páginas intempestivas

literatura, fragmentos de opiniões, estilhaços de pensamentos

Lucas Toledo de Andrade

Mestrando em Estudos Literários, aquariano, otimista convicto e um pouco irritante.

Pelo (re)encantamento do mundo

A premissa da vanguarda surrealista mantém-se atual e necessária


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As vanguardas históricas do século XX buscavam, de forma geral, fugir da hipocrisia burguesa, dos costumes e convenções impostas pela sociedade e pelas religiões e trazer à tona um mundo “encantado” livre das coerções capitalistas e da degradação humana já trazida por uma das grandes guerras. O surrealismo se mostra cronologicamente como a última dessas vanguardas, tendo seu início marcado oficialmente pelo “Manifesto do Surrealismo”, publicado em 1924 e escrito por André Breton, fundador do movimento. Essa vanguarda buscava o reencantamento do mundo que devido ao pensamento extremamente racional, a crença positivista, a moral burguesa e as doutrinas difundidas pela classe dominante havia feito do ser humano um indivíduo alienado, preso em uma gaiola de aço e impedido de viver em liberdade, como mostra Max Weber.

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O surrealismo mostrava-se como um movimento capaz de romper essa gaiola (LÖWY, 2001) e de dar a liberdade ao homem que podia buscar em seus instintos mais íntimos, nas lembranças de sua infância – fase livre das coerções do superego – experiências reveladoras, propiciadoras de certo choque que tirariam o homem do estado de alienação gerado pelo capitalismo e daria a ele possibilidades de lutar contra essa sociedade capaz de conseguir tantos adventos modernos e tecnológicos e ao mesmo tempo causar guerras e destruir povos, temos como exemplo a Primeira Guerra Mundial grande influenciadora do surgimento dos movimentos de vanguarda e posteriormente a Segunda Guerra e o horror do nazismo que revelou a crueldade humana e a face terrível do poder de determinados governantes.

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O pensamento surrealista, apesar de quase um século após sua divulgação, se levarmos em conta a publicação do Manifesto, apesar de saber que os próprios surrealistas indicam a presença de comportamento e atitudes surrealistas anteriores a eles, quando citam Sade, Rimbaud, Baudelaire e outros artistas capazes de contestarem a ordem vigente e as convenções de suas sociedades, ainda é atual e bastante importante em nossos tempos, já dizia-nos Maurice Nadeau: o pensamento surrealista é eterno.

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E por que ainda necessitamos das lições do surrealismo?

Pois ainda vivemos em um mundo em que as convenções, a hipocrisia, os valores religiosos e burgueses encerram o indivíduo naquela gaiola de aço e o alienam.

Se os vanguardistas viam uma sociedade cada vez mais degradada e desumana quando olhavam para o modelo de vida imposto pelo capitalismo, chegamos hoje a um estágio bem avançado dessa degradação e desumanidade, tanto é que poucas coisas nos chocam, afinal já estamos anestesiados demais e não conseguimos sequer nos impor contra injustiças.

Parece-nos indispensável, então, olharmos para as ideias de Breton e à arte surrealista e nos “desautomatizarmos” da ordem vigente, buscando a liberdade. Liberdade essa de pensamento que consegue observar as coisas livre de coerções morais tão difundidas por certo pensamento dominante, de entendermos a necessidade de nos livrarmos de amarras que nos impõe tantas obrigações e comprometimentos.

A ideia do surrealismo nunca foi tão atual no mundo de hoje. É preciso sim reencantarmos o mundo, dar certa cor e inocência a ele, é preciso que nos percamos qualquer dia nas ruas da cidade e experimentemos a experiência revolucionária da deriva que vai contra a lógica do "time is money" e põe abaixo a presunção que o humano tem de sempre saber para onde vai, o porquê vai e o que ganhará com aquilo, nunca foi tão necessário fugirmos da racionalidade tão estúpida e ignorante que nos rege e governa. É preciso fugir de tudo, quem sabe enlouquecer, é preciso dar encanto ao mundo que anda tão carente dele para que assim nós mantenhamos realmente vivos...

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Lucas Toledo de Andrade

Mestrando em Estudos Literários, aquariano, otimista convicto e um pouco irritante. .
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