palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

3 Filmes Biográficos que Cartografam

Arriscando novos ares para as biografias, três filmes biográficos ousaram buscar capturar as intensidades das personalidades que os inspiraram, possibilitando encontros entre o expectador, o artista e a obra.


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Obras com intenções biográficas, tendo a pretensão de serem realistas ou de fantasiar acerca da pessoa biografada transformando-a em um personagem, carregam repercussões polêmicas. Entre as figuras que habitaram os diversos territórios da arte, muitos, enquanto em vida, se declararam avessos à ideia de alguém produzindo algo sobre a sua vida e a sua pessoa. Esta recusa não chega a ser surpreendente, pois geralmente, a história contada em uma biografia limita estas pessoas ao criar um quadro emoldurado sobre quem foram, suas obras e processos criativos, tornando-se subsídio para interpretações equívocas e esdrúxulas. Vemos algumas produções transformarem seus “biografados” em verdadeiros heróis homéricos, enquanto outras os colocam abaixo do chão. Mesmo quando uma biografia é tratada de forma séria, baseada em diversas pesquisas, entrevistas e tudo o que tem direito, é comum que ali se apresente muito da percepção de quem fala e pouco da real natureza da pessoa falada.

Tais peripécias são reflexos da vida cotidiana, considerando que tudo o que temos sobre as pessoas, enquanto tentamos defini-las através de características precisas e de uma linearidade histórica, são retratos que fazemos destas, incapazes de abrangê-las em sua vitalidade e amplitude. E por este vício das coisas como são, certas biografias criam imagens tão aceitáveis sobre seus personagens, que todos os que tiveram contato com aquela, acreditam que a pessoa era ou é exatamente da forma em que foi retratada. No entanto, quando existem várias biografias sobre a mesma pessoa, fica clara esta divergência de pontos de vista. Assim, tudo o que temos deveras são recortes, fatos e curiosidades, não obstante questionáveis, sobre tais figuras. O gostinho de contato com a personalidade que deu vida a obra que tanto nos afeta enquanto expectadores passa longe dessas produções, às vezes sem oferecer gosto algum a não ser uma nova história, que tem como personagem alguém que existiu e se tornou conhecido. Entretanto, nem sempre deixam de ser atrativas e de nos doar ilusões.

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Todavia, entre o contexto das biografias descritivas e lineares, realistas ou fantásticas, encontramos algumas obras que nos surpreendem e confundem por se diferenciarem em sua composição. Destas, tive contato com três filmes biográficos que ao contrário de outros, não me ofertaram o sacrilégio de criar nenhuma imagem definida e limitada daquele de quem falava. Pelo contrário, a sensação era uma ebulição de imagens e afetos, assim como nos sentimos em relação às pessoas que nos afetam no decorrer da vida. Realizadas com uma proposta que foge às tendências objetificantes, orientadas mais pelo viés artístico do que pelo histórico, além de belas homenagens aos seus biografados, estas produções permitem ao expectador um gosto intenso, mas indefinível, do que foram aquelas existências.

Dentre estas, embarquei em uma viagem ao entrar em contato com o filme “Eu não estou lá” (Título original: I’m not there), do diretor Todd Haynes, que apresenta Bob Dylan através de seis personagens diferentes, em contextos diversos, com aparências e idades distintas. Sem compromisso algum com a linearidade, a história às vezes parece fazer com que o expectador se perca propositalmente entre a intensa exibição de vivências e discursos dos personagens, que ao tentarmos capturar, nos puxam para o interior das tramas. O desvario de compreensão não se compara ao turbilhão de afetos que o filme engendra. A partir desse filme creio ser impossível criar uma imagem estática sobre Bob Dylan, mas uma sensação de algo sobre ele, um sentimento. Um dos aspectos curiosos dessa produção é que o personagem que mais se parece com o Bob Dylan, tal qual a figura pública que conhecemos “atualmente”, é representado por uma mulher, Cate Blanchett. Detalhes borrifam, do elenco ao figurino, a essência múltipla e polimorfa digna do biografado, que se jogou como uma pedra rolante no curso de sua criação.

