palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

A linguagem secreta das imagens: sobre algum analfabetismo visual

"Alguma noção pobremente romantizada, equivocadamente extraída e descontextualizada, subsidia colocações que propõem a arte enquanto intuição, sentimento puro e adjetivações semelhantes. Nesta mesma via segue a carroça da escrita artística - a polêmica literatura. Todavia, seria isso então? Nascemos com o instinto da contemplação, da compreensão e do fazer da arte?"


650px-Marcel_Duchamp.jpg Marcel Duchamp

Vamos falar sobre algum tipo de analfabetismo que não é revelado, não é discutido e, possivelmente, não é considerado um assunto de relevância. Mas, para subverter a ordem, não comecemos do começo já iniciado. Vamos para algum ponto, entre o para além do início e qualquer lugar até o final.

O aprendizado da fala, da escrita, da compreensão e da leitura da língua materna, e até mesmo de alguma língua globalizada, como o inglês, nos é cobrado da infância à vida adulta. Somos treinados a dominar ao menos as formas essenciais do nosso código fragmentado de consoantes e vogais, de sons e sílabas, de regras gramaticais e tanto mais. A isto nem sempre se dão ao trabalho de atribuir um sentido, é imprescindível que se saiba a língua à nível de código. Esta é a exigência a princípio. Como sendo este universo quase lógico, quase matemático, aprendemos tratar-se da linguagem.

No entanto, qual porção de mundo essa linguagem "dada" nos permite acessar?

Sem entrar no mérito dos universos numéricos e exatos, tão supervalorizados em tempos de exaltação da tecnologia, passamos rasteiro por outras vias – sociologia, filosofia, arte. E dessa tríade esquecida, subsiste a arte no discurso de qualquer um que queira parecer minimamente culto. No âmbito das nossas áreas repartidas e especializadas, o que aprendemos de fato sobre a contemplação, sobre a apreciação no mundo artístico visual, para então sermos, de fato, capazes de acessar algo?

Alguma noção pobremente romantizada, equivocadamente extraída e descontextualizada, subsidia colocações que propõem a arte enquanto intuição, sentimento puro e adjetivações semelhantes. Nesta mesma via segue a carroça da escrita artística - a polêmica literatura. Todavia, seria isso então? Nascemos com o instinto da contemplação, da compreensão e do fazer da arte?

Não fosse simplesmente pelo fato de que a produção sensível nada tem de instintiva, pelo contrário, sua indefinição quanto a finalidade prática em comparação à outras esferas do conhecimento é digna de discussão sobre os possíveis "porquês" dessa atividade desenvolver-se e persistir em nossa evolução, ainda temos o adendo de que, os movimentos de oposição à técnica, à canonização, à perfeição, dentre outros movimentos de resistência no meio artístico, concretizaram-se justamente pela existência e conhecimento prévio de seus protagonistas, dessas mesmas coisas que estes criticavam e contra as quais produziam a fim de questionar. A leitura equívoca desses movimentos é uma das incubadoras de discursos que transformam a desconstrução da arte em sua anulação.

Os referidos movimentos são muito válidos no contexto europeu, continente no qual a arte [como a concebemos] é elemento basicamente indissociável da história da maioria dos países. Faz sentido o movimento de desconstrução em território onde o construído existe e se impõe. Mas, o que poderíamos dizer sobre o Brasil? Qual a instrução, qual o conhecimento que desenvolvemos acerca da apreciação artística, particularmente o das artes visuais, em nossa trajetória educacional? Em nossa constituição enquanto ser humano?

Vernissage Virgínia de Paula 1981.jpg Virgínia de Paula

Ao menos nos colégios públicos, não que invistam a ponto de pretender desvendar artistas adormecidos nos interiores dos corpos infantis e juvenis, aprende-se cores básicas, colorir, desenhar mediocremente sem técnica alguma, pintar com guache desenhos prontos, e por aí vai. Isto é, não se aprende nada. Pode ser que uma experiência ou outra tenha algum elemento de valor, mas de um modo geral, quantos saem da escola aptos a ir a uma exposição de arte visual e ser capaz de decifrá-la? De falar sobre ela, então, nem se fala... Imagine lá se a ponto de produzir, salvo os autodidatas, que não precisariam nem disso, pois provavelmente encontraram sua influência em algum lugar mais sólido. Para um pouco mais, e isto abrangendo até mesmo o âmbito acadêmico, o quanto sabemos do que é produzido aqui? Dos nosso artistas, das nossas telas, dos nossos objetos, dos nossos movimentos e vanguardistas solitários? Quantos nomes somos capazes de citar? E mesmo em conhecimento disso, qual o preparo temos para sentir, avaliar, dizer sobre o que vemos?

