palavras desconcertantes

É preciso saber ler as entrelinhas.

Rita Ribeiro

Professora por profissão; blogueira por diversão; escritora, bem... como diria Leminski, escrevo e pronto, escrevo porque preciso, escrevo apenas, precisa ter por quê?

Sobre medo e serenidade

A felicidade não existe, mas a serenidade.”
(Luc Ferry, filósofo francês)


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Segundo Luc Ferry, "temos momentos de alegria, mas não temos um estado permanente de satisfação.” Foi o que disse em uma entrevista que deu, na época do lançamento de seu livro "Aprender A Viver: Filosofia Para Mentes Jovens".

A serenidade, segundo o filósofo francês, é a superação do medo, pois é o medo que impede as pessoas de viverem bem, impedindo-as "de sorrir e de pensar de forma inteligente e com liberdade", muitas vezes por estarem voltadas para si mesmas.

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Para ele, existem três formas básicas de medo.

A timidez é a primeira delas, que acontece quando se está diante de alguém importante ou se precisa falar em público. "É uma pressão da sociedade", segundo ele.

Outro medo seriam as fobias: medo de escuro, medo de lugares fechados, medo de altura, entre outros. E por último o medo da morte.

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No entanto, o filósofo, ao descrever o medo da morte não se refere necessariamente ao medo biológico, mas ao medo de perdermos nossos familiares, medo das separações, de ficarmos sozinhos ou qualquer outro tipo de medo que traga para nós a ideia de uma perda irreversível. Algo que não acontecerá novamente. A isso ele chama "medo em vida".

Esse "medo em vida" me remeteu ao fato de eu ter conhecido facetas diferentes da síndrome do pânico, vivenciada por pessoas próximas, e de formas diferentes; algumas com sintomas apenas físicos (taquicardia, suor nas mãos, tontura etc.); outras, psicológicos como um determinado medo incompreensível ou ilógico.

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Hoje o pânico classifica-se como um transtorno de ansiedade, ou seja, quando a ansiedade de uma pessoa extrapola seus limites e a pessoa passa a sofrer em suas atividades normais como o trabalho, os estudos, a convivência em família, entre outras. É uma válvula que a pessoa encontra para descarregar a pressão que sofre.

Assim, pode-se entender que as pessoas não sentem um medo concreto da morte, um medo consciente; mas passível de ter sentido, se levarmos em consideração o que diz o filósofo. Algum acontecimento negativo na vida das pessoas desencadeia esse medo de perder algo de forma irreversível, esse "medo em vida". Algo que nunca mais elas contemplariam.

Se pensarmos bem, sofremos diversas perdas durante a vida, umas que nos fazem sofrer pouco, algo passageiro; outras mais dolorosas, que precisam de tempo para se superar; e outras mais difíceis que, são mais marcantes e até traumatizantes.

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Ter medo é normal e faz parte da vida, é modo até de nos protegermos, mas existe o medo que pode se tornar paralisante e, portanto, patológico. Nosso grande problema está nesse conceito, já meio clichê, mas talvez não tão compreendido pelas pessoas de que o dia de hoje é o único que podemos viver, pois é a única dimensão real do tempo. O problema é que sempre voltamos ao passado ou projetamos no futuro a nossa pretendida felicidade, até inconscientemente.

Como superar o medo, então? Tanto a filosofia, quanto a psicanálise, e até a religião objetivam levar o homem a superar o medo, a conhecer-se, a refletir e a encontrar caminhos. No entanto, para isso é necessário mais do que ter fé, mais do que ter esperança; mas é necessário uma reflexão profunda de como temos vivido, o que temos priorizado em nossa vida.

Essa busca por serenidade é longa e difícil, um desafio até. Mas, é também essa serenidade que talvez nos facilite uma maior abertura para o amor e a vida.

Alguém me disse, um dia, que "serenidade é um tipo de alegria que se vive mesmo na tristeza". Achei interessante.

Precisamos compreender que mesmo as perdas irreversíveis podem dar lugar a outros ganhos, pois a vida é cheia de transformações necessárias ao entendimento do que somos.

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Conta Luc Ferry que, para os sábios gregos, todos teríamos um lugar no universo, no cosmos que, para eles, é eterno, belo e perfeito; todos nós seríamos um fragmento da eternidade, fragmento desse cosmos e, portanto, não precisaríamos ter medo da morte, como eles não tinham, porque a morte não deveria significar nada, apenas a conciliação do ser com o cosmos.

Achei muito bela essa visão, profunda até, e, de certa forma, verdadeira. Mas, essa é outra história...


Rita Ribeiro

Professora por profissão; blogueira por diversão; escritora, bem... como diria Leminski, escrevo e pronto, escrevo porque preciso, escrevo apenas, precisa ter por quê?.
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