palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

Sobre Sybils Vanes e Dorians Grays

Dorian Gray amava a personagem, a arte, a atriz, não a mulher. Vendo-se na impossibilidade de atuar e de ser amada, Sibyl perdeu-se do sentido para a existência, representou seu último ato: a heroína anônima dos amores de vento.


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Este não é mais um texto sobre Dorian Gray. Não no sentido de discutir sobre o tema central da história de Oscar Wilde, coisas como o apego à beleza juvenil, o desejo de ser sempre jovem, a exaltação dos prazeres carnais, a corrupção da alma, etc, etc. Isso tudo, creio eu, já falaram bastante. Por alguma razão misteriosa, eu sou dessas pessoas que se atrai por aquele “detalhe” do texto que geralmente passa batido pelas pessoas. E é por aí que vai a minha leitura desse drama tão contemporâneo escrito em mil oitocentos e noventa.

A quem nunca ouviu falar desse lendário personagem, Dorian Gray trata-se de um jovem que teve o seu quadro pintado por um artista de forma tão esplêndida, que ao tomar consciência de que a cada dia envelheceria e se tornaria diferente daquela pintura, desejou que o quadro envelhecesse em seu lugar, o que surpreendentemente aconteceu. Em sua trajetória, sempre influenciado pelos pensamentos frívolos de Lorde Henry, Dorian Gray segue uma vida de experimentação e corrupção, ignorando as consequências do que fazia, uma vez que as marcas de seus atos, a sua velhice e tudo o mais que modificasse sua “alma” atingiria a pintura, enquanto ele permaneceria com o frescor e a aparência de um adolescente.

O primeiro pecado de Dorian Gray envolveu Sybil Vane. Uma jovem de dezessete anos, de vida simples e que atuava em um teatro sucateado do subúrbio como forma de sobrevivência. Dorian declarou-se apaixonada por ela. Comparecia regularmente em suas representações, e ostentava o seu amor exaltando a beleza e a genialidade da atriz. É claro em seus comentários sobre Sybil para seus amigos, que ele estava apaixonado pelas personagens que ela representava, pela sua atuação, pelas peças, pela arte, e não pela mulher. Ele sequer sabia quem era Sybil. Todavia, após breves contatos propôs-lhe em casamento. E a garota flutuante acreditava que finalmente estaria livre do teatro precário, da atuação que substituía a dureza da vida, da própria dureza da vida, e ainda, também tocada pelo amor. Este poderia ser o belo final de um romance, tão típico de contos de fadas.

Todavia, a desconstrução do romance realizada por Wilde é mais do que realista, está mais para um thriller. Ao presenciar uma péssima atuação de Sybil, que surpreende a si e aos amigos que levara para assisti-la representar antes de dar andamento ao casamento, Dorian Gray sofre como se fora traído. Seu amor desvanece diante da atriz fracassada e saltitante, declarando-se livre da atuação pela força do seu amor: não precisava mais ser Julieta, Rosalinda ou Imogênia, poderia finalmente ser Sybil Vane e viver o seu próprio romance. Bem que de drama já entendia a atriz atuante de Shakespeare, acabou mesmo por representar o seu, mas não com a beleza do amor shakespeariano - pereceu diante da constatação de que o amor que nela era como uma nova pele que lhe vestia, que lhe aderira ao corpo e a alma irrevogavelmente, ao seu amado era como o vento, e foi-se, desfez-se diante de sua atuação fracassada.

Humilhada aos pés de Dorian, que não poupou frieza para tratá-la e desfazer todas as promessas proferidas, é deixada ao chão, ao vazio. Em seu camarim, como a Julieta de um Romeu perverso, morre só - incapaz de viver sem o amor, dá cabo da própria vida.

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Exceto pelo aspecto grotesco de tão descarada rejeição, da leviandade do personagem, que se sustenta e progride no decorrer da trama entre intervalos de desejo por resignação (a feiura que o retrato adquiria era tão assustadora, que o fazia querer voltar atrás, “salvar sua alma”), há muitos que amam como Dorian Gray. Amam a atriz que representa ardilosamente seus personagens todos os dias, para se sustentar diante de uma sociedade que exige que cada qual atue com presteza seus papéis como forma de pagamento pela sobrevivência. Amam a figura do que veem, a fantasia que a aparência e a peça lhes proporcionam. Mas quando se encontram com a pessoa de fato, a verdadeira personalidade disposta a revelar-se e entregar-se, lidam com a verdade como fosse um sopro a levar seus amores de vento. Querem personagens, amam personagens, nunca pessoas despidas de figurino.

Pois personagens são previsíveis e encantadores, mesmo os mais vis, são possuídos por uma áurea de drama e emoção que o expectador não precisa viver por toda vida, a não ser naquele breve momento em que assiste a vivência do outro. Os personagens compartilham conosco experiências sem que precisemos experimentá-las, senti-las na pele. Com o personagem desfrutamos do amor, dos prazeres, dos medos, das inseguranças, das aventuras, das feridas, das fugas, dos perigos e até da morte. Desfrutamos tudo sem que precisemos nos mover ou nos responsabilizar. Assistimos e vivemos imaginariamente. Mas, logo, a imaginação pode se retirar para outra cena, para outro destino, ou apenas se retirar literalmente. O personagem não existe. Então, é fácil amar personagens, pois inexistentes estarão sempre a nossa disposição, para reviver seus papéis e repetir suas histórias enquanto desejarmos.

Sybil, por outro lado, fez de si mesma personagem. Tão submissa ao peso do amor que primeiro à levou às alturas, e depois largou-a à mercê da gravidade, não pôde continuar viva como uma pessoa que enfrente perdas, problemas e “nãos”. Não estava preparada: vivia todas as noites como heroína de histórias onde a representação do amor era de uma idoneidade genuína, de uma força inquestionável, todos os males eram externos ao casal e estes lutavam pelo amor, para poder vivê-lo. Sem conseguir se desvincular da tara romântica de sua rotina de atriz dramática, matou-se pela impossibilidade do amor ao se deparar com a realidade da rejeição. Ao deparar-se com a realidade de que aquele homem não a amava, mas amava todas as suas representações geniais, e as próprias heroínas que ela representava. Ao deparar-se com a realidade de que ela não sabia ser outra coisa, senão, personagem de um drama romântico. Este então, seria seu último papel.

São tantas as vezes e são tantos vivendo o amor como Doryans Grays e Sybils Vanes: apaixonando-se por personagens e se sentindo traídos pela aparição da pessoa real diante de si, ou atuando sempre personagens, e sentindo-se desolados quando o outro descobre a verdade e já não reconhece o seu amor neste estranho que se apresenta. Tão aficionados à ideais e ilusões, não enxergam o outro e se apaixonam por seus papéis. Avaliam o gesto, as falas, a postura - se esquecem de olhar nos olhos. Jogam flores para às musas e heróis representados, ignorando a verdade do ser que os representa. E sabendo que assim funciona, acabam também por se prestarem ao papel. Um infeliz suicídio do corpo como o de Sybil ou da alma como o de Dorian.

Um de outro século com uma mensagem atual. A coisa se repete. Eis que às vezes penso, que o nível de simulacro em nossa vida cotidiana tornou-se tão surreal, que acabamos por aprender mais com a ficção assumida do que com o que nos vendem como realidade.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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