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Literatura, cinema, cultura e... palavrinas

Taianne Rodrigues

Apaixonada pelas palavras e por café, puro, por favor.

O retrato da sociedade de Oscar Wilde

O Retrato de Doryan Gray faz repensar o quão superficial podemos ser e se Doryan Gray fosse real, a sociedade entraria em caos.


cena do filme Dorian Gray.jpg Cena do filme Dorian Gray (2009), baseado no livro de Oscar Wilde, direção de Oliver Parker.

A sociedade descrita por Oscar Wilde da Londres do século XIX é tão atual, que mesmo agora é possível ver as mesmas críticas do autor saltar diante de nossos olhos. Essa sociedade que Wilde condena é hipócrita, fútil, materialista e superficial, em que a beleza - representada por Dorian Gray - é o único elemento passível de qualquer tipo de condenação.

Mas a condenação a que ele se refere não é apenas a da mácula do tempo e sim das consequências das atitudes do homem. Dorian Gray é sem dúvida um belo exemplo de beleza, a ponto de chegar ao tocante da inocência. Contudo, graças ou não ao quadro que de alguma forma passa a sofrer os efeitos dos atos do jovem inconsequente, Dorian vive ileso de qualquer tipo de punição.

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Se uma pessoa bebe, fuma, é cruel, maldosa, corrompe outros inocentes e age de forma desmedida e indiferente aos sentimentos alheios, teria naturalmente marcado tanto em sua pele quanto em seus ombros caídos e na perversidade dos olhos, as provas de que cometeu algum vício. Mas não o protagonista dessa história, que peca até o último momento, rebaixando sua alma a uma dureza que não poderia ser reconhecida sob a máscara de um jovem bonito e inocente.

Aparentemente Lorde Henry age como o amigo cínico que apresenta o jovem Dorian Gray para a vida desregrada de prazeres sem limites a que ele mergulha de cabeça. E no entanto, em minha segunda leitura, pude reconhecer neste lorde uma consciência dura da realidade humana, representando as próprias críticas de Oscar à sociedade vitoriana da época. Ele é durante todo o tempo, aquele que vai dizer as verdades, embora não será quem as colocará em prática. Por isso Lorde Henry se considerava alguém até mesmo insensível, mas somente porque não temia a crueza de suas palavras ditas tão abertamente nas rodas sociais.

01.jpg Colin Firth no papel de Lorde Henry e Ben Barnes como Doryan Gray.

Para Lorde Henry, o pecado, o medo da punição, fazia com que as pessoas recuassem diante de algum prazer exposto. E na mesma medida, ele deixa claro que na sua percepção da sociedade da época e por conseguinte, do próprio autor, se não houvesse nenhum tipo de consequência a receber de seus atos, toda e qualquer pessoa não teria receio de se render aos prazeres, pois não haveria nenhum acerto de contas. E é realmente uma verdade. Henry é sem dúvida a maior consciência do livro, ainda que cínica.

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Mas não é apenas o lorde que leva o rapaz para a vida de promiscuidade e vícios. Percebi desde o início que sempre houve algo de obscuro em Dorian. Todos nós somos livres para escolher o bem ou o mal e com nossas atitudes negativas ou positivas afetamos outras pessoas. Antes de conhecer outro homem que não fosse o pintor Basil, Dorian era um jovem sem a noção da realidade a qual pertencia e uma vez que tomou conhecimento dela, se sentiu enfeitiçado pelos prazeres que desejou sem remorso algum.

É claro que a sociedade o fazia pensar que sua beleza era o auge da juventude e que por ser belo, o mundo era seu e poderia fazer o que bem entendesse. Aí o erro do rapaz de acreditar nessa mentira. O próprio, antes de qualquer outra pessoa, se desculpava diante dos erros, não achando que tivesse feito algo digno de repreensão ou repúdio. Tanto é, que seu amor pela jovem Sybil é tão raso, que amava uma idealização e não uma pessoa real e se sentiu desculpado no momento em que deixou de amá-la. Embora tivesse feito a moça crer que tivesse tido sentimentos sinceros desde o início.