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Outro filme, baseado no livro do autor Michael Cunningham, de mesmo nome e guardando intrínseca semelhança com o mesmo, trata-se de “As Horas” (Titulo Original: The Hours), do diretor Stephen Daldry. Este nos apresenta Virginia Woolf em 1923, enquanto escrevia Mrs. Dalloway e vivenciava os momentos finais de sua vida, concomitantemente a duas outras personagens, cujas vivências eram conectadas por este livro da autora-personagem: Laura Brown em 1951, uma dona de casa arrebatada pela angústia enquanto representava o seu papel social de mulher exemplar e Clarissa Vaughn, uma mulher enérgica e prática do início do século XXI, resistindo ao drama das crises dos seus relacionamentos.

O filme nos embala em cenas intercaladas da vida dessas mulheres, que se encontravam de formas singulares com o livro Mrs. Dalloway, enquanto Virginia Woolf o escrevia e cambaleava diante da sua própria vida. Viviam angústias existenciais que espelhavam conflitos entre as obrigações sociais, inclusive as que se referiam ao gênero feminino, e os seus desejos. Imagens-tempo narram delas o sofrimento de anular-se enquanto sujeito para interpretar um papel que lhes foi designado, o mesmo vazio vivido sobriamente pela personagem do livro - Clarissa Dalloway. No desenvolvimento das personagens e da forma peculiar com que cada uma lidava com suas vivências, a obra não apenas transpõe a imagem de Virginia Woolf para além da sua época, do seu contexto e dos fatos da sua vida, mas discorre sobre questões existenciais em torno do gênero feminino, trazendo da autora também as principais temáticas que a envolveram. É um filme dramático e forte, com denso teor existencial, deixando um ruidoso e inquieto silêncio após sua apreciação.

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Semelhante descoberta dessa fuga aos padrões biográficos é o documentário nacional “Elena”, da diretora Petra Costa. Neste filme, Petra mergulha na produção, não somente enquanto diretora, mas também enquanto personagem e figura biografada. A produção traz recortes de vídeos e fotos capturados pela própria Elena, enquanto a voz de Petra narra poeticamente relatos, sensações e lembranças da vida da irmã e da sua relação com a mesma, o que por fim se mistura com a vida das mulheres daquela família. A fotografia do filme é rica de luzes e imagens poéticas, todas dizendo sobre Elena mais do que os fatos, mais do que a própria narração. Embora a personagem não seja uma figura conhecida, diante das particularidades da sua trajetória, o exposto não nos permite formar uma única imagem sobre ela. Pelo contrário, a sensação ao assistir este filme que ganha como título e sujeito o nome dessa mulher, é a curiosidade em conhecê-la. A pergunta que fica é justamente “quem era Elena?”. Nasce um desejo de conhecer essa mulher que tentou capturar a vida...

A esta categoria de produção biográfica, título mais digno seria cartografia, conceito da geografia que expandiu para o campo das ideias, cuja concepção contrapõe a noção do mapa enquanto limitador do território aos seus aspectos estáticos e extensos, propondo de uma forma dinâmica capturar intensidades, acompanhando as transformações dos espaços. Considerando que cada pessoa é um universo, negligente seria mapeá-las, ignorando suas mudanças climáticas, os povos que as habitam, as histórias que nelas transcorrem, os afetos que desenham suas relações, suas angustias e fases da lua.

Ousadas, estas produções buscaram captar algo do turbilhão interior dessas existências inquietas, que para sobreviver precisaram multiplicar formas pela atuação, pela dança, pela música, pela literatura, pela arte enfim. Figuras estas que dizem de outras figuras igualmente desassossegadas. Biografias cartografias que homenageiam mais do que as personalidades das quais tratam, mas todos estes mundos internos que muitos fecundam, e alguns atrevem-se a inaugurar o nascimento.

Referência sobre o conceito de Cartografia:

KIRST, Patrícia Gomes et al. Conhecimento e Cartografia: tempestade de possíveis. Organizado por Tânia Mara Galli Fonseca e Patrícia Gomes Kirst. p.91-101 . Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003.


Paula Peregrina

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