palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

Orgulho, Preconceito e os Afetos em Tempos de Competição

Uma reflexão contemporânea a partir do romance "Orgulho e Preconceito", sobre os efeitos da cultura de competição na forma em que vivemos nossos afetos.


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O romance “Orgulho e Preconceito” foi escrito por Jane Austen no século XVIII e publicado no início do século XIX. Posteriormente rendeu várias adaptações para o cinema e até mesmo um seriado. A história tornou-se conhecida e admirada por muitos, e até os dias de hoje, cada expectador provavelmente consegue encontrar no enredo identificações com a realidade das suas relações, em que a superficialidade do olhar trama armadilhas de equívocos, com sorte, desarmadas com o tempo. É o que acontece na trajetória de Elizabeth Bennet, segunda filha de cinco irmãs e, como a narrativa se desenrola no final do século XVIII, tem uma mãe obcecada por encontrar um “bom” casamento para as filhas. Mrs. Bennet leva esta missão muito a sério, e arma toda uma situação para tentar casar uma de suas filhas com Mr. Bingley, um jovem rico vindo de Londres, que se instala em uma mansão suntuosa na cidade fictícia de Meryton. Não necessariamente pelos artifícios dessa mãe, sua filha mais velha, Jane, conquista Mr. Bingley e eles se apaixonam. No entanto, a histérica Mrs. Bennet não percebe a natureza dos fatos, e continua intervindo ao ponto da inconveniência. A consequência dessa postura, assim como de todo o furor entre as jovens moças Bennet, associados à simplicidade financeira da família, acaba por abrir espaços para os equívocos.

Neste círculo de acontecimentos, Elizabeth, que aparenta desinteresse pelos homens e pelo casamento, moça de temperamento forte e alegre, conhece Mr. Darcy, amigo de Mr. Bingley, um homem sem sorrisos, elogios ou gentilezas. Taciturno e austero, Darcy se porta de forma polidamente ríspida com as pessoas do entorno, além de não ser muito disposto às interações. Ainda assim, é justamente ele que chama a atenção de Elizabeth, e é em torno dessa atração compartilhada, mas recusada por ambos, de seus enganos e desencontros, que a história se desenrola, até o típico final feliz que a maioria dos romances comporta. Como cabe ao tema que nomeia este romance, os personagens são surpreendidos pela descoberta daquilo que já conheciam. Isto é, ao conhecerem as pessoas, criaram um estereótipo sobre elas e agiam de acordo com isto (o preconceito). Apesar disso, eram afetados pelos seus encontros e com eles se transformavam, ainda que parecesse inadmissível - e dessa recusa nasciam os conflitos (consequências do orgulho). Posteriormente, descobrem seus próprios equívocos e enxergam algo além da figura que fizeram daquelas pessoas e deles mesmos, chegando a identificar semelhanças com aquelas. O orgulho e o preconceito, alimentados pelas convenções, assim como pelas experiências de cada um, travaram batalhas com todos os outros sentimentos. O convencional e a emoção se encontraram e entraram em estado de entropia, até que, particularmente pelo poder do diálogo, reencontraram a organização.

É claro que em um romance romântico, as coisas caminham bem. Mas pensando no mundo real, esse que vivemos a cada dia, como estas miscelâneas se desenrolam?

Vivemos em tempos de competição acirrada. Se este aspecto é característico do ser humano em todos os tempos, temos hoje o endosso do capitalismo. Poderíamos pensar no que parece inevitável, como a competição entre pares no mercado de trabalho ou por uma posição em determinado lugar. Todavia, não é esta a competição que nos prejudica.

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Enraizada na forma em que aprendemos a viver e a ver o mundo, a competição pode nos impedir de nos relacionarmos de fato. Por um momento, podemos encontrar alguém que desorganize a nossa razão, abale as nossas convicções, ou simplesmente desperte nossos afetos para a vida. No entanto, a magia do início de todos os encontros, aqueles que são marcados pelos olhares, pequenos gestos e alegria incomum, tende a deteriorar-se cada vez mais rápido com um pouco de convivência. Dentre tantas outras motivações para que isto aconteça, a competição é provavelmente uma das mais perniciosas.

