palavras cruzadas

A arte como estudo da alma

Beatriz Braga

Jornalista pernambucana que acha que cinema é a única coisa melhor que bolo de chocolate e a escrita é a forma de exorcismo mais eficiente.

Bernardo Bertolucci mostra que nunca esteve fora de forma

O filme "Eu e você" de Bernardo Bertolucci continua em cartaz em vários cinemas do Brasil e marca o fim do hiato de quase uma década do diretor – que volta cheio de amor, poesia e libertação em mais um conto sobre irmãos.


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De um lado, Bernardo Bertolucci, cineasta italiano destinado a uma cadeira de rodas devido a uma cirurgia malsucedida. Quase dez anos sem lançar filmes a mercê de sua condição e, para trás, um currículo que deixou os cinéfilos com saudades. Do outro, Lorenzo, 14 anos, cheio de acne e um medo absurdo do mundo e da vida. Para os dois, enclausurar-se significava também estar a salvo. O menino é o personagem principal do livro Eu e você, de Nicolò Ammaniti, cuja história foi uma epifania para Bertolucci. Depois de ler a obra, sabia que precisava levá-la à telona. O filme continua em cartaz no Brasil e mostra que toda espera será recompensada.

“De certo modo, minha operação criou uma situação muito parecida com o menino do livro. De me fechar para o mundo. Então eu pude me identificar com ele”, disse no Festival de Cinema de Rotterdam.

Na história, Lorenzo (Jacopo Antinori) é um adolescente que se julga melhor que os outros. Ele mente para mãe ao dizer que vai esquiar com a escola e passa uma semana escondido no porão do prédio. Escuro, sujo e solitário, o lugar é onde Lorenzo finalmente se sente à vontade.

Até que chega Olivia (Tea Falco), sua meia-irmã, tão bela quanto problemática. A garota é a luz do sol que não chega àquele lugar claustrofóbico. Ela é conexão com o lado de fora que o pálido irmão precisa. Por sua vez, Olivia encontra no casulo do menino a mesma função que as drogas têm na sua vida: o escudo contra os males do mundo. Ele é refúgio que ela, por sua vez super exposta, carece.

Depois de achar que nunca mais filmaria e “que era o fim”, o diretor de O último tango em Paris e O último Imperador mostrou que nunca deixou de estar em forma. Mas é ao belíssimo Os sonhadores (2003) que os fãs remetem ao pensar em mais uma história de irmãos filmada por Bertolucci. No último filme do diretor antes do lançamento, um ménage à trois envolvia um casal de gêmeos e um terceiro jovem.

os-sonhadores.jpg Cena do inesquecível Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci

No entanto, apesar de Eu e você trazer à tona o dilema do complexo de Édipo – em uma relação dúbia entre mãe e filho – a essência do filme é mesmo o amor fraternal que é libertador em outros sentidos, que não o sexual. Irmã e irmão constroem, no porão, uma nova visão um do outro. A impressão que dá é que Olivia, Lorenzo e Bertolucci - aos seus renovados 73 anos - juntos, ganham uma nova forma de encarar o mundo.

ioete-FestivaldeCannes.jpg Jacopo Antinori, Bernardo Bertolucci e Tea Falco no Festival de Cannes 2012

Com a música Space Oddity de David Bowie (que aparece também na versão italiana Regazzo solo, ragazza sola na trilha sonora) no volume máximo, esse filme poético é uma própria viagem ao espaço, mesmo que mal fuja das paredes mofadas de um sótão abandonado.


Beatriz Braga

Jornalista pernambucana que acha que cinema é a única coisa melhor que bolo de chocolate e a escrita é a forma de exorcismo mais eficiente. .
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