palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

Quando a discussão perde a razão e a sensibilidade = Masturbação Verbal

Os efeitos do excesso de informação desvinculada do conhecimento e da capacidade de análise crítica estão por aí. Discussões podem parecer irrelevantes, mas os seus efeitos transcendem a palavra. Imanentes às ações, os discursos, por vezes, ingenuamente compartilhados, desenham a caricatura da sociedade em que vivemos.


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Em tempos de gigantescos acervos de informação na internet, acessíveis para a grande maioria das pessoas, é possível saber pelo menos um pouco sobre os mais diversos assuntos. Mais do que isto, os meios de interação online ampliaram a possibilidade de conversar sobre estes temas, compartilhar opiniões e se expressar das mais diversas formas com um vasto público, inclusive com desconhecidos. Os diálogos inflamados sobre política, filosofia, artes, comportamento e outras áreas do conhecimento deixaram de se restringir às salas de aula, aos círculos acadêmicos e às mesas de bar ou cafés com amigos e chegados. A princípio, tudo isto pode parecer muito bom, não fosse pelas repercussões presenciadas diariamente, e cuja mais vitalícia ilustração se encontra nas redes sociais.

A ideia de difusão do conhecimento e diálogos acerca dele, no intuito de constituir novas perspectivas, opiniões e construção do senso crítico, é muito positiva. Todavia, há nesta expansão instantânea e agressiva de informações e espaços de expressão, uma disfunção da qual somos testemunhas: o despreparo da grande maioria das pessoas para construir através desse diálogo. Ofertam-se as ferramentas, mas não o preparo necessário para fazer um bom uso delas. O resultado disso é uma tendência inversa da que seria ideal, consistindo em excesso de informações com pouco conhecimento, um caos de opiniões e achismos que não constroem absolutamente nada de novo, e traveste o espaço da troca e do diálogo em um condomínio composto por torres de sentinelas narcísicos, onde cada qual goza com sua falsa sensação de superioridade em emitir argumentos que não dizem nada, a não ser que sua opinião é melhor do que a do outro porque... porque é sua! Simples assim.

Fosse tudo apenas uma questão de gosto, como é, por exemplo, o caso da nossa alimentação, tudo bem. Se fulano não curte comer chocolate, pode até parecer estranho, porque aparentemente todo mundo é apaixonado por chocolate. Mas, a quem isto prejudica? Ninguém. Absolutamente ninguém! Mas, se fulano não gosta de pessoas negras por exemplo, ou acha que o homem é superior a mulher, e para afirmar isto dispõe de argumentos chulos que justifiquem sua posição, e começa a espalhar por aí estes argumentos sucateados, com toda a sua convicção violenta, cheia de iscas para pessoas que estão tão despreparadas quanto ele para ter um pensamento crítico, aí a história é bem diferente. Alguns assuntos estão tão difundidos e homogeneizados em seus estereótipos, que sem qualquer reflexão, muitos serão contra os emissores de posturas fajutas, o que é relativamente bom. No entanto, existem outras discussões de cunho muito sutil, e são justamente estas as que preocupam, pois não há possibilidade de se chegar a algum ponto sobre elas sem um empenho sério e maduro acerca do assunto, que transcenda o viés da opinião alheia, da sua opinião ou do que passou no Fantástico.

Isto pode parecer irrelevante, afinal, em que um bate-papo na internet, ou uma discussão no ponto de ônibus podem interferir no mundo? Por outro lado, se é tão desimportante assim, por que afeta tanto os que presenciam ou participam da conversa? A relevância disto desvenda a complexidade e importância da sua natureza, quando em um contexto político, por exemplo, o sistema legislativo decide por aprovar ou manter certas determinações, sem que para isto existam argumentos, estudos ou qualquer critério racional que as valha. A quantos tais ações prejudicam? Quais as consequências dessas arbitrariedades para milhões de pessoas? Pois, tais ações partem de ideias, e as discussões que as sustentam muitas vezes se assemelham a estes papos de internet, e outras conversas informais por aí.

