palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

Silêncios desconfortáveis

Ouvidos fechados cultivam silêncios tiranos. As palavras saem, fluem, gritam, choram, elaboram acrobacias para se fazerem compreendidas, mas os ouvidos outros calam a boca com a mordaça egoísta do “apenas eu tenho direito de dizer”.


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O silêncio é desconfortável, não quando duas pessoas estão juntas e não têm o que dizer. Há momentos em que a expressão é cedida ao corpo: aos olhares, aos gestos, aos sorrisos... Não precisamos tagarelar o tempo inteiro para estarmos presentes, para interagirmos, para demonstrarmos os afetos. Há silêncios cumplices, que compartilham mistérios de forma mais clara do que milhões de palavras poderiam dizer. Silêncios macios, coloridos, cheios de sensações palpáveis e visíveis.

Mas há silêncios que são perniciosos, que nos condenam como a uma prisão. Impedidos pelo medo ou pelas condições aversivas, deixamos de dizer o essencial. Esses silêncios não calam apenas a boca. Calam o ser. Calam as possibilidades. Silêncios que evitam: evitam um não, mas também evitam um sim, evitam um conflito e impedem o encontro, evitam escândalos, obscurecem as clarezas, evitam a vida.

Mais do que desconfortáveis, tais silêncios são como uma camisa de força que nos restringe todos os movimentos, sufocam e até matam. E não é tão simples como se bastasse o conselho: “vá em frente e diga o que tem que dizer”. Às vezes simplesmente não é possível. É que os silêncios não são apenas nascidos da impossibilidade daquele que tem algo a revelar de fazê-lo, em certos casos são nascidos da impossibilidade daqueles outros ouvidos de escutarem.

Ouvidos fechados cultivam silêncios tiranos. As palavras saem, fluem, gritam, choram, elaboram acrobacias para se fazerem compreendidas, mas os ouvidos outros calam a boca com a mordaça egoísta do “apenas eu tenho direito de dizer”. Há quem se considere o único com poder de decisão e dessa forma todas as palavras devem vir dele. De todos os afetos, somente os dele podem ser expressos, somente o que ele deseja deve ser considerado. Tudo o que vem de fora é mentira, é loucura, é fase, é insignificante.

Desses silêncios desconfortáveis que o outro nos impõe não há nada a ser feito. Se fizermos mimicas ele será como um cego. Se tentarmos tocar ele será insensível ao tato. Se tentarmos emitir ondas de vibração ele se fechará em uma bolha de cristal. Nos damos conta de que o silêncio cruciante, que impede o acontecimento, mesmo quando já não nos importamos se ele será bom ou ruim, mas apenas desejamos dar curso a algo que em sua estagnação nos asfixia, não depende apenas da coragem e da atitude de quem diz, mas da abertura e do interesse de quem ouve.

Pode ser que um dia, estes ouvidos rígidos e intransigentes, amolecidos e moldados pelas virtudes do tempo, possam escutar o eco do que foi tão intensamente dito e desejado. E, quem sabe, se no progenitor das tais palavras os velhos anseios não forem decompostos nas terras da vida, não forem apagados pelos ventos ardilosos da distância, talvez ainda façam sentido, talvez ainda permitam encontros, talvez deixem, finalmente, de ser talvez.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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