palavras cruzadas

A arte como estudo da alma

Beatriz Braga

Jornalista pernambucana que acha que cinema é a única coisa melhor que bolo de chocolate e a escrita é a forma de exorcismo mais eficiente.

As bichas vão ganhar

Que poderoso. Ser bicha é, pois, um ato político. A ressignificação da linguagem muda também a nossa perspectiva. Os meninos no vídeo advertem: a partir do momento em que enxergamos a palavra de outra maneira, o cenário se transforma por dentro e por fora.


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"Pode atirar, mas vai ter bicha em todo lugar". Foi assim que um dos amigos do estudante de publicidade Marlon Parente respondeu a uma agressão homofóbica no Recife. Na ocasião, os meninos andavam de mãos dadas pela rua e um motorista incomodado lhes apontou uma arma. Marlon teve uma epifania. Já está na hora do mundo saber que 'ser bicha' não é uma ofensa. E a melhor arma é a palavra. Com um microfone de R$ 10, o jovem reuniu seis histórias inspiradoras e fez o doc Bichas, que virou sucesso na internet.

São quase 40 minutos que todos devem ver. Disponível no youtube, o filme é uma entrevista com seis bichas que falam sobre o preconceito e talvez o mais importante: a ressignificação da palavra 'bicha'. Os meninos estão ali para dizer que o que era arma, virou elogio. E pode gritar, pode rir, que ser bicha é um orgulho.

"A partir do momento em que uma pessoa lhe chama de bicha e você não se ofende, que você aceita aquilo como um elogio, acabou a agressão. Ok, querido, sou bicha sim, obrigada. Diz outra coisa que essa não ofendeu.", diz ítalo Amorim no documentário.

Que poderoso. Ser bicha é, pois, um ato político. A ressignificação da linguagem muda também a nossa perspectiva. Os meninos no vídeo advertem: a partir do momento em que enxergamos a palavra de outra maneira, o cenário se transforma por dentro e por fora.

Os seis entrevistados conseguem levar, através de memórias dolorosas resgatadas na infância e também uma linda dose de bom humor, perspectivas diferentes de quem vive a repressão. Tem a dragqueen; a bicha negra; a bicha classe média; a que chegou a ser submetida a uma terapia cognitiva comportamental para transformá-la em 'homem'; a dançarina, a que viveu a repressão na igreja, em casa, na escola, na rua. Todas elas maravilhosas e dispostas a gritar ao mundo o quão felizes são com sua realidade.

"Eu ouvi que era bicha, que era viado, aos 6 anos de idade, numa padaria eu acho. E eu não sabia o que era aquilo, mas o cara falou de uma forma tão pesada, tão feia que eu entendi que isso era uma coisa ruim', relembra Bruno Delgado, um dos entrevistados.

O bicha, para esses seis meninos incríveis, já foi doloroso. Pelos motivos errados, a vida lhes deu um amadurecimento digno de cabelos brancos. Por isso eles têm muito a falar e o mundo a ouvir. Se algumas experiências foram pesadas, conseguiram dar a volta por cima e agora querem ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo.

A palavra bicha, tão comumente usada para punir, foi um dos meios que esses jovens encontraram de lutar contra o preconceito. E vencer. Eles vêm para dizer que ser bicha é incrível, é libertador, é transgressor e é um dos alicerces para um mundo mais tolerante e justo.

"Para as pessoas a bicha é aquela coisa caricata. Você não ri com ela, você ri dela. Ela não deve ser respeitada, ela não deve ser amada. Mas no âmbito LGBT, a bicha é maravilhosa", afirma João Pedro Simões no vídeo.

Desde então, o vídeo é compartilhado e mensagens de apoio e agradecimento chegam aos meninos por todos os meios. Jovens que criaram coragem para se assumir para após verem o documentário e mostraram o vídeo para família afim de ajudar na missão. Como nem tudo são flores, receberam também denúncias na página oficial do doc do facebook e em seus perfis pessoais. Mas eles são fortes e levam esses percalços como motivações para seguir na luta:

"Mas olha, nem só de notícias ruins vivemos: passamos das 300mil visualizações no YouTube e continuamos recebendo centenas de mensagens de apoio, em tudo que é canto. Ainda temos muita coisa legal pra lançar e muita luta para enfrentar. Não vamos baixar a cabeça e vamos nos manter firmes! Não vamos deitar para homofóbicos e denúncias. Vai ter que aceitar que estaremos SIM em todo canto e por muito tempo", escreveram na página da rede social.


Beatriz Braga

Jornalista pernambucana que acha que cinema é a única coisa melhor que bolo de chocolate e a escrita é a forma de exorcismo mais eficiente. .
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