palavrina

Literatura, cinema, cultura e... palavrinas

Taianne Rodrigues

Apaixonada pelas palavras e por café, puro, por favor.

A vida imita a arte?

Cada vez mais nos surpreendemos com a dramaturgia carregada das novelas brasileiras. Como pode tanta violência, intolerância e preconceito? Será que assistimos a vida como ela é ou a arte que ultrapassou os seus limites? A cada cena, um apelo para nos fazer repensar sobre a nossa sociedade atual.


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A primeira coisa que Dona Maria faz quando está em casa é ligar a televisão. Entretenimento para distrair a mente das dificuldades do dia a dia. As novelas não são levadas a sério por vezes serem taxadas de idiotices para fazer as pessoas se alienarem. É o que ela ouve do marido, que bate no peito para deixar claro que não assiste aos rompantes de drama que a esposa adora e não perde um capítulo.

É até engraçado, porque por mais que existam pessoas que odeiem as novelas, como o marido, Dona Maria sabe que encontrará discussões acaloradas sobre o último capítulo na fila do banco entre duas senhoras de meia idade, na loja da vendedora de utilidades que diz saber quem matou quem, o tiozinho na feira que se irritou com a complacência da mãe e diz bem alto para todo mundo ouvir que teria dado umas boas palmadas no moleque. E de um jeito ou de outro, todos sabem mais do que admitem sobre o que aconteceu no episódio de ontem.

Até no bar, todos param para ver se Claudinha vai pegar a amante do marido da irmã na casa da sogra.

Se o ator faz o mocinho, vai ficar feliz por receber elogios e dar autógrafo no shopping. "Obrigado por reconhecerem o meu trabalho!". Se a atriz que faz a vilã for vista na rua, algumas pessoas não vão ser tão acolhedoras, porque a interpretação está tão próxima da verdade, que a atriz aperta os passos e tenta não se ressentir pelo ódio que sua personagem desperta nos telespectadores. "Essa não sou eu, gente. Não temos nada em comum".

Aí, a novela é criticada por desinformar, por influenciar negativamente os jovens e as crianças. "Você viu o beijo do casal homossexual? Que ridículo!". "Se fosse minha filha levava uma surra por sair com saia tão curta". "Marido nenhum gosta de ser corno". "Se fosse eu, matava essa mulher sem vergonha que sai por aí abrindo as asas para os outros". "Homem que é homem não leva desaforo para casa não, rapaz". "Quem disse que a família de bem se comporta desse jeito?". "Ainda bem que é só uma novela".

Ah, o comercial acabou!

O garanhão ganha todas as mulheres e é aplaudido como o maior pegador que já se viu e vários garotões querem fazer igual ou pior. "Segura suas cabritas que o meu bode está solto". É mesmo um péssimo exemplo de machismo dentro de casa. E o que foi mesmo que Theo Jr. fez com a filha da Margarida no capítulo de terça-feira? Ah, sim, soltou o seu bode e engravidou a menina. Mas só ela foi crucificada por todos. "Moça de família casa virgem". Dona Maria até concorda, o marido rosna para os acontecimentos da novela e fecha a cara, até parece que já viu isso antes.

Um rapaz tira a camisa e a câmera da um close em seu peitoral definido. Dona Maria se abana. "Que pedaço de mau caminho". As mocinhas sofrem e são iludidas o tempo todo. "Ainda bem que isso não acontece na vida real". "Minha filha está protegida". "Olha lá, a filha da Margarida vai abortar! Que pecado!". A novela não vai se aprofundar no tema, pode gerar polêmica. Deixa estar. O importante é que o rico continua rico, seus negócios dando certo, a herança na mira dos herdeiros do velho muquirana. E os pobres felizes por poder contar moedinhas.

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

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A palavra justiça é bem recorrente na dramaturgia. Justiça do povo, justiça do poder público, justiça com as próprias mãos. "Ora, ou ele mata ou morre. Vida bandida essa". A vida representada na novela ou essa aqui de fora, sentada no sofá?

Dona Maria se emociona e até chora com a reconciliação de mãe e filho depois de uma vida separados. As duas senhoras na fila do banco vão dizer que tinha que ter terminado assim: todas as mocinhas engravidam no final. A vendedora da loja se decepciona por que a vilã morreu sem se endireitar. O tiozinho da feira esperava que mais gente melhorasse de vida: "seria até legal se o pedreiro que mora na favela encontrasse um bilhete premiado e ficasse rico".

