palavras cruzadas

A arte como estudo da alma

Beatriz Braga

Jornalista pernambucana que acha que cinema é a única coisa melhor que bolo de chocolate e a escrita é a forma de exorcismo mais eficiente.

A beleza de Roma e a decadência humana

Um dos favoritos ao Oscar de Melhor filme estrangeiro, A Grande Beleza é uma história sobre as belezas inconstantes e soterradas da vida. Em um retrato sobre a hipocrisia que a sociedade de Roma, da moda e dos turistas, nunca abandonou, Paolo Sorrentino faz um filme sobre amor, silêncio e descobertas.


3-La-grande-bellezza.jpg Toni Servillo é Jep Gambardella em A grande beleza

Tão belo quanto Roma, cidade onde turistas desmaiam de tanta emoção. Tão cínico quanto uma balada lotada, que quando acaba, sobra a ressaca, a maquiagem borrada e a solidão. Tão lindo quanto ferino, A grande beleza, filme de Paolo Sorrentino indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é daquelas histórias que não desaparecem com os créditos. É como se Jep Gambardella, o protagonista, fosse além de todo o “constrangimento que é estar vivo” e alcançasse a grande beleza da vida, soterrada debaixo do interminável blá-blá-blá do dia-a-dia em sociedade.

Nada mais cruel que uma página em branco para um escritor sem inspiração. Ainda mais sendo Jep (Toni Servillo), beirando os 65 anos e nunca esquecido por um único livro publicado quando jovem. Desde então procura a felicidade nas efemeridades da alta sociedade romana, que julga cruamente, mas a adora na mesma proporção.

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“Os nossos trens são os melhores porque não vão a lugar nenhum”, diz o escritor sobre os trenzinhos humanos regados a álcool nas festas particulares. Mas o afogamento de Jep é consciente. Perdido entre o choro fingido e a emoção que as vezes escancara, a morte e o desejo de vida, a preguiça e a aparência, Jep é um anti-herói que revisita sua própria história, em uma angústia atenuada pelo brilho da vida e da cidade que o rodeia.

Como o gosto que só um arroz que foi requentado tem e o cheiro de vida vivida da casa dos velhos, a imersão de Jep é a descoberta das belezas sutis e escondidas do mundo. Onde a vergonha de participar da miséria humana dá lugar à emoção. “A primeira vista todos podem fazer o mesmo. Basta fechar os olhos. É do outro lado da vida", aconselha, citando o livro Viagem ao fim da noite, na primeira cena do filme.

Tão complexo quanto Jep, o filme traz uma série de discussões paralelas. Como o amor de um jovem casal perdido no anonimato; o prazer de um escritor em usar sua caneta para fracassar projetos e pessoas; mulheres que escondem suas fraquezas seja na exposição da figura nas redes sociais ou em discursos feministas em eventos reais. No final, muito barulho para pouca habilidade no trabalho duro que é viver.

video-recensione-la-grande-bellezza-14466.jpg A beleza de Roma contrasta com a decadência humana

Não é a toa que o filme esteja sendo discutido lado a lado com A doce vida, obra prima de Fellini que tratava de desmascarar a sociedade romana dos anos 60, através dos olhos de um jornalista. Pois bem, a hipocrisia e o fingimento continuam ali, tão imortais quanto o Coliseu, o Palatino e o Arco de Constantino. Roma, essa cidade à mercê da grandiosidade histórica e da eterna síndrome turística, recebe mais um recado de um grande cineasta da época: nunca deixou de estar sendo vigiada.

Veja o trailer de A grande beleza:


Beatriz Braga

Jornalista pernambucana que acha que cinema é a única coisa melhor que bolo de chocolate e a escrita é a forma de exorcismo mais eficiente. .
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