páginas intempestivas

literatura, fragmentos de opiniões, estilhaços de pensamentos

Lucas Toledo de Andrade

Mestrando em Estudos Literários, aquariano, otimista convicto e um pouco irritante.

Uma crônica

Sobre um tempo em que a humanidade parece insensível e cada vez mais desigual, ou melhor, o nosso próprio tempo. Homens, cidade, trânsito, trabalho, pressa, lucro e abandono.


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A metrópole acordava daquela noite mal dormida, em que os carros andam sem respeitar o sinal, em que as pessoas passam rápidas e vazias tendo suas histórias engolidas pelos prédios e pelo brilho das fachadas das lojas. Já é dia, acabou de amanhecer, e as pessoas já buzinam, se xingam dentro dos carros, os rádios estão altos, os pedestres correm por entre os carros e às vezes precisam disputar sua faixa com os pneus que insistem em ocupá-las deixando bastante claro que a pressa é um dos traços mais marcantes da vida contemporânea.

O homem - mais um naquela multidão - saí de casa para mais um dia corrido naquela cidade grandiosa, tem que disputar seu espaço com carros, com pessoas, com motos, com apressados e lerdos, com impacientes e caridosos. Em casa a mulher tira o café quente, o cheiro se alastra, a criança chora no berço, a outra põe a mochila nas costas e o pai vai de bicicleta tentar trazer o pão pro outro dia, buscando vida em meio ao cinza melancólico das calçadas daquela grande cidade de pequenas pessoas.

A bicicleta vai apressada pelas ruas, tem que chegar à obra na hora certa, para não levar bronca do seu chefe, tem que assentar os últimos tijolos da parede da mansão. Aquela parede faz parte de um quarto grande que abrigará o filho do casal rico – proprietários da casa – o filho nem nasceu, mas já tem seu lugar espaçoso e luxuoso. O filho do homem da bicicleta dorme com o pai e a mãe no mesmo quarto, ele e o irmão mais novo dividem a cama e o travesseiro naquele espaço pequeno, daquela minúscula casa em que o afeto e o trabalho são grandiosos. A bicicleta continua cruzando ruas, passando por semáforos, rapidamente pelas calçadas. O carro grande saí da garagem, a mulher com a barriga grande entra no carro e não conversa com o marido:

-Vamos ver se eles vão entregar a casa no prazo, caso contrário, ligarei na construtora – sobem os vidros, o ar-condicionado é ligado, pé no acelerador, troca de marchas e o silêncio continua entre o recém-casal, no pensamento: o filho, a casa nova, o prazo, as compras, o problema da empresa, a herança com os irmãos, o pai cadavérico no hospital, a mãe gastando no shopping, a empregada folgada...

Trânsito, carros vem e vão, grandes e pequenos, simples e importados, coletivos e individuais, tratados como pessoas, adjetivados como seres humanos. É a época em que a máquina e o homem são iguais, têm o mesmo espaço e o homem fica tão embrutecido quanto à máquina. O carro grande para no sinal vermelho, o casal continua em silêncio, o homem pensa “que merda”, a mulher verifica o esmalte nas unhas e pensa no chá da tarde com as amigas. A bicicleta vem andando, cortando os carros, tentando chegar a tempo ao serviço.

O caminhão dá uma freada brusca, bate na traseira de um carro, o carro bate no outro que quase bate no carro grande, o homem pensa: “se baterem em mim o conserto será carro!”, então acelera bruscamente e livra sua traseira negra do carro detrás, o homem da bicicleta pensando em chegar rápido e assentar o tijolo da parede passa na frente do grande carro, que atropela-o.

Voa bicicleta, voa homem trabalhador, e o homem do carro grita: “que merda, estragou a frente, esse conserto vai ser uma fortuna” e então o sinal abre, os carros buzinam, o carro grande parado, a bicicleta no canteiro, o homem sobre a grama... O carro grande acelera, saí do lugar, tem pressa em ver a mansão, se está no prazo certo. A mulher fica sensibilizada:

-Não vai prestar socorro ao moço da bicicleta!

-Só foi uma “reladinha”, se parar os carros que estão atrás vão bater em mim e o estrago será maior. Além disso, tenho hora para chegar ao escritório.

- Como será que está ficando o salão de festas? – ela pergunta esquecendo-se do homem da bicicleta. O homem no chão, coração palpita, escorre sangue do nariz, os músculos doem, a perna está rasgada e no braço um ferro da bicicleta. A bicicleta está desmontada, pneu de um lado, guidão do outro, o pedal o lixeiro já pegou...

Ao redor do homem alguns curiosos, a garganta dele está seca, ele respira fundo... Na escola seu filho responde a chamada, a mulher bebe café e conversa com a vizinha pela janela, o bebê chupa a chupeta. A ambulância chega e do olho do homem escorre uma lágrima. O grande carro chega à construção, o chefe de obras vem ao encontro do homem de camisa e sapato, a mulher vai direto ao salão de festas:

-Falta assentar os tijolos desse quarto – o homem diz.

-É o quarto do meu filho – a mulher fala passando a mão na barriga.

-Onde está o pedreiro para assentar os tijolos daqui? Quero essa obra no prazo, já até convidei uns amigos para uma festa – diz o homem ao chefe de obras.

-O pedreiro não chegou ainda, mas já ligamos para outro, gente querendo trabalhar é o que não falta! – diz o chefe de obras.

Eles se retiram da construção e vão em direção ao carro:

-Sobre o pedreiro que faltou, provavelmente amanheceu de ressaca, foi final daquele campeonato de futebol e esse povo bebe até cair, você sabe! Mas fique tranquilo que a obra será entregue no prazo – justifica-se mais uma vez o chefe de obras.

O enfermeiro verifica a respiração, olha para o lado e depois coloca o saco preto sobre o corpo. O homem da bicicleta está morto...

[Lucas Toledo de Andrade]


Lucas Toledo de Andrade

Mestrando em Estudos Literários, aquariano, otimista convicto e um pouco irritante. .
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