palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

“Bachelorette” ou Solteirona – Divagações sobre a literatura na contemporaneidade

Lembro-me que ainda criança, naquela transição dolorida entre a infância e a adolescência, fiquei completamente fascinada pelo videoclipe “Bachelorette”, da cantora islandesa Björk. Dirigido por Michel Gondry o vídeo começa com a personagem da cantora narrando com palavras e cenas o encontro de um grande livro enterrado bem fundo na terra...


“Um dia, encontrei um grande livro enterrado bem fundo na terra. Abri e todas as páginas estavam em branco. Então, para minha surpresa, ele começou a se escrever sozinho.”

Da cena campestre, quase selvagem, habitada apenas por extensões de terra, vegetação e uma humilde casinha de madeira, após encontrar o livro a personagem parte para a cidade onde segue para publicá-lo. A partir de então, a narrativa se mostra através da dramatização grotesca dessa história em um palco, com todos os aspectos do simulacro explicitados. O nome do livro? “My Story”. O editor para o qual a personagem de Björk apresenta o livro fica fascinado. Ao mesmo tempo em que o livro se torna viral e a simples camponesa alcança o sucesso, a mesma também vive um romance com o editor. A cada livro lançado, as cenas se repetem com poucas modificações, mas sutilmente o cenário perde um pouco de suas “peças” e as cores e formas do vídeo insinuam-se um pouco mais sombrias. Do romance e do entusiasmo, cenas de brigas e desentendimentos cortam a apresentação circular, e quando o relacionamento entre a autora e o editor chega ao fim, o livro que escrevia sozinho também começa a se apagar sozinho, os leitores aborrecidos jogam massivamente o livro fora, e consecutivamente as figuras humanas começam a se tornar uma formação vegetal, como uma espécie de trepadeira, que toma gradativamente todas as pessoas e todos lugares, até engolirem a própria autora, que aparece de volta no mesmo lugar em que encontrou o livro.

É claro que naquela época eu não entendi absolutamente nada, e talvez isso só aumentasse o fascínio. Creio que continuo a não entender nada, mas ouso assisti-lo a partir de um novo olhar. Há uma suposta dessincronia entre o vídeo e a letra da música:

“Eu sou uma fonte de sangue Na forma de uma menina Você é o pássaro na borda Hipnotizado pelo redemoinho

Beba-me, faça eu me sentir real Molhe seu bico no fluxo O jogo que nós estamos jogando é a vida Amor é um sonho a dois

Me deixe agora, retorne à noite A maré lhe mostrará o caminho Se você esquecer meu nome Você vai se perder Como uma baleia assassina Presa em uma baía

Eu sou um caminho de cinzas Queimando debaixo de seus pés Você é o que caminha sobre mim Eu sou sua rua de um só sentido

Eu sou um sussurro na água Um segredo para você ouvir Você é o que cresce distante Quando eu aceno, você se aproxima

Me deixe agora, retorne à noite A maré lhe mostrará o caminho Se você esquecer meu nome Você vai se perder Como uma baleia assassina Presa em uma baía

Eu sou uma árvore que dá corações Um para cada que você toma Você é a mão intrusa Eu sou o ramo que você quebra”

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No entanto, como é característico dessa ousada e inovadora artista que explora tantos campos da arte, embora seja conhecida principalmente por sua produção musical, o que parece uma inocente letra romântica com um videoclipe excêntrico, guarda amplas possibilidades de interlocução e intertextualidade com reflexões existentes acerca da produção artística, e neste caso, foi inevitável que eu estabelecesse essa relação particularmente com a produção literária na atualidade.

Embalada pela leitura da entrevista com o filósofo francês Derrida, que foi intitulada como “Essa estranha instituição chamada literatura”, embora inconformada com a ideia de que a literatura não possua nada que seja próprio de sua essência - existe apenas como aquilo que lhe nomeiam enquanto tal, alguns aspectos da mesma podem ser pensados desde o seu processo até sua materialização e circulação, considerando da fala desse filósofo.

O escritor, na perspectiva de Derrida, é pensando enquanto um estrangeiro sem pátria alguma que não seja a própria escrita, um tradutor dos universos nos quais é um visitante, e portanto, capaz de ver como se fosse pela primeira vez as nuances da existência e do cotidiano que diante dos outros aparecem enquanto familiares - no limite, banais. A obra literária, embora assinada por um autor, só pode existir enquanto multiplicidade, primeiramente porque é uma tradução de muitas vozes, perpassada pela intertextualidade com escritos preexistentes reescritos e reelaborados na perspectiva da singularidade do escritor. Posteriormente, a obra só pode existir através do encontro com o leitor, e a cada relação nascida da leitura por um novo indivíduo ela é reescrita, contra-assinada: uma nova obra é engendrada pela leitura da primeira, que por conseguinte foi elaborada a partir da leitura do escritor das coisas que existiam independentemente dele, mas que ele revela com a força da possibilidade de dizer “tudo”.

