páginas intempestivas

literatura, fragmentos de opiniões, estilhaços de pensamentos

Lucas Toledo de Andrade

Mestrando em Estudos Literários, aquariano, otimista convicto e um pouco irritante.

Emicida e sua estrada de tijolos amarelos

Em seu novo álbum, o rapper Emicida fez um passeio no tempo, andou de ré nas páginas do livro de história - que mentem, nos dizeres do próprio compositor - e foi buscar na realidade de dores e cores africanas, linhas que permitiram a ele bordar fio-a-fio suas composições para que assim, também, tratasse da realidade da periferia brasileira e de todos aqueles descendentes da África, os quais ainda sofrem com as feridas sempre abertas do processo de escravização e tráfico de negros.


Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa.jpg

O que o rapper Emicida propõe em seu novo álbum "Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa” (2015) é um retorno aos caminhos da escravidão, é um passeio de volta ao continente africano para observar além de suas mazelas e dores, sua beleza, sua cultura e sua ancestralidade que está fortemente presente na realidade brasileira, é ainda uma severa crítica ao Brasil contempôraneo e sua mente escravocrata e racista, escondida por detrás do discurso da democracia racial, que vem alimentando o preconceito e a desigualdade há muitos e muitos séculos: "Salve quebrada, século XXI chegamos, mas quem diria?/Na era da informação a burrice dando as carta, a ignorância dando as carta/Vamo buscar se informar, mano [...]".

As faixas do álbum do rapper paulista são compostas por belíssimas misturas rítmicas que buscam evidenciar a força da etnia negra e a sua expressividade cultural, buscando tratar da importância da representatividade e identidade afro-brasileira nas canções que produz, para que assim os sujeitos marginalizados reconheçam sua importância, sua riqueza cultural e também sua beleza e desse modo se imponham contra o preconceito e discutam esse problema. A simbologia da “amora”, em uma das letras do álbum, tem esse intuito, de revelar a doçura e delicadeza “das frutinhas sabor acalanto” que fazem a criança chegar à conclusão de que “papai, que bom, porque eu sou pretinha também”.

Emicida fez um passeio no tempo, andou de ré nas páginas do livro de história, que mentem, nos dizeres do próprio compositor, e foi buscar na realidade de dores e cores africanas linhas que permitiram a ele bordar fio-a-fio suas composições, para que assim também tratasse da realidade da periferia brasileira e de todos aqueles descendentes de África que ainda sofrem com as feridas sempre abertas do processo de escravização e tráfico de negros.

Emicida elabora letras que ferem diretamente o pensamento racista do país, sugere a revolta da periferia, que dona de sua história e de seu conhecimento, lutará pelo fim do preconceito e irá se impor nessa sociedade de escravos e senhores. É o que mostra o clipe da canção “Boa esperança” e também sua letra, uma das mais ácidas do álbum, que pisa no chão dos porões dos navios que traziam escravos e também no espaço dos negros marginalizados do Brasil de hoje, revelando a realidade de dominação e opressão que não se altera mesmo depois de séculos.

Q5A5774.jpeg

Emicida vai caminhando pela estrada de tijolos amarelos, que os personagens do clássico O Mágico de Oz caminharam, sempre em busca de casa, de suas raízes. A casa simbólica é a África e seus tantos países e diversidades e o próprio Brasil, país de tamanho continental, com belezas imensas e contradições gritantes. As raízes estão na própria infância, na importância de se cuidar das futuras gerações, para que se consiga um futuro mais justo a todos: “Foi pelo riso delas que vim/ No memo camin' por nóiz/ Tipo Mágico de Oz/ Meu coração é tão purin'”.

O conceito de “ubuntu”, que é uma filosofia africana, pode ser entendido como uma grande referência para o álbum SCQPLC, já que parte da ideia da relação dos humanos uns com os outros, da capacidade e necessidade de compreensão, solidariedade, compaixão e amor ao próximo para que os problemas humanos, entre eles o da desigualdade social, resolvam-se.

“Ubuntu” revela o planeta Terra como uma grande casa habitada por muitos irmãos, que precisam unir-se, aliar-se para que os conflitos diminuam, que é o que entoa um coral de crianças no refrão de “Casa”, pois os olhos infantis, em Emicida, parecem compreender essa dinâmica do mundo: "O céu é meu pai, a terra mamãe/O mundo inteiro é tipo a minha casa". O andar pela estrada de tijolos amarelos anuncia também a importância de se ver o mundo com o olhar da infância, o retorno a nossa essência, para que entendamos a ideia trazida pelo “ubuntu” e nos vejamos como interligados aos outros e à própria natureza, o que nos fará mais conscientes e capazes de ver nossas ações causam efeitos em toda parte.

Emicida na estrada de tijolos amarelos vai à África, passeia pelas ruas do Brasil, vai fazer uma prece aos seus santos: “Respeito sua fé, sua cruz/ Mas temos duzentos e cinquenta e seis odus/ Todos feitos de sombra e luz, bela/ Sensíveis como a luz das velas” e criticar a imposição religiosa feita pelo colonizador: “Dizem que o diabo veio nos barcos dos europeus/Desde então o povo esqueceu/ Que entre os meus todo mundo era deus”, que ainda hoje subjuga a fé das religiões de matrizes africanas e sustenta a alarmante intolerância religiosa no Brasil de 2015.

O álbum em questão também nos ensina o quão fundamental é olharmos para o outro e nunca nos esquecermos do “caminho de casa”, pois é ele que nos dará o equilíbrio e a força para continuarmos sempre. Essa é a mensagem que o músico envia aos subjugados pelas relações de poder, que precisam valorizar sua ancestralidade e suas raízes, encontrando nelas estímulos para viverem e lutarem por igualdade. A metáfora do “nunca se esqueça do caminho de casa” pode funcionar de maneira universal para todos aqueles que sofrem pelas mais diversas causas e que se perdem nos caminhos da própria vida: “despencados de voos cansativos/ complicados e pensativos/ machucados após tantos crivos/ blindados com nossos motivos/ amuados, reflexivos/ dá-lhe anti-depressivos/ acanhados entre discos e livros/ inofensivos”

"Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa” aponta no próprio título para a pluralidade daquilo que vai tratar, para as mais diversas interpretações que lhe cabem e pode funcionar como uma receita musicalmente matadora para a vida nesses tempos loucos, seja na África ou no Brasil, deixando ainda uma mensagem de otimismo, que liga-se a descoberta da potência escondida na união e cooperação humana, algo que alimenta a filosofia “ubuntu”, conseguindo revelar de que mesmo em meio a todos o caos do mundo, podemos encontrar a verdadeira paz e calmaria no nosso próximo, nas relações humanas: “nem que seja no peito um do outro”, baseadas no amor, na ajuda e na responsabilidade de compreender que suas ações podem causar efeitos muito positivos, ou tragicamente negativos na vida do outro.

Obrigado, Emicida!

emicida2.png


Lucas Toledo de Andrade

Mestrando em Estudos Literários, aquariano, otimista convicto e um pouco irritante. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //Lucas Toledo de Andrade