palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

Do III Festival de MPB em 67 ao Festival de Coxinha em 2015

Da nostalgia à reflexão, o passado às vezes nos conta causos sobre o presente.


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O Festival de Inverno da UFMG teve as cidades como temática. A relação, reflexão e apropriação dos espaços urbanos como espaço de arte e cultura foi explorada através de oficinas e atividades que não se restringiram ao espaço da universidade, mas aconteceram em outros espaços da cidade de Belo Horizonte. Uma temática que explora a relação da arte com a apropriação dos espaços urbanos não poderia deixar de debater e retomar o período da ditadura. Nesse contexto, participei da oficina sobre Música e Literatura, que propôs uma viagem à década de 60, encontrando alguns dos principais ícones da Música Popular Brasileira em seus primórdios.

Através da apreciação dos documentários “Uma noite em 67”, (por Renato Terra e Ricardo Calil – 2010), “Tropicália” (por Marcelo Machado – 2012), e uma seleção de vídeos, relatos, curiosidades, acontecimentos e letras de música, selecionados pelos professores Eneida Maria e Roniere Menezes, foi possível contemplar figuras como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, dentre outros, ainda jovens, frágeis, competindo por um lugar na história da música nacional, ao mesmo tempo em que arriscavam inovações e desafios diante de uma plateia ruidosa e de um contexto político dramático. Um choque que contrasta com a visão engessada que costumamos ter diante desses ícones, associando-os vagamente ou romanticamente ao combate do golpe militar através da arte. A retrospectiva a este contexto revela uma realidade de inícios inseguros, de relações instáveis, de uma juventude que desejava ser jovem, produzia por paixão, por desejo, por ímpeto juvenil e não apenas com o direcionamento obstinado e objetivo de ter uma atuação política. Fica claro, particularmente no que se refere ao breve movimento que foi nomeado como “Tropicália”, um desejo utópico de mudar o mundo, que bebia das águas do que acontecia em diversos outros países, mas ao mesmo tempo buscava conectar essa perspectiva com a realidade e o folclore brasileiro.

Em contraste com essa efervescência inovadora que muitos viviam, outros jovens músicos se opunham à inserção da guitarra na música brasileira. O rock era um invasor estrangeiro pouco aceito pelos adoradores da Bossa Nova e da tradição. Elis Regina presidiu com todo o seu carisma feminino este movimento contra o movimento de contracultura, talvez com certa inocência, chegando a atrair inovadores para a sua militância tradicional apenas por sua beleza e pela paixão que inspirava, como foi o caso do apaixonado Gilberto Gil, que marchou por sua “musa” e não porque era contra a guitarra - ao contrário, era um apaixonado pelo rock sessentista.

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Essa juventude musical brasileira não era a única que estava vivendo um momento de contracultura, nem a única que estava lutando contra a opressão, lutando por espaço, lutando por poder falar o que pensa, pelo direito em viver em um mundo melhor, pelo direito de transformar o mundo. Movimentos contraculturais aconteciam em diversos lugares do mundo, o comunismo aparecia como uma possibilidade de salvação para a juventude, novos valores pelejavam por espaço na sociedade tradicional, a arte exigia sua legitimidade, valorização, e liberdade de expressão, as condições de trabalho eram questionadas, o caos do mundo foi colocado à mesa. A culminação desses movimentos tem como uma de suas principais representatividades o “maio de 68” na França. Outros países da América Latina viviam regimes ditatoriais, e a comoção por vezes engendrava encontros globais. Exilados, presos, perseguidos, censurados, estes jovens sabiam que tinham um inimigo em comum – e esse inimigo não era a guitarra, e por isso talvez fossem capazes de se unir para lutar.

A poesia vestia com primazia suas roupas de acordes que clamavam por um novo período para o ser e para o som: “O monumento não tem porta/ A entrada é uma rua antiga, estreita e torta/ E no joelho uma criança sorridente, feia e morta/ Estende a mão” (Tropicália – Caetano Veloso); “Como beber dessa bebida amarga/ Tragar a dor, engolir a labuta/ Mesmo calada a boca, resta o peito/ Silêncio na cidade não se escuta/ De que me vale ser filho da santa/ Melhor seria ser filho da outra/ Outra realidade menos morta/ Tanta mentira, tanta força bruta” (Cálice – Chico Buarque); “E basta contar compasso/ E basta contar consigo/ Que a chama não tem pavio/ De tudo se faz canção/ E o coração na curva de um rio (...)” (Clube da Esquina II – Milton Nascimento); “Há soldados armados/ Amados ou não/ Quase todos perdidos/ De arma na mão/ Nos quartéis lhes ensinam/ Uma antiga lição/ De morrer pela pátria/ E viver sem razão” (Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré).

Composições para cantar, composições para ler, composições que contam história - história adidática malabarista da censura, versa veladamente sobre os fatos, e abertamente acerca dos sentimentos, das sensações, das vivências sentidas na carne e nas emoções. Das idas e voltas, dos sonhos, das transformações, do exílio, do desejo, da revolta. A produção musical e artística daquela época era uma potência constantemente alimentada. Uma produção que foi se mortificando aos poucos até os dias atuais. Não é que não tenhamos produções maravilhosas, engajadas, elaboradas, seja na música ou em qualquer atividade artística. É que a produção que não comunica morre, e desde esses tempos, talvez apenas de uma forma diferente, dependemos dos meios de comunicação... Aí reside a ironia.

Posso ser acusada de amante da nostalgia, assumo o gosto por algum passado, mas essa questão não se trata de gosto ou percepção pessoal apenas. É uma percepção incômoda, de que atualmente o absurdo da “marcha contra a Guitarra” tenha se convertido para a “marcha pelo retorno da ditadura militar”. Para dar gosto a piada, muitos desses militantes afoitos do militarismo apreciam canções que foram produzidas contra esse golpe pelo qual pedem retorno. É irônico que ainda sejamos silenciados, agora um silêncio voluntário de vazio e não de medo. Um silêncio desinteressado oriundo da busca de cada um pelo seu lugar à sombra, ignorando a alteridade o diálogo se perde em murmúrios sem sentido. É irônico que tão difundidos e acessíveis os meios de comunicação, tanto da produção artística séria, engajada, informada e elaborada, fique no escuro. O ostracismo das obras que são capazes de afetar contra esse regime de dispersão das relações humanas é a arma de última geração do exército da ignorância. A arrogância, uma nova forma de alienação. A utopia de um mundo melhor é substituída pela utopia de ser tornar multimilionário ou ter seus 15 minutos (ou segundos) de fama.

Já não há movimentos, coletivos funcionam como tribos, conhecimento corre atrás do próprio rabo dentro das paredes da universidade, debates se tornam discussões salgadas de ofensas, a juventude sonha com cargos públicos e aposentadoria, direitos se tornam obrigações desprovidas de sentido ou de obturação para os dentes careados dos famintos. A cela precisa e quadrada se transformou em um cubo mágico. Entrando em contato com esse passado, tocando suas diversas texturas, experimentando suas diversas nuances desse meu lugar supostamente distante, só consigo pensar que o golpe continua, mas pelas beiradas, e os movimentos ainda não concluíram seu objetivo. Lidar com o disperso é muito mais complexo do que ter um alvo preciso. Da ditadura à dispersão, o que temos para hoje é uma paródia do Festival de 67, exibida pela mesma emissora de televisão que defendeu o regime militar, e ainda dá suas palas de informação truncada, carregada de inconsistência e confusão, em defesa da má informação.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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