palavras peregrinas

Multiplicando nomadismos polimorfos.

Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora.

O virtual, a fonte e o esgoto: o reflexo do que somos, sem cortes

- Você não faz ideia. Este lugar acaba seduzindo a todos. No fim, vai implorar para ficar...porque este lugar é a resposta à pergunta que você se faz.
- Qual pergunta?
- Quem você realmente é.

Diálogo da série Westworld


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A internet poderia ser um lugar de infinito aprendizado, troca, diálogo e aproximação. Poderia nos possibilitar um acesso maior às informações, aos diferentes pontos de vista e produção de conhecimento sobre um mesmo assunto, poderia nos levar a uma evolução crítica e mental nunca vista. Na verdade, ela não poderia ser, é um lugar que possibilita tudo isso. Mas, como tudo que se configura enquanto ferramenta à disposição dos homens, ela toma os rumos da realidade que eles refletem, e, então, temos o que temos...

Há quem diga que pela internet é possível disfarçar a realidade, mascará-la, que as pessoas não se mostram como realmente são. Eu consigo perceber o oposto disso: que ela revela uma realidade que nunca teríamos acesso por outras vias, ante a fragmentação dos contatos pessoais. Essa aparente contradição se revela, justamente, pelo fato de podermos identificar a falsidade, afinal, se ela fosse assim tão boa em disfarçar, como poderíamos flagrar o mascarado?

Como se estivessem imersas em uma realidade fictícia, talvez pela dificuldade em evoluir nossos cérebros para compreender que a realidade virtual não é uma fantasia, mas é concreta e atuante como tantas outras formas de realidade, nesse espaço do “tudo pode”, as pessoas revelam o mais profundo do que são: o que estaria apenas em seu pensamento, o que não teriam coragem de dizer cara a cara, o que não admitiriam mostrar frente a frente.

Na falsa felicidade que tentam exibir através de fotos e textos, revelam o seu vazio, a sua insegurança, a necessidade de autoafirmação, e até, porque não, a sua falsidade. Nos comentários raivosos, revelam seu ódio, sua intolerância, sua ignorância. Nas manchetes obscuras e sangrentas que compartilham, ainda que possam parecer movidas pela compaixão, revelam sua paixão pelo sensacionalismo e falta de cuidado com a informação que recebem, inclusive quando disseminam informações falsas ou duvidosas.

Nos desabafos, revelam suas tristezas e angústias. Revelam também sua generosidade, sua preocupação, suas esperanças. Revelam alegrias e em contraparte a dificuldade em lidar com a alegria do outro quando a infelicidade reina em suas próprias experiências. Então, revelam a inveja, o ciúme o despeito. Tanto do que permaneceria velado no pensamento e manifesto apenas em comportamentos ininteligíveis, ali é capturado pela cilada do virtual ilusionista, que te assalta nos impulsos e atos ingênuos.

Acho particularmente curiosa a atitude de algumas pessoas, principalmente em grupos facilitadores, que diante do pedido de ajuda de uma pessoa ou da divulgação de algo, ao mesmo tempo em que são explicitamente incapazes de ajudar o desenvolvimento daquela situação específica, não hesitam em emitir suas “opiniões”, como se alguém as tivesse pedido. Não ajudam, mas apontam julgamento, vomitam críticas e zombarias, cospem seus egos no rosto de quem pede auxílio. E diante de tudo isso, se fazem de vítimas regurgitando frases como “estou apenas dando minha opinião”. Bom, a pessoa pediu um auxílio, não uma opinião.

Nessas relações virtuais as fraquezas e vícios dançam cantigas de roda com as virtudes e as belezas de cada um. É possível descobrir universos que ficariam fadados aos limites do pensamento ou às páginas de um diário, nem sempre tão claros como seriam nessas fontes primitivas, mas expostos como quebras cabeças que revelam todas as suas peças. Nos expomos como somos, mesmo quando tentamos enganar. As contradições entre supostos modos de ser e os atos cotidianos também permeiam esse universo. Aquelas pecinhas do cotidiano que não teríamos onde encaixar se exibem por ali, no mural do revelado.

Como todas as ferramentas humanas, podemos utilizar como quisermos esse espaço ilimitado do qual dispomos. Podemos nos permitir enganar e espalhar o falso, podemos condenar e julgar esquecendo que também estamos ali à disposição das pedras, podemos espalhar o horror e o sensacionalismo, podemos ter preguiça em nos informar e apenas tentar mostrar que temos “opinião” através de qualquer informação forjada, podemos agredir e desmerecer aos outros como não poderíamos impunemente no dia a dia, podemos vigiar por paixão ou por malícia...

Também, podemos o oposto. Podemos ajudar as pessoas que assim solicitam, podemos atuar em causas coletivas em vez de apenas reclamar, podemos nos informar melhor, acessar e compartilhar conhecimento e beleza, divulgar que no mundo ainda existe muito a se apreciar e não apenas a depreciação, podemos mostrar nossa realidade de complexas emoções e nos alegrar com as alegrias, as verdadeiras alegrias alheias, em vez de julgar de cara como uma felicidade falsa ou uma exibição. Podemos conhecer mais e nos conhecer melhor através de mais uma forma de comunicação e interação – não a única, não a principal, mais uma.

Podemos tudo isso, podemos muito e podemos mais. As nossas possibilidades se ampliam quando abraçamos a realidade como ela é em vez de recusá-la. É a recusa que nos escraviza, quando criticamos algo, mas não nos livramos dele. A aceitação permite um proveito mais amistoso e profundo do que se encontra diante de nós.

Penso que a internet é como uma fonte que descobrimos à nossa disposição, para fazermos com ela o que desejarmos. Como no caso da fonte, podemos usá-la para nos banhar, para cultivar, para beber, para apreciar, ou para transformar em esgoto e descarte tóxico. Cada um usa conforme a sua amplitude de visão permite. Por outro lado, como um acervo coletivo, ela é o reflexo do que somos enquanto sociedade e para cuidar que esse reflexo não nos assuste, é preciso, primeiro, mudar a sua própria forma singular de manifestação. Quando somos “em exposição”, para o bem ou para o mal, somos contagiosos.


Paula Peregrina

Estrangeira de todos os lugares, estrangeira de mim. Porque o estranhamento revela sutilezas que a familiaridade ignora..
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