Quando uma pessoa assiste um filme, ela sente, ela entende [em algum nível, ao menos], interpreta, e logo é capaz de emitir alguma opinião, por mais parca que seja, mas que venha dela. Da mesma forma acontece quando lemos um livro, ou escutamos uma música. A presença desses elementos em nosso cotidiano faz com que sejam linguagens familiares. Mas, e quando vemos uma tela? Quando vemos uma escultura? Um mural, um objeto, uma composição conceitual?

Para entender a controvérsia da situação, peguemos um exemplo: imaginemos uma pessoa que fale e entenda muito bem sua língua materna, suponhamos que esta seja o português. Acrescentemos ainda ao nosso personagem um gosto apurado pela literatura, uma extrema sensibilidade e crítica, além de aguçada e perspicaz inteligência. Agora, consideremos que esta pessoa tem ouvido falar muito bem de uma obra, disponível apenas na língua alemã. No entanto, não sabe mais dessa língua do que algumas poucas palavras. Quais as chances de que este nosso personagem seja capaz de apreciar, entender ou sentir o que quer que seja sobre a tal obra de forma integral? Para dar tempero à situação, e considerando o nosso contexto farto de tecnologia e globalização, levantemos a hipótese de que o nosso personagem muito culto, não quer ficar de fora das discussões acerca dessa obra, então arrisca passar os olhos pela referida, munido de alguns desses instrumentos oferecidos pelo meio virtual, e a partir disso emitir qualquer coisa sobre ela.

Continuemos o raciocínio: ele, cheio de confiança, argumentos e algum aparato de tradutores online, dicionários e outras ferramentas limitadas para a compreensão de uma literatura em outra língua, decida emitir assim mesmo alguma opinião forjada, pois simplesmente assumir que não entendeu nada ou muito pouco e de forma descontextualizada, seria muito humilhante. Representada a peça, então, as outras pessoas concordam e apreciam sua explanação sobre a obra. O que o nosso personagem não sabe é que, estas pessoas estão em condição semelhante a sua, e acreditam que ele, sendo inteligente e informado, entendeu aquilo melhor do que os outros, e logo, irão mesclar suas opiniões à dele. Dessa forma, estes discursos completamente desorientados e desconectados da realidade da obra se espalham por aí, tomam forma, tomam força e persistem, até que venha uma tradução, caso ela venha.

Duas Meninas.jpg Duas Meninas - Pavel Finolov

Este exemplo, um tanto improvisado, reflete o que ocorre em relação às artes visuais, ouso supor, para a maioria da população brasileira. Desprovidos de convivência, ferramentas, conhecimento e outros aparatos para acessá-la, os indivíduos limitam-se a negar o gosto pelas mesmas, ou ainda, a fingir que as entende, ou pior, acreditar que as entende porque é tudo "só sentimento". Acontece, que só sentimento não traduz linguagem alguma. Limitados, muitas vezes, ao discurso do belo e do feio, acabamos por nos afastar de todo um universo fantástico de formas, texturas, cores, sensações e perspectivas, capazes muitas vezes de causar impactos inigualáveis. Qualquer um que tenha saído absorto de uma exposição sabe o quão intensa pode ser a potência de uma obra aparentemente estática. Qualquer um que tenha se permitido viajar diante de uma tela ou de um objeto artístico, sabe que o movimento nunca cessa na arte, a não ser propositalmente - enquanto intensão.

Como dizer sobre gosto ou desgosto pelo que se desconhece? Um exemplo comum e atual está nas imagens expostas e impostas pelos grafites: inseridos em contextos urbanos, prescindem de museus ou salões para serem expostos. Ironicamente, embora, inclusive pelas características citadas, o grafite seja considerado uma “arte marginal”, o mesmo sofre de semelhante ignorância por parte do expectador que às obras expostas em qualquer evento de arte reservada à alguma elite - a dificuldade de compreensão pela rarefação de recursos e familiaridade com a forma exposta e seus sentidos, isto é, a ausência de subsídios para a leitura imagética. A arte visual, em um contexto como esse, acaba por se tornar arte para artistas, para estudiosos, ou para pequenos grupos que criam e disseminam seu estilo próprio de arte no âmbito visual - desprovido de narrativa alfabética, de trilhas sonoras, de traduções. Resta o mistério.

Esta secreta linguagem das imagens, me pergunto, por que nos querem privar de compreensão?


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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