palavras desconcertantes

É preciso saber ler as entrelinhas.

Rita Ribeiro

Professora por profissão; blogueira por diversão; escritora, bem... como diria Leminski, escrevo e pronto, escrevo porque preciso, escrevo apenas, precisa ter por quê?

Magnífica 70 e o cinema nos anos de repressão

Com uma bela reconstituição de época, Magnífica 70 é a nova série brasileira produzida pela HBO que homenageia o cinema ao contar a história de um censor que encontra sentido para a sua vida ao conhecer a Boca do Lixo, reduto de produções cinematográficas, num dos períodos de maior repressão da ditadura militar no país


20_may_2015_18_20_06_serie.jpg Fotos Divulgação

Magnífica 70, nova série brasileira produzida pela HBO, é ambientada na cidade de São Paulo, onde ficava a Boca do Lixo, região da cidade em que se produziam filmes de baixo orçamento que ficaram conhecidos como pornochanchadas.

Em 1973, o país vivia um dos períodos mais difíceis da ditadura militar. E ao mesmo tempo que o governo estimulava a produção dos filmes, estes precisavam passar pelo difícil crivo da censura.

A série conta a história de Vicente (Marcos Winter), um censor, cuja função era vetar os filmes que fossem subversivos ou que atentassem contra a moral e os bons costumes da época, pois eram anos de dura repressão.

Vicente, um homem bastante reprimido, de vida monótona, ao assistir ao filme “A Devassa da Estudante”, fica obcecado pela atriz Dora Duram (Simone Spoladore), que lhe traz à mente lembranças perturbadoras de sua jovem cunhada que fora assassinada, um drama vivido por ele e a família da esposa, bem ao estilo Nelson Rodrigues. E atormentado pelas lembranças, censura o filme.

2014-740682176-magnifica70_foto3.jpg_20140808.jpg

Mas, ao saber que o filme censurado levaria a produtora à falência, e deixaria a bela atriz sem dinheiro, fica consternado e, omitindo sua verdadeira identidade, procura Manolo (Adriano Garib), o produtor, para propor uma forma de liberar o filme: modificar o final. Mas quem mudaria o final? Ele mesmo, o censor.

O filme não só é liberado pela censura, como se torna um grande sucesso. O produtor gosta de Vicente, e aposta nele como diretor de um novo filme. Vicente, por outro lado, encontra um sentido para sua vida e seus conflitos ao conhecer o mundo do cinema. Mas, para isso precisará viver uma vida dupla.

sinal-aberto-dos-canais-hbo-para-a-estreia-da-serie-magnifica-70.jpg

Cada personagem da trama traz consigo um drama pessoal do qual precisa se esconder, ou fugir, e encontra na produção desse novo filme a possível solução de seus problemas. E é em torno da Magnífica Cinematográfica que estarão todos reunidos entre muitas mentiras, segundas intenções e mistérios.

Dora, a atriz do filme, é uma moça burguesa, cuja família perdeu tudo e, por isso vive de pequenas trapaças, mas se apaixona pela carreira de atriz. No entanto, terá em seu caminho o seu irmão Dario (Pierre Baitelli) e uma velha amiga Helena (Juliana Ianina).

Izabel (Mara Luísa Mendonça), esposa de Vicente, é uma mulher que se sente frustrada pelo casamento infeliz; por não conseguir engravidar, e por não gostar da figura opressora de seu pai, o General Souto (Paulo César Pereio). Ela se torna um símbolo da mulher reprimida que busca uma transformação.

71888uteuwooh60al0mb4c0av.jpg

1u8m67-1-0x290-el_guion.jpg

Todas as histórias paralelas vão se desenrolando, enquanto o filme é produzido. E, consequentemente, vão se misturando à história do filme.

Magnífica 70 é uma homenagem ao cinema, pois à medida que a série vai se passando, podemos ver que cada acontecimento da série se dá em determinada fase da produção do filme: o roteiro, o início da produção, o elenco se formando, a filmagem, a montagem. Deverá, ainda, passar pela finalização, até que chegue a sua estreia.

Muitas cenas da série são mostradas com tomadas, efeitos de luz e coloridos que se misturam aos efeitos das cenas do filme produzido por eles.

1u8m67-1-0x290-el_guion.jpg(1).jpg

O diretor Cláudio Torres, que também dirigiu Mandrake para o mesmo canal, comenta que foi muito interessante dizer “ação” para ver sua câmera filmar uma outra câmera filmando.

A reconstituição de época é primorosa. Mas, para isso, foi preciso um enorme trabalho de pesquisa da direção de arte. O figurino é composto de roupas da época, sempre muito coloridas, escolhidas em muitos brechós da cidade de São Paulo.

20150525102558293088e.jpg

f0b168397997a10a125f2c2402b5a080.jpg

cena-da-serie-magnifica-70-.jpg

Outro desafio foi a criação dos cenários com todos os objetos dos anos 1970. Além da pesquisa dos carros, das ruas e dos prédios que pudessem ambientar a trama de forma a levar o telespectador a uma viagem no tempo.

Até para se conseguir a estética de um filme daquele período foram utilizados recursos tecnológicos daquele momento. Outros detalhes foram o uso de muito zoom, close, personagens fumando, a nudez e muitos palavrões, bem característicos.

magnifica-jpg2.jpeg

1magnifica-70.jpg

A série, apesar de retratar uma época difícil de nossa história, é contada mesclando romance, drama e suspense, sem deixar de ter um pouco de humor.

Compõem, ainda, o elenco atores como Stepan Nercessian (George Larsen), Joana Fomm (Lúcia), André Frateschi (Flint Westwood), Bella Camero (Ângela), Rogério Fróes (Lourenço), entre outros. E o tema de abertura da série é a música “Sangue Latino”, um grande sucesso de “Secos & Molhados”.

magnifica-70_22.jpg Maria Luísa Mendonça e a diretora Carolina Jabor

series_837_mag12.jpgO diretor Cláudio Torres entre Adriano Garib e Marcos Winter

A direção geral da série é de Cláudio Torres (também produtor e escritor) com direção de episódios de Carolina Jabor; escrita também por Renato Fagundes e Leandro Assis, baseada num roteiro de Toni Marques.

Conta ainda com a produção de Luiz F. Peraza, Roberto Rios e Maria Ângela de Jesus da HBO Latin America; além de Gil Ribeiro e Gustavo Baldoni, da Conspiração Filmes.

Já foram exibidos oito dos treze episódios previstos. Ela está sendo exibida em toda a América Latina, pelo canal por assinatura HBO, e também disponível na HBO Go e HBO On Demand.


Rita Ribeiro

Professora por profissão; blogueira por diversão; escritora, bem... como diria Leminski, escrevo e pronto, escrevo porque preciso, escrevo apenas, precisa ter por quê?.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Rita Ribeiro