palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

Aos que retornam da escuridão, tudo parece mais belo

Sobre o "final hollywoodiano" de Woody Allen. Porque falar de lançamentos é bom, falar dos filmes do século passado é melhor ainda, mas relembrar dos bons "clássicos" da década passada é sempre bem vindo.


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Val é um diretor de cinema no fundo do poço, rechaçado do meio cinematográfico devido às suas neuroses e hipocondrias, o difícil temperamento e uma obsessão pela perfeição que acabava resultando em filmes nunca finalizados. O típico gênio fracassado, que perdeu a carreira, a esposa, e todos os vínculos. Um bufão que continua a representar persistentemente a comédia da própria vida.

Com a insistência da ex-esposa, que acaba por convencer seu atual marido, dono de uma grande produtora, a oferecer a Val a direção de um filme bilionário, o mesmo tem a oportunidade de “ressurgir das cinzas”. Mas antes que as filmagens se iniciassem, ele é tomado por uma cegueira misteriosa, que acaba por se revelar como mais uma de suas neuroses. Ainda assim, o diretor encontra aliados para não afundar de vez na lama do ostracismo, e por mais improvável que pareça, executar todo o processo de produção do filme cego.

Já finalizadas a filmagem e a montagem do filme, Val volta finalmente a enxergar, faltando apenas duas semanas para a estreia. Nessa volta da escuridão tudo lhe parece mais belo, inclusive a ex-esposa, a quem passa a “enxergar com outros olhos”. Todavia, a visão da produção que executou "às cegas" não foi exatamente agradável, um fracasso total na verdade: até parecia um filme feito por um cego! Todavia, por fim, vem a crítica definir o rumo daquela obra realizada em âmbito caótico: aos americanos, recebida como um lixo, e aos franceses, como uma produção genial. Com isso, Val dá adeus à Hollywood e vai viver o seu sonho em Paris, com a (ex)esposa de volta ao seu lado.

O filme Hollywood Ending (com a lamentável tradução Dirigindo no Escuro) traz todos aqueles aspectos característicos de Woody Allen, que garantem a fidelidade dos seus fãs, e para outros funciona como repelente: um humor sarcástico, carregado de crítica, mas que ao mesmo tempo não perde a leveza, a atuação marcante e única do próprio diretor, o roteiro simples valorizado pelos diálogos complexos, a bendita psicanálise trazendo para a cena a subjetividade do personagem neurótico - a doença do gênio como sua comédia, e o jazz como trilha sonora fiel de um clássico.

Desafiando clichés com ousadia, e emanando contradições que mais parecem dançar as diferenças do que confrontá-las, o filme consegue arrancar de gargalhadas à sorrisos ternos daqueles que não se sentem cativados pelo besteirol americano. Por fim, fica a ironia dos rumos que a crítica determina às produções culturais, nesse caso, a cinematográfica. Mais do que uma discussão sobre o cinema, Hollywood Ending confere uma ressignificação sobre as funções da cegueira como fratura da banalização rotineira, sobre a função de perder os sentidos – de perder-se -, de mergulhar na escuridão das adversidades.

Aos que se cansaram de enfrentar a pessimista cegueira branca de Saramago, e neste momento buscam por algo que ofereça mais leveza à vida, já tão marcada pelo baque cotidiano das mazelas do mundo, fica a reflexão de que esse mergulho na escuridão pode valer a pena. De que seguir com a vida enquanto cego estabanado pode ter destinos surpreendentes. Que diferença faz afinal, para quem já está no fundo do poço, cometer um erro ou outro?

Independentemente dos vexames de produção, os que encaram o escuro - e que por não se entregarem, retornam dele - terão o privilégio de ver as cores, as formas, as paisagens, e tudo o mais que a vida oferece, com uma beleza que nunca antes vislumbraram. E das críticas externas, que fique a experiência de renascer, e que mais nos valham aquelas que nos expulsem de Hollywood, e nos comprem uma passagem só de ida para vivermos um sonho com nosso amor em Paris. O nosso irônico final hollywoodiano!

Das gargalhadas às reflexões, o filme me deixou com um sorriso no rosto, desses que vai pela semana e retornará sempre diante da lembrança:

"Você está tão linda! Todo marido deveria ficar cego por um tempo."

E de repente, me sentir cega e perdida de vez em quando, não parece mais tão ruim...


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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