palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

Diálogos maquiavélicos com Game of Thrones

Deixando a fantasia um pouco de lado... O que Game of Thrones narra com a impotência de seus heróis?


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A saga de livros Game of Thrones, transformada também em seriado, diferencia-se da maioria das produções literárias fantásticas pela seriedade com que reafirma o seu lema a cada livro lançado: Valar Morghulis – Todos os homens tem que morrer. Desde o primeiro livro da série, nos deparamos com bons homens, movidos pela nobreza, pelas boas intenções e empenhados em desfazer as tramas errôneas, morrerem. Impiedosamente, têm a cabeça arrancada, são esfaqueados, morrem em batalha, são prezas de armadilhas, e por aí vai. Mesmo aqueles que permanecem vivos, como é o caso de Daenerys Targaryen, vivem em apuros e instabilidade entre a ascensão e a decadência.

A natureza das personalidades também se modifica no decorrer das Crônicas de Gelo e Fogo, sendo que personagens a princípio desprezíveis se tornam admiráveis, personagens ingênuos se tornam “jogadores”, personagens aparentemente perversos se revelam bem intencionados. Aos expectadores são oferecidas sensações limítrofes entre o gozo e a frustração diante dos acontecimentos imprevisíveis, e modificações polêmicas entre os livros e a série. Para muitos, esta obra que tornou-se viral, não passa de uma produção de entretenimento. Todavia, além de escrita com uma invejável acuidade literária por George Martin, as crônicas funcionam como uma rede que articula inúmeros eventos históricos, lendas, crenças, costumes e filosofias de diferentes pontos do globo, sendo colocadas a prova, reconstituídas e reconfiguradas através das ações e interações das personagens.

É perceptível referências à reinados pagãos, à inquisição católica, à religiões pré-cristãs, a diferentes modos de política tanto da época antiga quanto da época atual, às guerras, inclusive as mais recentes que já ocorreram no mundo, tudo isto condensado com personagens mitológicos e outras particularidades do mundo da fantasia. Em um determinado momento a crônica revela o grande ridículo de toda a caoticidade da luta pelo poder: a de que todos, de todos os reinos, de todas as famílias, independentemente da sua posição, correm o risco de serem dizimados por um exército de mortos, que se fortalece e multiplica enquanto os poderosos e pretendentes ao poder lutam entre si. Me parece uma metáfora digna da humanidade transformando o planeta em uma bomba relógio que poderá explodir a qualquer momento.

Dentre todas as sacadas oferecidas pelo livro, a morte ou desventura dos candidatos à herói é uma das mais intrigantes. Ao contrário dos outros livros de fantasia, em que o herói consegue tudo aquilo que nós, pobres mortais, não conseguimos, e por isso regozijamos com ele, em Game of Thrones os heróis são tão humanos quanto nós: e falham, e morrem. A cada herói destruído, em vez de nos depararmos com o prazer ilusório da fantasia, somos convidados a encarar uma realidade bem condizente com a nossa limitação humana: a de que somos vulneráveis e não podemos salvar tudo e todos ao nosso redor. A de que após a nossa morte, ainda que nos façamos mártires, a roda do mundo continuará girando, talvez como sempre girou.

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Nas Crônicas de Gelo e Fogo não há bondade ingênua que não acabará morta na ponta da espada daqueles que tem seus objetivos e estratégias bem planejadas. A noção de bondade pueril, desinteressada, inocente ou incorruptível diante de rígidos padrões de moral, se mostra ineficaz e inútil contra a voracidade daqueles que sabem o que querem e se armam para isso. No entanto, mais cedo ou mais tarde todos encontram seu destino. É recorrente que durante a leitura de Game of Thrones, ou acompanhando a série, que eu me recorde da leitura do livro O Príncipe, de Niccolò Machiavelli. Trata-se de um polêmico tratado político que, embora escrito no século XVI, possibilita leituras atualizáveis ao contexto político e social atual. Encontramos em Machiavelli, sobre essa ruína inevitável dos “homens bons”, uma conclusão que, se no caso de Game of Thrones se apresenta na ficção, por outro lado também se evidencia na história:

“Vai tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria fazer em vez do que se faz, aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar; e um homem que quiser fazer profissão de bondade, é natural que se arruíne entre tantos que são maus.” (Machiavelli – 1532).

Conclusões polêmicas, mas obstinadamente honestas quanto a um mundo que sempre existiu nas fronteiras do caos, entre intervalos de inércia e explosões. É possível pensar em Game of Thrones como uma síntese cruel da realidade despida de seus ornamentos. Arrancados de uma perspectiva romântica de homem ou de mundo ideal, sem conclusão confortadora, dessas que nos esquentam o travesseiro e a cama, sabendo que os homens são homens estejam em “tronos de ferro”, em estofados de camurça ou em bancos de madeira, resta uma pergunta para si: ser jogador ou ser peça? Porque para o bem ou para o mal, assim como todos os homens tem que morrer, todos precisam fazer um escolha.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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