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literatura, fragmentos de opiniões, estilhaços de pensamentos

Lucas Toledo de Andrade

Mestrando em Estudos Literários, aquariano, otimista convicto e um pouco irritante.

A escrita silenciosa de João Anzanello Carrascoza

A prosa de João Anzanello Carrascoza caminha na contramão da dominante literária brasileira da contemporaneidade. Sua prosa merece atenção e leitura, pois possibilita que caminhemos no interior de nossas próprias experiências e prestemos atenção naquilo, que os olhos apressados desses tempos, nos impedem de ver.


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A prosa de João Anzanello Carrascoza repousa como um bálsamo sobre os escritos sanguinolentos, rodeados de violência, crise, medo e ansiedade que vêm sendo a tônica da produção literária brasileira da contemporaneidade. Sabe-se que a literatura brasileira do presente é marcada dominantemente pela representação da violência nos grandes centros urbanos, por sujeitos em crise, pelo uso de um realismo exacerbado e pela apresentação de relações humanas cada vez mais fluidas, descartáveis e vazias de significação. É possível falar ainda que essa literatura revela-se também pela pluralidade de temas e por isso ao lado de textos trazem as características trazidas acima, há outros que exploram um olhar diferente para a vida humana, preocupando-se com experiências mais subjetivas, situações ordinárias e familiares percebendo na vida uma significação profunda e vendo nas mais intimas relações humanas momentos de construção de aprendizados, beleza e lirismo. A obra do paulista João A. Carrascoza traz a exploração das relações humanas e familiares, o apreço aos pormenores cotidianos, a criação de espaços íntimos e o surgimento da epifania em instantes comuns do dia-a-dia. Carrascoza possui vários livros de contos e lançou dois novos romances: Aos 7 e aos 40 (2013), Caderno de um ausente (2014) e todos eles possuem como dominante temática as relações familiares, a exploração do mais simples cotidiano, o aprendizado que surge por meio dos encontros entre indivíduos.

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O volume do silêncio (2006) é uma coletânea de contos de João Anzanello Carrascoza, vencedora do Prêmio Jabuti de 2007 (3º lugar). Os 17 contos que compõem a coletânea, foram selecionados por Nelson de Oliveira, e trazem as marcas dominantes da prosa de Carrascoza, fazendo um importante balanço de sua carreira e mostrando a qualidade estética de sua produção contística. Os contos de O volume do silêncio exploram as situações humanas ocorridas em espaços simples e íntimos, como as casas de família e o ambiente rural. Esses espaços são habitados por seres que se conhecem de longa data, que fazem parte do convívio um do outro e que redescobrem no interior de suas relações os sentidos de suas vidas e, além disso, passam por experiências que trazem aprendizados profundos.

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É o caso de contos como “Iluminados”, que conta a história de um casal que redescobre a essência de sua relação, que se reencontra depois da distância criada pelo próprio cotidiano em meio a um blecaute, na véspera do carnaval. Lúcia e Ramón, o casal protagonista da narrativa, possui uma relação desgastada que é refeita após um acontecimento inesperado, após um blecaute e assim reveem seu relacionamento, relembram seus encontros, se reencontram fisicamente e subjetivamente e é dessa forma que a epifania brota do chão do mais simples fato cotidiano. São assim também os demais contos do livro, “Caçador de vidro” que explora a relação de pai e filho, mostrando ainda a beleza do olhar da infância, os aprendizados colhidos nas pequenas observações, já “Umbilical” vale-se de uma narração imbricada, alternada em duas vozes, para revelar a força da relação de mãe e filho, uma sinfonia de dois tons, que percebe as dores do filho e da mãe e os encaminha para o encontro, para completude, como se renascessem. Existem outros contos que merecem atenção e leitura, como: “Dora”, “Meu amigo João”, “O menino e o pião”, “Duas tardes” e tantos outros que se apoiam nas relações humanas, especialmente nas familiares, que reverberam a voz dissonante de João Carrascoza na literatura atual do país. O volume do silêncio foi minha primeira leitura de Carrascoza e o livro me revelou a beleza da prosa desse autor, que possui uma escrita preocupada com a escolha da palavra certa, com a utilização de metáforas, com a construção de belíssimas imagens, fatores esses que aproximam fortemente a prosa desse autor à poesia. Isso se confirmou com a leitura das demais produções: Duas tardes (2002), Dias raros (2004), Espinhos e Alfinetes (2010), Aquela água toda (2012). Comentarei brevemente sobre alguma delas, as mais marcantes na minha experiência de leitura. Aquela água toda possui um projeto gráfico interessante e belo, a artista Leya Mira Brander, cria imagens impressas em papel gordura que criam um efeito estético único e contribuem para a elaboração de toda a significação dos contos. Os contos desse livro se pautam, quase sempre, na visão encantada da infância para com o mundo, as narrativas tratam de experiências de iniciação e vivências marcantes é a primeira vez diante do mar, o primeiro amor, o primeiro desencantamento da vida.

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Já Espinhos e Alfinetes é um livro comovente e dolorido trata da dor da perda, do entendimento da finitude da vida, do encontro dos personagens com o trágico. São histórias e histórias que mostram os espinhos e os alfinetes que nos ferem ao longo da vida, que nos machucam intimamente, mas que nos levam ao encontro de outros aprendizados e da maturidade, pois as relações familiares deixam valores e experiências que nos permitem caminhar em frente, mesmo diante da dor.

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A prosa carrascoziana merece atenção, pois ela possui um silêncio que diz tantas coisas, um silêncio que fala no profundo e íntimo de todos nós, que permite o caminhar pelo interior de nossas próprias experiências, observar os fatos menores da vida e perceber a beleza existente nas relações humanas e no interior das famílias.

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Lucas Toledo de Andrade

Mestrando em Estudos Literários, aquariano, otimista convicto e um pouco irritante. .
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