Vanessa Rossi

Da esquerda à direita; Das frases prontas aos rompantes de criatividade.

As Mulheres do Chico

Da mulher da " Feijoada Completa" a mulher do "Folhetim" Chico Buarque entende a alma feminina como ninguém, versando as diversas mulheres que há em si com sensibilidade e genialidade apenas presentes na obra buarqueana; Vamos entender um pouco da faceta dessas mulheres.


Chico Buarque compõe essencialmente suas músicas para as mulheres. Apesar de muitas composições de sucesso terem sido compostas alguns anos atrás, levando-se em consideração a influência sociopolítica que o artista sempre pautou suas letras, suas músicas versam sentimentos atemporais e desnudam a alma feminina de um modo original e intrínseco. Chico retrata desde a prostituta a mulher do subúrbio com tal delicadeza e independência de estilo, que em suas composições é possível encontrar não o eco de uma personalidade feminina apenas, mas várias.

Na composição " Olhos nos Olhos" Chico retrata a versão de uma mulher abandonada pelo companheiro e expõe os fatores psicológicos dessa mulher perante o abandono:

"Quando você me quiser rever/ Já vai me encontrar refeita, pode crer/ Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/Ao sentir que sem você eu passo bem demais "

Notamos na composição o ego feminino da mulher retratada, que se refaz perante a situação da perda do ser amado e a forma como o artista retrata essa mulher, explorando esse universo, como se ele próprio tivesse um "Alter-ego" feminino. Muitas de nós nos identificamos nas composições:

"E que venho até remoçando/Me pego cantando/Sem mais nem porquê/E tantas águas rolaram/Quantos homens me amaram/Bem mais e melhor que você"

A última estrofe é uma verdadeira punhalada. É o refazimento, a fase que ela descobre que é capaz de ser amada e chamar a atenção de outros homens. Quantas de nós, não já passamos por situação semelhante? Ao término traumático de um relacionamento, julgamos que nunca mais seremos capazes de nos relacionar novamente, e de repente a caixinha de surpresas que se chama vida nos mostra que é possível ser feliz, é possível "re-amar" é possível reaver a autoestima e construir uma nova história. Vejamos outra composição em que Chico expõe outro lado do universo feminino, em situação diversa:

"Todo dia ela faz tudo sempre igual/Me sacode às seis horas da manhã/Me sorri um sorriso pontual/E me beija com a boca de hortelã"

Logo, imaginamos tratar-se de uma dona de casa dedicada, e um marido provedor, enquanto ele trabalha, ela cuida da casa e o espera chegar do trabalho, numa postura passiva e contemplativa:

"Seis da tarde como era de se esperar/Ela pega e me espera no portão/Diz que está muito louca pra beijar/E me beija com a boca de paixão"

Claro que nos dias de hoje é mais difícil encontrarmos mulheres que sejam donas de casa, pois as mulheres conquistaram o mercado de trabalho e são provedoras tanto quanto os homens. Porém, a composição em questão foi escrita nos anos 70, período em que era muito mais comum as mulheres serem donas de casa do que hoje. Mas há questões levantadas na música, por exemplo, que ultrapassam a situação tempo-espaço como é o caso da opressão do "Cotidiano" da rotina do trabalho em que homens e mulheres vivem, e isso até os dias atuais, principalmente entre os casais de baixa renda.

Na composição " O Meu amor" que eu particularmente, considero uma das mais belas composições do artista, em que ele retrata uma mulher apaixonada, e explora com bastante delicadeza o erotismo feminino, sem no entanto vulgarizá-lo. Expõe a situação intima de um casal, com um hedonismo romantizado, quase santificado, onde o prazer é lei:

"O meu amor tem um jeito manso que é só seu/Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos/Com tantos segredos lindos e indecentes/Depois brinca comigo, ri do meu umbigo/E me crava os dentes"

"Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz/Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz"

O lirismo nas composições do artista é inegável. Chico é mestre em reinventar situações e poetizá-las. Encontramos situação semelhante na composição "Teresinha". Toda letra é consagrada a contar a experiência amorosa de uma mulher em três relacionamentos diversos e o "escolhido do coração" aquele que ela decide amar.

"O terceiro me chegou /Como quem chega do nada: Ele não me trouxe nada,Também nada perguntou/Mal sei como ele se chama,Mas entendo o que ele quer/Se deitou na minha cama/E me chama de mulher/Foi chegando sorrateiro/ antes que eu dissesse não/Se instalou feito um posseiro/Dentro do meu coração."

Mais uma vez Chico Buarque nos representa em suas composições. Amor não se escolhe, mas de certo modo é como se nós mulheres fossemos mantenedoras de uma chave secreta onde escolhemos (talvez até inconscientemente) quem nos cativa e nos atrai para nos entregarmos incondicionalmente. A entrega é uma característica predominantemente feminina que o artista trabalha com muita habilidade.

Na composição " A Violeira" Chico retrata a situação de uma mulher nordestina que decide morar no Rio de Janeiro. Conta com graça e simplicidade a trajetória da mulher que não queria acreditar que viveria no Nordeste o resto da vida e parte em busca de uma vida melhor para si mesma e para os filhos:

"Tem cabimento/Depois de tanto tormento/Me casar com algum sargento/E todo sonho desmanchar/Não tem carranca/Nem trator, nem alavanca/Quero ver que é que arranca/Nós aqui desse lugar"

Outra composição que considero sensacional é a “Mulheres de Atenas" onde Chico retrata as mulheres da sociedade ateniense e a passividade dessas mulheres, que só sabiam esperar seus esposos voltarem da guerra e servi-los de forma serviçal e humilde:

"Mirem-se no exemplo/Daquelas mulheres de Atenas/Sofrem pros seus maridos/Poder e força de Atenas"

"Elas não têm gosto ou vontade/Nem defeito, nem qualidade/Têm medo apenas/Não tem sonhos, só tem presságios/O seu homem, mares, naufrágios/Lindas sirenas, morenas"

É importante lembrar que Chico Buarque soube, não apenas retratar canções românticas, mas também fazer referências à política e sociedade brasileira com críticas muitas vezes encapsuladas por um duplo sentido que só um segundo olhar sobre suas composições nos faz entender. Chico é uma obra prima no cenário da música popular brasileira, e as diferentes "Mulheres do Chico" são apenas mais uma faceta de uma criação original brilhante e subjetiva do autor que nos sugere o quanto ele próprio compreende a alma feminina e receptiva essa compreensão encontrando eco e identificação em muitas de nós. Intensidade, visceralidade, romantismo, desejos e aspirações fazem parte de nós mulheres e da nossa identidade, que continua subsistir malgrado os tempos modernos onde nos comprometemos em funções múltiplas e estamos em pé de igualdade com os homens. Mulheres sempre serão mulheres em qualquer tempo ou espaço. Ricas ou pobres; amadoras ou sofredoras; Apaixonadas ou desiludidas. Poetizas ou não. E Chico melhor do que ninguém sabe disso.


Vanessa Rossi

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