palavras desconcertantes

É preciso saber ler as entrelinhas.

Rita Ribeiro

Professora por profissão; blogueira por diversão; escritora, bem... como diria Leminski, escrevo e pronto, escrevo porque preciso, escrevo apenas, precisa ter por quê?

O Outro

Com uma linguagem seca e cortante, o conto de Rubem Fonseca mostra de forma bastante realista a ameaça que a existência do outro pode exercer sobre o homem


Rubem_Fonseca_by_PedroMenezes.jpg Rubem Fonseca, em ilustração de Pedro Menezes

Em 1975, O Outro, de Rubem Fonseca, foi publicado em seu livro Feliz Ano Novo, uma coletânea de contos que mostram a vida urbana e seus tipos marginalizados, os problemas sociais e a violência.

Narra, ainda, as relações do homem na cidade grande, a solidão, e a melancolia. E, como o Brasil vivia sob regime militar, o livro foi censurado um ano depois de seu lançamento, sob a alegação de atentar contra a moral e os bons costumes. Por isso, o livro transformou-se num símbolo de arbitrariedade e intolerância da época.

No entanto, em 1989, foi relançado, para a felicidade dos leitores.

rubem-fonseca-174pgs.jpg Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca

Com a narrativa em primeira pessoa, Rubem Fonseca possibilita ao leitor perceber de forma bastane realista, o que cada personagem vive, o que sente, sua posição social, suas tristezas, angústias e medos.

Quem não conhece o conto, sugiro que o leia aqui, antes de continuar.

Rubem Fonseca narra a vida estressante de um executivo sem tempo para nada, somente para seu trabalho. Passa dias e noites estressado e angustiado, sentindo sempre que o tempo é insuficiente para tudo o que precisa fazer.

“E, sempre, no fim do dia, eu tinha a impressão de que não havia feito tudo o que precisava ser feito. Corria contra o tempo. Quando havia um feriado, no meio da semana, eu me irritava, pois era menos tempo que eu tinha.”

A rotina estressante começa a fazê-lo sentir taquicardia, o que o leva a um cardiologista que (...) “fez um exame minucioso, inclusive um eletrocardiograma de esforço, e, no final, disse que eu precisava diminuir de peso e mudar de vida. Achei graça.”

Com narrativa em primeira pessoa; a linguagem cortante e seca; as frases curtas e bastante pausadas, vamos percebendo a sensação de cansaço e de angústia do executivo, por pensar somente em trabalho, seu único objetivo de vida. Nada mais sabemos dele, senão o estresse que demonstra em sua fala.

"(...) quando estava falando ao telefone para São Paulo, o meu coração disparou. Durante alguns minutos ele bateu num ritmo fortíssimo, me deixando extenuado. Tive que deitar no sofá, até passar. Eu estava tonto, suava muito, quase desmaiei.”

Mas, paralelamente a essa sua dura rotina a que ele se impõe, algo começa a lhe acontecer. Quando sai do escritório ou chega em casa, sempre surge “um sujeito” a quem ele logo dá “uns trocados” para ficar livre dele.

No transcorrer da sua narrativa, percebemos que já não é só o trabalho que o deixa cada vez mais em um cansaço extenuante, mas também a existência daquele “outro” que o aborda sempre, pedindo ajuda e que ele logo imagina ser dinheiro.

"(...)doutor, doutor, será que o senhor podia me ajudar?"

E sentimos que esse outro que lhe pede ajuda o incomoda -- “todo dia?”. Em sua visão, é alguém que o segue; cada vez mais o persegue; e, um dia, torna-se um homem forte e grande e, ainda, passa a espreitá-lo de longe, escondido...

Vemos, então, que o conto representa a relação de alteridade que há entre as pessoas do nosso cotidiano; e, ainda, explicita a imensa dificuldade que temos em perceber esse outro, diferente, muitas vezes, até invisível, necessitado e, por isso, sempre tão ameaçador.

Rubem Fonseca mostra-se atual, pois quarenta anos depois de escrito, seu conto narra uma história comum nesses tempos de modernidade em que o homem só vê suas necessidades e seus problemas, sem perceber a realidade do mundo em que vive. Não percebe as pessoas cujos valores são diferentes dos dele, o que o torna ameaça.

O conto nos alerta de que é a própria sociedade moderna que faz com que as pessoas vivam constantemente em estado de tensão e estresse, por causa do excesso de trabalho, da violência, e da desigualdade social.

Além disso, aceitar as diferenças racial, social, econômica ou cultural cada vez mais presentes em nossas vidas, depende de como cada um vê o outro; se o percebemos como um ser estranho, e até mesmo inferior, que é o que vemos no conto; ou se tentamos enxergá-lo a partir da perspectiva dele e de suas vivências, aceitando ou, ao menos, respeitando sua alteridade. E essa mudança de perspectiva mostra-se urgente, como a narrativa nos faz refletir.

Tanto que, no desfecho dramático do conto, em seu delírio, o executivo percebe tardiamente que aquele que o perseguia era “um menino franzino, de espinhas no rosto e de uma palidez tão grande que nem mesmo o sangue, que foi cobrindo sua face, conseguia esconder”.

rubem_fonseca_ano_novo.jpg Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca


Rita Ribeiro

Professora por profissão; blogueira por diversão; escritora, bem... como diria Leminski, escrevo e pronto, escrevo porque preciso, escrevo apenas, precisa ter por quê?.
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