palavras desconcertantes

É preciso saber ler as entrelinhas.

Rita Ribeiro

Professora por profissão; blogueira por diversão; escritora, bem... como diria Leminski, escrevo e pronto, escrevo porque preciso, escrevo apenas, precisa ter por quê?

As pessoas da nossa história

"É fundamental que cuidemos da nossa história, que saibamos acolher nossas experiências com generosidade." (Hilda Lucas)


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Em uma crônica intitulada "Eternas são as nuvens", a escritora Hilda Lucas se questiona, de maneira singela, para onde vai tudo o que se viveu num relacionamento que termina.

"Para onde vai a mágica de certos instantes? A comunhão que se viveu, a cumplicidade de dividir tempo, espaço, experiências inaugurais? Para onde vão o carinho, a parceria, a entrega? Para onde vai o conhecimento, pessoal e intransferível, que se tinha do outro?"

Cada um de nós poderia ter diferentes respostas ou mesmo nunca ter pensado nisso. Mas, a escritora nos convida a refletir sobre tudo o que fazemos do que foi significativo em nossos relacionamentos. Será que guardamos tudo isso? Valorizamos? Esquecemos? Onde está tudo isso?

Para a autora tudo vai para alguma nuvem, algum lugar interno, talvez, uma nuvem a que ela nomeia weCloud, fazendo uma analogia ao iCloud, uma nuvem, um aplicativo em que podemos armazenar, de forma virtual, determinado conteúdo a cujo acesso podemos ter boas lembranças.

Essas nossas vivências, o prazer que nos fizeram sentir e o conhecimento que delas adquirimos só pertencem a nós (e ao outro), acaba se diluindo em nosso jeito de ser, sentir e pensar.

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De particular passa a nos fazer crescer. Dá-nos um upgrade na visão que temos do mundo. Ninguém passa imune a isso. "Tudo o que vivemos e sentimos vira acervo, fonte, ferramenta", como a escritora diz.

Situações vividas com outra pessoa com a qual se teve intimidade e cumplicidade só podem ser compreendidas por ambos, e revividas e relembradas para sempre, como os planos que se sonhou junto, o apoio nos maus momentos e a torcida por conquistas, as manias, aquilo que nem se precisava dizer, as tristezas, as alegrias e até as decepções. Quem não se lembra dessas coisas?

O que se viveu junto nos fez aprender como lidar com as emoções; como somar; como dividir; como perder; como valorizar as perdas e os ganhos. São nossas memórias, a história de nossa vida.

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E a cada pessoa que parte, outra chega e já somos outros para nova história, nem melhor nem pior, mas outra. Cada um que passa por nossa vida faz uma troca conosco, deixa algo e leva também. E é assim que aprendemos a construir, com companheirismo e cumplicidade.

É um aprendizado que se tira de cada experiência vivida e com cada pessoa que conhecemos, pois cada uma é uma pessoa única, como nós somos únicos também.

Hilda Lucas exemplifica isso de forma bastante interessante ao dizer que "Maria é para João uma Maria que ela nunca será para Pedro, que é um Pedro para Maria, que nunca será o mesmo para Ana. Maria poderá ser muito mais feliz com Pedro do que João, mas ela terá sido a Maria do João e haverá sempre um lugar onde Maria e João se reconhecerão, mesmo que nunca mais se encontrem".

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Dessa forma, a ausência de pessoas tão queridas não é uma perda, e as experiências que tivemos com elas serão sempre únicas e estarão sempre intactas em algum lugar de nosso ser.

Se analisarmos nossos relacionamentos, todos os momentos que passamos causaram em nós algum efeito, pois foram carregados de emoções boas, ou não; mas nos fizeram crescer pelas experiências que vivemos, mesmo que isso só tenha sido compreendido com a ajuda do tempo.

Como diz a escritora, "é fundamental que cuidemos da nossa história, que saibamos acolher nossas experiências com generosidade". E sem nunca nos arrependermos nem nos culparmos.

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Todos esses conhecimentos pessoais e intransferíveis, tão nossos, e conhecidos e compreendidos apenas por aquela pessoa em especial, estão em nosso coração, nossa memória, nossa identidade e formam o que somos hoje, abertos, ainda, a novas aquisições, mudanças e transformações.

E ter essa compreensão faz com que valorizemos nossos relacionamentos pela beleza e pela importância que há nessa oportunidade de partilhar as experiências de vida com alguém.


Rita Ribeiro

Professora por profissão; blogueira por diversão; escritora, bem... como diria Leminski, escrevo e pronto, escrevo porque preciso, escrevo apenas, precisa ter por quê?.
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