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Filmes e letras no imaginário de um flâneur inveterado

Vinícius Fernandes da Silva

Esta é a minha versão dos fatos. E a sua?

O dia da infâmia

Como em um filme de ficção científica a História parece se repetir. Mais um golpe de Estado impetrado em um país que tem sua formação e história pautadas em autoritarismo e violência. Mas como em todo bom filme de sci fi, será que o tecido do espaço-tempo não pode ser modificado?


cms-image-000467985.jpg Eduardo Cunha e João Roberto Marinho

Nasci em 1979, em plena ditadura civil-militar e na última fase dos governos fascistas, liderado naquele momento pelo ditador João Figueiredo, ex-chefe do SNI (Serviço Nacional de Informação), e portanto diretamente responsável por perseguições, torturas, assassinatos e desaparecimentos. Os resultados deste último período da ditadura foram uma anistia que só fez livrar assassinos e torturadores de futuros encarceramentos e o adiantamento do processo de "redemocratização", culminando na Constituição de 1988.

Minha primeira infância e posterior adolescência foram vivenciadas na tentativa do país em efetivar uma agenda democrática e de garantia de direitos. Nossa carta fundamental foi extremamente avançada em seus desígnios e dispositivos jurídicos, porém as práticas políticas fortemente enraizadas pela ditadura se tornaram o principal obstáculo à implementação de uma real democracia. No Brasil a Política institucional e estatal é inimiga da Constituição.

Já na primeira eleição direta para presidente da República, em 1989, vimos que esta política pautada pelos interesses empresariais e do grande capital não rogou em construir, eleger e destituir um personagem-presidente, e a eleição e impeachment de Fernando Collor pela Rede Globo é a mais cabal prova de que não seria nada fácil tentar formar um novo país, mais justo e igualitário.

E a História seguiu, vimos e vivemos enormes crises econômicas, algumas graves crises políticas, um governo de centro-direita, um governo de centro-esquerda e a guinada deste último também para a direita, principalmente em relação à economia do país. Porém algo que podemos verificar, hoje, é que o avanço da democracia pelos chamados meios institucionais-legais precisa ser amplamente questionado.

Os processos conciliatórios que nossas esferas de poder, através das elites partidárias e sindicais, sempre buscaram, acabaram por encobrir algo que sempre tivemos medo de revelar e assumir: a ditadura e seus arautos autoritários estiveram, desde sempre, nos habitando, e efetivamente nunca os enfrentamos. Todos os produtores, defensores, propagadores, difusores, mantenedores do Estado torturador e assassino foram amplamente mantidos e reproduzidos em nossa vida política, social e cultural. Não foram expurgados pelos julgamentos jurídicos e morais que deveríamos ter feito, como a sociedade que gostaríamos avançada a um estado civilizatório verdadeiramente superior.

Fracassamos! Fracassamos em permitir que nossos jovens e adultos fossem "educados" pela indústria cultural e midiática que cotidianamente apoia e estimula a destruição da democracia para continuarem em sua plutocracia formada pelos "homens de bem(ns)". Fracassamos em permitir a construção da indústria cultural e material do extermínio dos "telespectadores", da patuleia, da massa pobre e negra que só serve para reproduzir força de trabalho, e enquanto for "servil", pode e deve continuar a viver na miséria, pois só a miséria pode mantê-la sob controle. Esta indústria cultural e midiática efetivamente não necessita desses telespectadores, o Estado está aí para sustentá-la. Ambos se servem muito bem, até porque uma grande parte dos agentes do Estado também são seus donos.

Fracassamos em não levar para a educação publica e privada a garantida dos direitos humanos como conteúdo principal, e não somente tratá-la como tema transversal! Em não destruir de maneira contundente a ideia difundida pela indústria midiática de que a ditadura foi uma "dita-branda" e que "vários aspectos positivos foram proporcionados ao povo". Farsa! Ao não elencarmos como tema fundamental as garantias das minorias, e que já eram pautas importantíssimas na década de 1980, no seio do avanço dos movimentos feministas, GLS, com o advento do HIV, etc.

Fracassamos em termos permitido que os jovens nascidos nas décadas de 1990 e 2000 ainda reproduzam os discursos homofóbicos, misóginos, racistas e de ódio, ainda pautados na desinformação, na ignorância, na incivilidade que pauta nossa triste história de sociedade escravagista, patriarcal e violenta.

O dia em que um novo golpe de Estado foi perpetrado na História do Brasil, em Abril de 2016, não é um dia novo, não é um novo dia. É um fenômeno que talvez a física quântica possa, no futuro, nos explicar. É uma dobra no espaço-tempo em que o Universo se repete, e repete os mesmos atores, as mesmas falas, os mesmos discursos, as mesmas ações e misérias. Vejam! Não há nada de novo! São exatamente os mesmos atores, as mesmas falas, os mesmos discursos, as mesmas ações e misérias. Vejam! São os mesmos... Que destruíram nossa já opaca democracia em 1964 e que a violentaram novamente em 2016.

Ao vermos os discursos e rostos da esmagadora maioria do Congresso Nacional, neste Abril de 2016, que votaram pelo golpe de Estado (367 votos), podemos realmente compreender nossos fracassos e misérias citados acima. A sociedade brasileira não é efetivamente representada por estes 513 deputados. A anomalia gerada pelo financiamento privado de campanhas pode explicar boa parte desta degeneração. Porém sim, somos também representados e elegemos conscientemente este corpo político. E digo isto para poder afirmar: Uma sociedade que aplaude e permite que um deputado defenda a ditadura e homenageie um notório assassino e torturador, merece, sim, ter como presidente da República Michel Temer e vice-presidente Eduardo Cunha, ou seria o contrário, ou... tanto faz?

E apesar dos fracassos apontados, o mais importante notar é que nos filmes de ficção científica o continuum espaço-tempo sempre pode ser alterado por um fio, por alguma pequena mudança ou esperança que rompa com a repetição e altere o tecido da História.

E mesmo que este 2016 seja uma réplica quase que (im)perfeita de 1964, há a possibilidade de uma mudança significativa: a resistência!

Se em 1964 os golpistas passearam em carro aberto pelas ruas do país, talvez em 2016 esta aventura não seja tão fácil assim. O golpe foi dado, está sendo dado e será dado. Então... Qual a grande diferença?

Sim, parece que dessa vez, vai ter luta! Sim, vai ter luta! Luta! Luta?

Este texto também está publicado no blog Palavras Sobre Qualquer Coisa


Vinícius Fernandes da Silva

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