palavreando

Conceitos empíricos, ideias perdidas, palavras ao vento

Priscila Anversa

Sou um resquício de virtuosismo em meio ao caos e a exaustão: olhos brilhantes e cabeça pensante, reciclando o repertório e impulsionando o espírito de aspirante a aventureira no território das palavras. Quero tudo. E quero muito.

Goya: Caricaturas da subversão

Entre reis, rainhas, princesas, condes e duquesas, Goya engendrou junto aos retratos da Corte Espanhola, o obscuro lado da mesma sociedade, expondo seus fantasmas e dando luz às mais perversas ações do ser humano já denunciadas, até então, em toda a história da arte.


Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) é herdeiro digno de Velásquez e sempre foi um retratista exímio da corte. Após sair de uma doença que o deixou quase dois anos em estado febril, em colapso nervoso, ficou surdo, apurando sua percepção de mundo e adentrando na terra da loucura cotidiana, produzindo uma série de oitenta gravuras, intitulada Os Caprichos. São sátiras visuais voltadas aos vícios e anomalias da sociedade e do gênero humano.

800px-Francisco_de_Goya_y_Lucientes_-_Still-Life_-_A_Butcher's_Counter_-_WGA10068.jpg A Buchter’s Counter, entre 1810 e 1812

Pelo teor das imagens, seus conterrâneos acreditavam que tal mudança era reflexo da depressão e da melancolia que a doença o causara. Enganaram-se. O problema de Goya não era a surdez inesperada, mas a indignação e a descrença absoluta na sociedade espanhola do século XVIII.

22g.jpg Os Fuzilamentos do 3 de Maio, 1814

Uma época em que a incompreensão pairava em qualquer estranheza advinda da arte, especialmente às produções grotescas de Goya.

Saturno_devorando_a_sus_hijos.jpg Saturno Devorando um Filho, entre 1820 e 1823

Os Caprichos são em sua essência autênticas sátiras dos valores, da religião e dos costumes espanhóis. Na série, donzelas, aristocratas e o clero dividem espaço com bestas em ambientes sombrios, revelando as fraquezas do ser humano.

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Goya ousou debochar escrachadamente a sociedade em que viveu, animalizando fisionomias e humanizando animais. É perverso, cômico, sarcástico, grotescamente inteligente. Trata do absurdo impossível com total harmonia de criação. Seus rostos bestiais e contorcidos são análogos, beirando o real e o fantástico, sem conseguir determinar se pertencem a um ou outro.

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“Claro que o mundo é paródia pura, quer dizer que toda coisa vista é paródia de outra, ou a mesma coisa, mas com uma forma que decepciona”. Georges Bataille, Ex-libris Eróticos, 1985. Caprichos_Plate80_It_is_Time.jpg

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A caricatura (distorção jocosa do rosto) apareceu nos últimos anos do século XVI, com os irmãos Carracci. Simplificando a sua significação, no retrato se procura o máximo de semelhanças com a pessoa retratada, enquanto na caricatura há um exagero acentuado nos traços defeituosos da pessoa, que são modificados desproporcionalmente.

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“Todas as descobertas artísticas são descobertas não de semelhanças, mas de equivalências que nos permitem ver a realidade em termos de uma imagem e uma imagem em termos de realidade”. Ernst H. Gombrich, Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica, 1995.

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A arte humorística permitiu uma liberdade aos mestres da sátira grotesca um grau de experimentação impossível a um artista sério, especialmente no século XVIII, época em que fervilham novas ideias e ideais sociais, seja pelos movimentos de Reforma e Contrarreforma, Revolução Francesa, entre outros, os quais engendram uma modificação nas propostas artísticas, nos estilos de composição e, principalmente, na essência da arte.

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A Igreja colocou um problema moral, em que a atividade mental (imaginação), não deveria subtrair-se ao juízo de bom ou mau, útil ou nocivo. Se a atividade imaginária é inspirada pelo demônio, é pecado. Porém, os pecados do pensamento não são menos graves do que as más ações.

Os clientes passam a ser a burguesia e a monarquia desenvolvendo uma crítica tendenciosa, em que a arte precisa exercer uma função na sociedade, explicando as intenções e os procedimentos dos artistas. Assim, a arte não tem mais um sentido único, mas é aberta, persuasiva.

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Mesmo que sua obra pareça irracional, Goya nunca abandona o racional; tudo é consciente, mesmo que estranho e exótico. Ele denuncia de forma perversa e sarcástica os acontecimentos da época, e, sobretudo, o que aconteceu consigo. Mesmo que ele mostre a morte, não é uma glorificação dela, mas se trata da vida, das complicações da mesma, da dor dos seres.

Goya é um expressionista visionário, beirando entre real e irreal, racional e irracional, contradizendo a tragédia da vida, e a complexidade da natureza humana.

Com sua arte, Goya era subversivo, perigoso e ameaçador da tranquilidade pública. Todavia, não pretendia moralizar ou doutrinar algo ou alguém.

they-spin-finely-1799.jpg O universo de Goya e sua contribuição para a arte perpassam os livros e os historiadores, e independentemente deles, nos traz à tona problemas e referências que são tão importantes à arte quanto a cada indivíduo.


Priscila Anversa

Sou um resquício de virtuosismo em meio ao caos e a exaustão: olhos brilhantes e cabeça pensante, reciclando o repertório e impulsionando o espírito de aspirante a aventureira no território das palavras. Quero tudo. E quero muito. .
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