Falto em não aprofundar nas complexas colocações do filósofo, no entanto, suficientes para a análise em questão. Assim como no vídeo de Björk, uma estrangeira que encontra um livro que se escreve e então vive interpolações entre o simulacro e a “realidade”, a personagem representa simultaneamente tanto a figura do escritor quanto a do leitor. Parte de um mundo vazio para um âmbito caótico de relações, expõe-se ao mundo como autora de uma história, que em verdade se escrevia por si mesma. Todavia, o processo é iniciado pelo trabalho braçal, rústico de cavar fundo na terra, assim como o escritor vive este processo bruto e cansativo de ir a fundo, de procurar no escuro, nas profundezas da terra por algo para revelar ao mundo. Portanto, em algum sentido, a autoria da obra da personagem do vídeo vem desse trabalho que possibilitou o encontro responsável por trazer a obra ao conhecimento dos outros. A ironia do título do livro, em português o correspondente à “Minha história”, é observável pelo fato de que o que aparece escrito no livro são exatamente os acontecimentos que ela vive e encena, desde o encontro com o livro até o desenrolar. Enquanto ela vive, o livro escreve, e ela passa então a encenar e apresentar a sua própria vida. Esta automatização da escrita possibilita pensar que esse processo não necessariamente passa por uma escolha, é fruto de um acontecimento, é uma “destinação” a qual ela aceita e na qual se aventura.

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Enquanto leitora, ela vive o universo ficcional de sua própria obra, dramatizando-a, revivendo-a diversas vezes a cada nova publicação. Paralelamente ao universo do palco, de cores e fama se desenvolvendo ao seu redor, em preto e branco a realidade contrasta em breves cenas e fatos fotografados do declínio da sua relação amorosa com o editor. Em algum momento a realidade se impõe rompendo com a ficção, como os intervalos interpostos à relação do leitor com as obras, convocando-o do universo fantástico às peripécias cotidianas. Quando a relação da personagem autora com o editor é rompida a obra começa a se apagar: inexistente a relação, não há possibilidade de que a obra sobreviva. A obra literária só existe enquanto relação com o outro. Este aspecto da necessidade de que a vivência seja compartilhada como condição para existir é apelativo na letra da música, na qual a cantora convida o seu consorte a bebê-la, a fazê-la real, dentre outras expressões similares na poética letra da música. Findo o universo dramático das relações com o editor e com o público, ela volta para o mesmo ponto solitário em que tudo começou. Bachelorette: solteirona.

O termo em inglês possui exatamente essa conotação pejorativa da mulher já avançada na idade que não possui uma relação estável, não por opção: por fatalidade, por ter sido “esquecida”, por ter “ficado para titia”. Ante impossibilidade da relação, a invisibilidade, o esquecimento, a literatura é impossível. O escritor anônimo é uma “solteirona”, único habitante de sua pátria solitária. Tradutor para os vegetais. E eis que, no momento do vídeo em que a relação acaba, as pessoas começam a se tornar vegetais, como trepadeiras, planta característica pela sua capacidade de se alastrar e consumir tudo aquilo com o qual entra em contato: desde uma árvore a um muro de pedra. A trepadeira se espalha e toma conta das coisas. Vegetaliza-as.

Penso então na viralidade de certas obras literárias assim como aquelas que resistem no tempo. Penso na escolha nada aleatória nem ingênua, socialmente imposta, instituída, do que é para ser lido e do que é para ser ignorado. Penso na literatura como essa terra de ninguém, que uma vez ou outra acontece e permanece, e na maioria das outras vezes, existe apenas viralmente, enquanto simulacro, até que desapareça no tempo, consumida, vegetada. Este é um traço marcante da contemporaneidade, onde a valorização do viral não nos revela nenhuma genialidade. Obras do momento seguem a mesma linha de tantas outras produções da indústria cultural. Há interesse maior no que será consumido enquanto literatura comercial do que na reinvenção da instituição literária. Fora isso, continuamos a ler os autores geniais do século passado.

Será que a esta contemporaneidade, marcada pela dificuldade de se relacionar, pela imponência do indivíduo em detrimento das coletividades, pela valorização do supérfluo em detrimento do essencial, poderá esta terra de ninguém que é a literatura, esta “coisa” que não é possível sequer dizer o que é, sobreviver?


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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