada pois o presidente está passando, o trânsito está um caos, mas isso não impede o jovem bilionário de atravessá-la para conseguir o que deseja, esse é mais um desafio a ser vencido.

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Ao final entendemos que existe um significado bem lógico para o desejo quase suicida do personagem principal. O sujeito está marcado para a morte, e seu segurança pessoal não recomenda que fiquem presos no trânsito como alvos fáceis. Mas a conclusão do destino deixa claro o desejo do jovem por um último refúgio de humanidade, no auge de sua intolerância e indiferença. O personagem de Pattinson não é mais humano do que as diversas criaturas criadas por Cronenberg em seus filmes iniciais.

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Aqui, o protagonista ao invés de aos poucos ir deixando o que o faz humano de lado, já começa como um ser repulsivo drenado de qualquer qualidade identificável de um ser normal e real. Em partes “Cosmópolis” remete à “Existenz”, obra de ficção científica escrita por Cronenberg e lançada no mesmo ano de “Matrix” (comparações foram feitas exaustivamente), e último filme do cineasta a fazer uso de um teor surreal gráfico (leia-se, criaturas nojentas). Nos dois filmes temos protagonistas geniais, de certa forma endeusados, e marcados para morrer por seus feitos avaliados como obscenos, antinaturais e revolucionários, por extremistas.

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Atores do nível de Juliette Binoche, Paul Giamatti, Samantha Morton e Mathieu Amalric, não devem ter hesitado muito ao receberem o convite para fazer parte do intrigante projeto, e claro, trabalhar com (ainda) uma das vozes mais criativas e diferenciadas do cinema. “Cosmópolis” é por vezes reflexivo, cruel, assustador, hilário, ousado, novo, e como será muito acusado, pretensioso. A cena final entre Pattinson e Giamatti, e conclusão da obra, é de digestão tão difícil que não poderia ser outra coisa senão anticlimática.

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Os pequenos segmentos da obra (os encontros do personagem) podem ser avaliados por si só, “Cosmópolis” é o tipo de filme que talvez deva ser assistido mais de uma vez a fim de um julgamento justo. O destaque no elenco fica com a novata de 25 anos, Sarah Gadon, que já havia trabalhado com Cronenberg numa participação em “Um Método Perigoso”, e que no Festival de Cannes desse ano também exibiu um projeto ao lado do filho do diretor, o cineasta Brandon Cronenberg, em seu filme de estreia, “Antiviral”. Gadon entrega uma performance plácida, assim como sua beleza. E o que todos querem saber, se o jovem Robert Pattinson consegue destaque, digamos que o ator está se empenhando em desafios, e que trabalhos ao lado de diretores de peso em projetos audaciosos e artísticos como esse só ajudam uma carreira.


Pablo R. Bazarello

Publicitário, Crítico e cinéfilo entusiasta. Do tipo que sempre tira algo de bom de um filme. Mesmo que seja o sapato de um coadjuvante que aparece por 2 minutos..
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