Tendemos a nos colocar diante do outro não com o coração aberto, mas posicionados para a largada. Antes que alguém nos faça algum mal, o fazemos primeiro. Precisamos mostrar o quanto temos, o quanto sabemos fazer, o quanto existem pessoas que gostariam de estar no lugar daquela pessoa, o quanto não precisamos dela, e por aí vai o lamentável jogo de críquete. Golpes recorrentes nascem da necessidade de se promover diante do outro, de se mostrar superior, para que ele o valorize. Tudo como se estivéssemos competindo agressivamente por uma vaga de emprego. Em consonância, a outra parte não quer ficar por baixo, e começa a se colocar na mesma sintonia, ou se exaltando, ou desmerecendo o que o outro faz. Os encontros afetados se transformam gradualmente em ringues de luta gelada, de palavras que tentam ferir ou defender. O campo das emoções se torna um campo de batalha, cuja conquista almejada dorme na distante terra dos ideais, para onde, sangrando, derrotados e sozinhos, seguem os soldados desse combate sem vitórias.

Na atualidade, em que as mulheres vivem conquistas e lutas por igualdade de direitos, a confusão acerca dessa realidade intensifica a dificuldade de cultivar encontros e relacionamentos honestos, sejam amizades ou romances, tendemos a nos tornar guerreiros solitários sem ninguém que nos espere no retorno de uma empreitada. Isto porque todos querem ser esperados, mas ninguém quer esperar. Todos querem ser desejados, mas ninguém que ir atrás – o orgulho disfarçado de autoestima nos prega que ninguém vale a pena a não ser nosso próprio reflexo.

Neste contexto consideravelmente recente, as mulheres apresentam novas configurações, tanto no que se refere à forma de pensar e de agir, quanto no que se refere à forma de expressar suas emoções e desejos. Enquanto isto, os homens são criados com um ideal de feminino distorcido, que não subsiste mais as condições contemporâneas. Não menos afetadas pelos antigos padrões em guerrilha com "o novo", são as mulheres. Diante da surpresa e do combate interno, da emoção atemporal e dos costumes persistentes, ambos por vezes acabam sem saber como agir. Um quer se retirar da iniciativa por ser moderno e o outro por ter aprendido que deve esperar. Um se assusta com a iniciativa do outro por ser conservador e o outro se angustia porque fora uma vez criticado por não ter iniciativa e agora é criticado por tê-la. Enfim, temos dentro de nós estas e tantas outras concepções divergentes. As mudanças que deveriam ser motivadoras das interações culminam em distâncias. Qualquer sentimento relacionado ao amor fica sufocado, esmagado pelas emoções obesas predominantes em nossa cultura de hostilidade.

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Se os afetos instantâneos morrem quando não são alimentados, e a convivência aborta as relações degradadas pelos fantasmas que carregamos, nem mesmo chegamos a conhecer as pessoas integralmente, pela nossa própria recusa, ante a queda dos ideais preestabelecidos e das frustrações projetadas no outro. Autores de acusações, nos tornamos incapazes de olhar para nossas próprias atitudes. Vivemos em meio a fotografias recortadas, retalhos de gente que conhecemos pelo caminho, cacos de relações, fragmentos de emoções e estilhaços de experiências. A impaciência e a ansiedade do desejo de que algo aconteça imediatamente, de que tudo instantaneamente se revele e seja esplêndido, transforma diversas trajetórias em verdadeiras penitencias.

Ansiosos, orgulhosos, preconceituosos, inseguros e impacientes, julgamos aos outros rápido demais. Enquanto isso, guardamos nossos sentimentos em uma caixa ornamentada, esperando pelo momento áureo para entregá-la ao vencedor do prêmio, como se os nossos afetos fossem troféus. Por vezes, no momento da solenidade de entrega, descobre-se que a caixa se encontra vazia. É que os afetos se extinguem quando não são multiplicados. Não se tratam de objetos como uma jóia ou um carro, são vidas que nos habitam.

Alimentados de hostilidade, relutantes em ceder no orgulho e descartar as lentes do preconceito, nos rodeamos de imagens distorcidas batizadas de realidade dura, que por vezes pinta telas de ceticismo. Todavia por trás das armaduras - e das amarguras -, ficamos vigiando o céu, esperando que dele caia um final feliz. Nos apaixonamos por personagens de histórias, mas olhamos para o lado com desconfiança. Não nos atentamos para o fato de que a ficção, ironicamente, é mais limitada do que a vida: esta não tem cortes nem narradores que nos expliquem as situações, que nos descrevam os personagens. É descoberta aventuresca sobrevivendo nas brechas da rotina, não termina como um livro ou um filme. Até o momento da morte, temos novas histórias todos os dias, cujas direções dependem da nossa disposição enquanto autores de nós mesmos.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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