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O que raramente se considera no âmbito do diálogo sobre ideias, conhecimento, situações, ideologias e afins, é que no mínimo, o que dizemos afeta pelo menos uma pessoa: o interlocutor. E, para além, todos os ouvintes ao redor. Para ainda mais, todos aqueles com os quais se compartilhará isto futuramente. E disto a coisa se alastra e se modifica, tornando-se as vezes monstruosa. Certas discussões começam acerca de um assunto, e terminam com ofensas à vida sexual da mãe da contraparte. Percebo nestes contextos, uma grande carência daqueles que falam, que sem preparo ou sem consciência, ou sem nenhum dos dois, querem apenas expressar o que passa pela sua cabeça, sem se importar com o outro, com o rumo disso, ou com o que já foi construído acerca disso. Abre-se a boca e facham-se os ouvidos. Com armas a postos, os intelectos pastam no celeiro.

Há muitos que querem apenas falar, se mostrar e buscar por alguma aprovação. Não há nestas formas de emitir opinião nenhum resquício de razão, e como esta nem sempre é a questão, carecem também de sensibilidade para escutar, analisar, sentir o que existe na expressão do interlocutor, nos ambientes que remetem ao assunto ou acerca das construções daqueles que realmente se empenharam em torno dele. Há nisto, nada mais do que uma enorme necessidade em masturbar o próprio narcisismo através de uma "punhetagem" verbal. E se no ato orgânico o prazer é sexual, no contexto supracitado o prazer está na alter agressividade e na autoafirmação. Que construção, que evolução, qual ganho se tem nisso para além da própria euforia em se colocar irresponsavelmente?

Esta imaturidade legitimada por toda a quinquilharia informacional que a sustenta, ainda há de nos levar ao abismo. Tal contexto é análogo ao da criança que recebe tudo o que quer, sem nenhuma exigência de que cumpra alguma responsabilidade, demonstre algum respeito ou aprenda qualquer coisa sobre o que a vida reserva para além do mundinho do “papai e mamãe, a seu dispor”. Há discussões que lembram adolescentes argumentando sobre qual é mais viril, ou mais desenvolvido baseado na contagem dos pelos pubianos. Por fim, o assunto gerador acaba esquecido, ele nunca importou. Importa mesmo a prova de superioridade soberba de cada um. Aos sensatos, o que se prova a partir disso é apenas o vexame.

Tentando ser otimista, penso que em algum momento, pode ser que a relação das pessoas com o excesso de informações do qual dispõem seja amadurecida: mais crítica e menos mítica. Isto afeta principalmente o âmbito das áreas mais abstratas e não exatas, como a arte, a filosofia, a psicologia e afins, pois não contam com "provas definitivas" em sua composição teórica. A desvalorização crescente das profissões que trabalham mais com o humano e suas funções criativas, neste contexto, não é surpreendente. É uma das consequências abrasivas dessa febre de liberdade de expressão, que tem a sua concepção equívoca de liberdade baseada na ausência de limites, impossível uma vez que não vivemos sozinhos. A não ser que alguém se trate de algum ser superior ao humano, liberdade é impossível quando negligência a liberdade no campo do outro.

Com menos embates verbais e mais debates, talvez pudéssemos de fato alcançar a utópica proposta de que o conhecimento não seja restrito a alguns, de que não haja ditadores que determinem o que é bom ou o que é ruim a partir de sua única e restrita experiência, de que não existam pessoas cotadas pelo seu saldo de títulos, e que possam existir diálogos ricos entre mestres e mendigos. “Peraí!” - Isto sempre foi possível. Contudo, raro. Aos montes, do que dispomos são ditadores da ignorância disfarçada de intelectualidade.

Honestamente, pensemos bem: se não há responsabilidade ou sustentação em nossa posição acerca de um assunto, ou nenhum solo fértil para cultivá-lo em um grupo, mas o desejo de gozar com as palavras permanece insaciável, mais vale um delicioso coito de papo-furado do que uma agressiva masturbação verbal pseudointelectual.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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