Mas o marido se irrita com as lágrimas da esposa e diz que novela é feita para enrolar o povo do que realmente importa. É tudo ficção, não passa de cultura de massa, entretenimento. Ele se incomoda com o fato de a esposa ficar dando atenção a vida de personagens que não tem nada a ver com eles. "Onde já se viu tanta traição em uma família só?". "O país não é tão corrupto quanto a novela faz parecer! Eu hein, vou é trabalhar que eu ganho mais".

Pessoas morrem todos os dias, perdem fortunas, vencem na vida ou destroem famílias e nações com tão pouco, mas é só uma novela. Dou até de ombros, ó. A vida real é menos dramática, ou melhor, não é para tanto.

É provável que algumas pessoas, como o marido da Dona Maria, falem que a novela e a programação de entretenimento só serve para alienar e fazer os telespectadores dispersarem, quando deveriam sintonizar nas notícias, se inteirar do que está acontecendo no país e no mundo. Até melhor desligar a TV e ir ler um livro, pois não?

Olha, não deixa de ser uma verdade. O saber e o pensar não vem de ideias prontas e a televisão acaba por transformar um discurso em única verdade, exceção e as pessoas não discutem, não questionam. O mesmo canal é a voz da razão e mal sabe ele ou ela que há contrapontos e outros lados nessa vida. Ainda bem!

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"E se é puro entretenimento, deixemos a novela em paz"! Algumas atitudes são até aceitas e pouco ou nada vão influenciar na vida de milhões de brasileiros que sintonizam todos os dias no mesmo canal para ver mais um capítulo de "O pão nosso de cada dia" (por que não? Daria um bom nome de novela). "A mulher vítima de violência doméstica é até merecedora por se calar há tanto tempo". O beijo gay causa comoção. "Que pouca vergonha". "Isso aí não é certo não, gente". E cenas de sexo picante no horário em que as crianças ainda estão acordadas é tranquilo, normal (que é o único problema na real, se fosse para falar do que pode e não pode as 21h na sala da família brasileira).

A dona Maria se horroriza com a cena do menino pedindo dinheiro no sinal. "Que dó". E na ida ao mercado, fecha rapidamente o vidro da janela do carro a pedido do marido. Se ver o mendigo ou pedinte na rua, atravessa logo. "Eu? Imagine, tenho preconceito não". (É praticamente uma afirmação). Ela e as amigas juram não ser preconceituosas nem racistas: ensinam suas filhas a fazerem dieta para não engordar porque é feio; "filho meu é homem e não faz safadeza com o mesmo sexo"; só bebem socialmente e fumar jamais! Embora ninguém saiba do vidrinho de antidepressivos escondido na bolsa para qualquer ocasião. Suas filhas não podem namorar garotos pobres, pé rapados, negros e da favela. Suas empregadas até que são tratadas como gente. Família de bem não usa droga e não permite que seus filhos se envolvam com garotos de má índole.

Não, claro que a novela não passa de ficção, fruto da imaginação fértil de um escritor. A nossa família brasileira é perfeita, comercial de margarina. Não? Aí, a Dona Maria desliga a TV após a novela e não tem ideia do motivo do atraso do marido. Ele só pode ter sido obrigado a ficar até mais tarde no trabalho. O filho está no quarto, o incenso queimando perto da janela para disfarçar o cheiro do baseado. A filha mais nova está em pânico no quarto ao lado porque o teste de gravidez deu positivo. A filha mais velha se diverte com a preocupação da mãe toda vez que sai para ir a escola, quando é ela mesma a má companhia dos filhos das vizinhas.

O marido chega finalmente em casa, satisfeito porque a TV está desligada, tropeça até o quarto e entorpecido pelo álcool, (com mania de perseguição, porque quem trai acha que está sendo traído), bate na esposa com toda a força. E o que ela faz? Engole os gritos para não acordar os filhos e nem as vizinhas mexeriqueiras.

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Espera, não foi exatamente isso o que aconteceu na novela? Se nos espanta tanto assim uma ficção, talvez não seja pelo exagero de dramatização e sim porque pareça mesmo um retrato bem pintado da nossa sociedade brasileira.

O bem e o mal nos comove até certa medida.

Nos achamos encantados e entretidos com a televisão.


Taianne Rodrigues

Apaixonada pelas palavras e por café, puro, por favor. .
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