palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

A mudança ou Não se pode ser velho aos 25 anos

Quando a mudança grita aos nosso ouvidos, podemos ignorá-la e viver atormentados pela sua algazarra estridente, ou ouvi-la e seguir em frente. O "zero" pode ser o infinito.


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Estiquei nos puffs da sala e fiquei olhando para o teto. Aquele teto que, em mais de um ano morando ali, nunca contemplara. O acabamento de gesso decorado continha falhas explícitas, mas delicadas. O globo barato decorando a lâmpada tinha uma mancha verde, que nunca antes havia percebido. Seria o reflexo da única parede pintada de outra cor que não branco-gelo? – verde. Logo, os livros não estariam mais ali na estante de vidro criativamente improvisada, nem Cíntia olharia para o nada daquela sala, com seus tristes olhos de boneca. Logo, tudo estaria vazio, e eu não teria mais chaves para entrar ali e espiar a vista da janela exibindo um frame de Belo Horizonte em toda a sua bipolaridade de cidade que não resolve se quer ser metrópole ou interior.

Tempos antes da decisão eu pensava ser um retrocesso, essa coisa de começar do zero. Independência experimentada intensamente por tantos anos, agora já entrando nos conformes da maturidade. Casa, móveis, trajetos, paisagens, odores, hábitos. Tudo estava seguindo a corrente da repetição. Em algum momento da vida, deve ser que a impressão seja sempre essa mesmo. Mas em vez de paz e estabilidade, o caos não se aguentava de asfixia naquela calmaria. O sentimento de erro, arrebatado pelo medo de abandonar tudo - justificativa: deixar para depois. Quando houver mais tempo; quando houver mais dinheiro; quando houver mais estabilidade; enquanto houver vida...

O pescoço cansado de olhar para cima pende, o olhar se perde na parede limpa, escuto Rimbaud desenhando poesia:

- “Não se pode ser sério aos dezessete anos.”

- Nem se pode ser velho aos vinte e cinco! - respondo.

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Sem nunca ter abandonado os cafés, os chopes, as limonadas, expiro os ares ufanos, para encher o peito de nada. De que vale a conquista de uma independência que aprisiona? Não serei tão fanfarrona a me exaltar com o orgulho de criar raízes na rotina simplesmente para estar à mercê de ninguém. Acumular coisas e um suposto status de “adultidade”. Acumular títulos e méritos por algo que já não faz o menor sentido. Segue isto crescentemente tornando odiosos todos os dias. O ócio invade tardes agitadas e a distância de toda a movimentação já não encadeia nenhuma ação que não seja automática. Percebe-se que está ao meio de uma estrada que só afasta do que fascina, do que faz valer a pena abrir os olhos para as notícias sangrentas dos jornais, a corrupção nossa de cada esquina, a escassez de laços e calores de afeto, quando já não se tem mais dezessete anos para abandonar amores. Nem amores mais, nem ilusões tais que te façam preencher de idealizações.

É preciso coragem para voltar atrás, mas nem tanto. Já pensando, talvez na metade da vida, esperar pela aposentadoria para viver? Sabe-se lá se, em tempos futuros, não terão comido também o direito do descanso tardio. Vou-me pela verde aleia da estrada, voltando atrás, para viver um romance com a vida, prosseguindo em busca de estradas perfumadas de tílias ou damas-da-noite. Sem peso em ferro ou ouro que me ocasiono a gangrena. Seguir firme ante o inesperado, e o que há de errado?

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Às vezes é preciso dar alguns passos atrás para poder seguir em frente. Confrontar o medo de abandonar as coisas que aparentemente nos sustentam – pelo esforço que despendemos para consegui-las, e então seguir na vida o rumo que desejamos, caminho no qual nos sentimos presentes. O medo da mudança acaba por nos tornar acumuladores. Ficamos a construir andares de cômodos desalinhados acima do nosso chão, como forma de nos convencer que, em algum momento, esta torre nos suprirá a ausência do sonho que abandonamos. Estes alicerces frágeis e deformados, pelo peso que carregam, como acompanhassem a fragilidade gradativa dos ossos, acabam por nos cair a cabeça em algum momento.

Certas mudanças exigem recomeçar do zero. E quando nos dispomos a isto, descobrimos que o zero não existe. Já não somos os mesmos. Em lugar da tortuosa torre de conquistas defasadas - abandonamos, topamos com a consciência de que as experiências vivenciadas nos enriquecem muito mais do que as coisas deixadas para trás, e em vez de ocuparem espaço nos revelam o mundo. No lugar do vazio encontramos horizontes para voar.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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