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Vivendo em uma sociedade de aparências, praticando todo tipo de coisa para o seu único prazer, Dorian ignorou os sinais de mácula em sua alma e quando finalmente reconheceu o quão modificado estava por dentro - representado por um quadro horrendo, com vermes e perversidades em seu retrato, ele não sentiu medo pelo que fazia e sim que alguém o descobrisse. O arrependimento não surge em momento algum após a morte da jovem atriz.

E é essa sociedade que Oscar Wilde condena, em que as pessoas perdoam o belo ou fingem não ver o que acontece por trás das cortinas de um teatro. É até mesmo uma forma mais rebuscada de dizer que se fosse um ladrão de terno (um Dorian Gray belo), quem ousaria desconfiar que o homem bem apessoado tinha a intenção desde o início de matar as pessoas que estavam na casa no momento do roubo? Quem desconfiaria de alguém assim? Agora, só o fato de cruzar com um garoto tarde da noite, mal vestido, já levantaria a maior das suspeitas.

Basil, o pintor, acabou criando um monstro, apenas por cultivá-lo. Lorde Henry era a consciência crua e até mesmo perversa de quem realmente somos. Dorian Gray, no entanto, representava a prática dessa consciência, o único culpado de suas ações e de seus efeitos. Há um pensamento muito recorrente da qual faço uso que diz o seguinte: "se tudo é causa e efeito, mesmo que digam a você o que fazer e se você o fizer, as consequências serão totalmente suas". E se a pessoa em questão não se importa com as consequências de seus atos, sempre encontrará algo para se justificar e a sociedade contribuirá terrivelmente para que esse mesmo rapaz faça mais do mesmo sem punição.

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O que também deu luz ao contexto da história, foi descobrir que Oscar Wilde, um homem casado e pai de dois filhos, após o lançamento de O Retrato de Dorian Gray, se relacionou com o filho de um lorde 16 anos mais novo do que ele. Um romance homossexual que foi mantido em segredo por pouco tempo e que ao ser descoberto pelo pai do rapaz, iniciou os problemas morais do autor.

Essa obra foi publicada inicialmente como um folhetim e quando editada em um livro, o autor recebeu várias críticas pelo conteúdo "imoral" e obrigado a reescrever vários pontos importantes da história. Desse modo, o que apenas sugere amizades muito próximas do homossexual - no caso de Basil uma paixão platônica pelo jovem; na versão sem censura, as paixões são mais ardentes e claras. De fato, o trio vai além da amizade e se tornam amantes.

Mas na Inglaterra do século XIX, homossexualidade era crime e o pai do jovem a quem Oscar Wilde era apaixonado, o acusou de ser "conhecido sodomita". Incitado pelo jovem amante a processar o lorde, o julgamento acabou virando contra o autor, que foi acusado e tendo o próprio livro usado como prova de seu crime. Em 1895, Wilde acabou sendo preso e por dois anos obrigado a fazer trabalhos forçados na prisão de Reading por "prática de indecência grave". Ao sair da prisão, ele foi viver em exílio em Paris, abandonado pelos próprios filhos que mudaram de sobrenome.

Oscar_Wilde.jpg Oscar Wilde

Esta é a realidade do autor que em Dorian Gray, na versão sem edições, publicada em 2011 pela Editora Biblioteca Azul, demonstra o quão rasa é a sociedade e seus moralismos, vivendo de aparências e da beleza no seu nível mais dramático: o de máscara para as perversidades praticadas por homens e mulheres. Após saber que o Retrato tinha ainda muito mais a dizer e a adaptação para o cinema, deixou bem clara a visão do autor de como podemos ser maus em toda a nossa essência humana.

E indo além, com sua causa perdida, Oscar Wilde acabou identificado como homossexual e várias personalidades, como Bernard Shaw, o apoiaram e o defenderam.

O Retrato de Dorian Gray é aquele tipo de clássico que nos fará pensar nas ações humanas, nas nossas falhas, mentiras, falsidades, moralismos, mesmo depois de ter passado mais cem anos. Pois é aquele tipo de livro que nos faz olhar de volta para o nosso reflexo no espelho e nos dar conta que há obscuridades em nossa alma e em nossa sociedade. E que viver omissos, complacentes, cínicos e indiferentes não impedirá de nos trazer consequências graves aos nossos atos.


Taianne Rodrigues

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