palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

Você disse que gosta de rosas, baby? Lembre-se que rosas têm espinhos

Desconstruindo alguns equívocos acerca da sensibilidade.


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As pessoas mais sensíveis são provavelmente, aquelas que mais escutam na vida que agem de forma fria, insensível e distante. No entanto, não é como se em algum momento alguém decidisse ser assim ou assado. Moldamos o que somos para aparecer no mundo, mas o que cada um é internamente, só sabe mesmo quem vive.

Algumas pessoas que produziram obras maravilhosas, que tocaram o coração de milhares de indivíduos, ao terem suas vidas pessoais expostas, foram taxadas por alguns como “grandes canalhas”. Figuras como Jim Morrison, Rimbaud, Bob Dylan, Cazuza, e por aí vai. “Por que que a gente é assim?”, perguntava Cazuza, enquanto pedia mais uma dose, se chapava de drogas e bebida, como tantos, que ou morreram cedo ou marcaram o mundo (também) por levarem uma vida desregrada e excêntrica.

A conclusão sobre o “ser” dessas pessoas em consequência de algumas de suas ações, a meu ver, trata-se de uma grande confusão, muito comum, inclusive entre tantos supostos e auto declarados (fake) fanfarrões, que consideram a sensibilidade muito mais sob um prisma moral do que emocional. Acontece que as pessoas sensíveis de fato, geralmente, estão pouco se lixando para a moral. Na verdade, desprezam a moral, “ligam o fodas”, mijam nela como Rimbaud mijou nas taças de champanhe dos literatos burgueses da sua época, enquanto os mesmos o aclamavam como um gênio. Não estão interessados em fama ou boa reputação, embora nem por isso deixem de ser vaidosos e prezar pela admiração da sua obra. São humanos, mas não são estúpidos. Apreciam a sensibilidade das pessoas comuns, que o são com total aceitação, sem tentar parecer algo a mais.

Homens simples, que acordam todos os dias agradecendo pelo “pão nosso de cada dia”, e que fazem música após uma homérica jornada de trabalho, sem saberem nada de teoria musical. Mulheres simples, que passam o dia carregando a casa nas costas e filhos no ventre, mas fazem poesia antes de dormir, mesmo sem conhecerem nada das letras. Simples homens, livres como aves de rapina, rondando restos e lixos, para que ninguém possa cortar suas asas. Prometeus que abandonaram os homens ao fogo, castigam-se comendo suas próprias vísceras através de vícios, enquanto os deuses dormem. Todos aqueles que assumem sem prerrogativas hipócritas a ilusão e a desilusão da vida.

A estes, os olhares sensíveis captam com uma agudeza sem igual, extraindo a beleza de onde tantos escarram. Simplesmente porque, embora não se coloquem exatamente na mesma situação, nômades que são de ideias, atitudes e ideais, compreendem o estar à margem, ainda que assediados por uma falsa aclamação. Tantos que admiram estas figuras, não seriam capazes de conviver com elas e amá-las como amam suas obras e suas lendas, caso tivessem a oportunidade de encontrá-las diante de si.

Pessoas sensíveis não são as que se casam, compõem uma prole de genética elaborada e criação sistematizada, adotam ou compram um animal de estimação fofinho, enchem os álbuns de fotografias de “boas” lembranças estilizadas, e tomam chá com os vizinhos aos domingos. Não são aqueles que se reúnem com a família toda semana, dão atenção a cada um quando os procuram, ou desprezam e selecionam as pessoas de acordo com critérios preestabelecidos. Os sensíveis acabam por se desiludir cedo de mais, e percebem que pouco espaço têm no mundo. Criam universos para poderem sobreviver em detrimento de sucumbir ao abismo, e poucos resistem. Nada surpreende que a overdose, mais de vida do que de química, por vezes leve estes tais tão cedo, deixando no mundo apenas o gosto confuso de suas experiências através de seus legados produtivos. Fim da apreciação, e nunca alertaram que se consumisse com moderação.

Estas almas foram consumidas desde sempre, antes que o papo cabeça envolvesse tanto o termo “capitalismo”. Aqueles que tendem a produzir, perceber e criar de forma diferenciada acabam atraindo um considerável público externo, por sua magnitude, genialidade e inspiração, ainda que na prática sejam pessoas estranhas, imprevisíveis e difíceis de lidar, pois não se submetem aos padrões. No que os outros estão interessados? Exceto os poucos honestos apreciadores da diversidade e da “loucura”, muitos querem beber um pouco do licor sedutor da autenticidade que não desejam bancar por conta própria. Copiar uma ideia, decorar frases, cantar uma música, ouvir sobre algo que poderão repetir por aí, dizer que conheceram alguém que fez tal coisa, ou disse tal máxima, tocou em tal banda, cantou em tal lugar. Transou com ele ou ela. Foi em uma festa em sua casa. Tem seus discos ou livros. Sabe de cor uma fala sua.

Conhecidos ou não, exitosos ou fracassados, vivos ou mortos, falidos ou resignados, aqueles de quem já cansamos de ouvir falar, e os outros que só estão na ponta da língua do seu, em maior parte, involuntário círculo social. Estas pessoas que encantam pelo que são e, consequentemente, pelo que produzem, não importa o quão equilibrados e bem sucedidos pareçam (o que não é o caso da maioria), adoecem da fugacidade dos afetos, da hipocrisia, da ignorância - não raro, qualidade mais dos abastados que dos simples -, das falsas interpretações, da apropriação global do que era íntimo, da criação, tantas vezes travestida no que era desprezado pelo ser que a produziu.

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É explícito hoje, nestes tempos de liberdade de expressão e impressão, em que supostamente tudo o que é dito deve ser incondicionalmente aceito, o equívoco de que quem ama é um puritano com vida sexual regular, de que quem defende direitos é um empada de esquerda (já que a coxinha é de direita), de que quem fala isso hoje, não pode mudar de ideia amanhã, de que quem prega o respeito ao ser humano é religioso ou convencional, de que os adeptos dos direitos humanos defendem bandidos, de que quem faz arte é vagabundo ou rico. Enfim, são tantos os preconceitos que atingem cada um, e não deixam de atingir as almas gloriosas fontes das quais bebemos, ainda após secarmos todo o sangue destes corpos que se esgotam na tentativa de passar ao mundo uma mensagem que poucos captarão.

São tantos cantando “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante”, que nunca mudaram de ideia ou posição, que leem Bukowsky, mas não se aventuram pela vida apesar de toda a frustração, que recitam Rimbaud, mas pregam que poesia é métrica, que assistem Bergman, mas acreditam que a vida faz sentido, aclamam o som de Bob Dylan, mas não tem coragem de “não estar lá", que dizem se emocionar diante da interpretação afetada de Elis Regina ou das letras e expressividade espontânea de Cazuza, mas acham que só os virgens amam. Velhas virgens... Virgens suicidas. Há ainda os que se consideram alternativos e, no entanto, só apreciam o que não virou “modinha”, ou o que foi inventado antes dos anos 70. Recusam-se sequer a conhecer o novo. O contemporâneo. Todavia não medem palavras para criticar o seu tempo, em relação ao qual são alheios.

Toda esta cristalização não se restringe a apreciação da arte, mas abrange a forma com que as pessoas se relacionam com as outras em seus cotidianos. Os papéis sociais e suas respectivas máscaras não se contentam em infectar os ambientes formais, perduram e permutam-se no íntimo, de modo que poucos são o que parecem ser. Não é uma questão de primeira impressão, não é uma questão do nosso século ou da nossa geração.

Quando observamos o movimento das figuras mais inusitadas de todos os tempos, o que percebemos é que sempre estiveram contra algo, não por oposição, mas por resistência às imposições e persistência em ser o que eram ao invés do que gostariam que eles fossem. Em pleno século XXI ainda não captamos a mensagem de tantos que preferiram morrer de fato a viver uma farsa. De tantos que vivem, porque foram capazes de suportar, através de algum equilíbrio, a beleza de mármore da existência. A mensagem é pura e simples: seja e deixe ser. Não se trata de perdermos a nossa singularidade, pelo contrário: consiste em encontrá-la, cada um de nós, em vez de repetirmos refrões ou versículos pelos quarteirões. Não se trata de individualismo, mas de individualidade a qual cada um, quando no encontro consigo mesmo for capaz de aceitá-la, também conseguirá lidar melhor com aquilo que não é igual a si mesmo, sem desprezá-lo, desrespeitá-lo, ludibriá-lo, marginalizá-lo...

Aqueles que tão cedo exploram o território das emoções humanas, para primeiro encantar-se com ele e, posteriormente, desencantar-se abrupta e violentamente diante da realidade gerada pelos padrões assumidos ou camuflados, quando não se anulam e endurecem, acabam por adotar armaduras que os permitam viver ao menos um pouco mais, sem amargar-se, igualar-se ou desintegrar-se. Em consequência disso acabam por ter associadas a si a frieza e a insensibilidade. Pedras atiradas por moribundos que sofrem da catarata da superficialidade. Incapazes de “ir a fundo”, acusam de frigidez emocional àqueles que são, geralmente, as pessoas mais sensíveis no que se refere à capacidade de sentir integralmente, perceber e ter empatia (inclusive os rotulados de apáticos). Trata-se de mais um discurso equivocado, sustentado pela falácia milenar de confundir sensibilidade humana, com moralismo e romantismo comercial.

Aos que conseguirem se desvencilhar dessa armadilha, territórios humanos paradisíacos e inexplorados se revelarão. Verdadeiros apaixonados pela beleza e perfume das rosas, em algum momento já se feriram em seus espinhos, e nem por isso elas deixaram de ser belas e perfumadas.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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