parabolicando

literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

O conto brasileiro na Galícia

Editora galega Laiovento publica coletânea "O Conto Brasileiro Contemporâneo" em português, iniciando intercâmbio cultural entre línguas e povos que têm muito mais em comum do que se suspeita à primeira vista.


Ganhei de presente, em dezembro último quando passava as festas de fim de ano na Galícia, uma coletânea de contos brasileiros reunidos em “O Conto Brasileiro Contemporâneo”, organizada pela professora da Universidade de Santiago de Compostela Carmen Villarino e pelo escritor brasileiro Luiz Ruffato, e publicada em português pela editora galega Laiovento. Meus cunhados, galegos empenhados em lutar contra a morte dessa língua e bastante interessados em literatura, me entregaram o pequeno volume sem imaginar que me davam algo que eu devoraria em poucos dias, lendo de pouco em pouco, nos intervalos entre passeios pelos pobos (palavra que designa em galego o termo espanhol pueblos) da comarca de Monterrei e a degustação de um maravilhoso vinho local, acompanhado de pulpos, cerdos, caldos e churros. Imagino quanto não deve ter custado a eles decidirem-se por um livro em brasileiro, em detrimento de uma boa obra em galego. A coletânea reúne nomes de peso (e que eu já havia lido) como Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, André Sant’Anna, Cristovão Tezza e Marçal Aquino, mas traz também contos de autores até então desconhecidos por mim e que muito me impressionaram, como Adriana Lunardi, João Anzanello Carrascoza e João Araújo, além daqueles de quem já tinha ouvido falar mas nunca tinha lido nada, casos de Cíntia Moscovich, Luiz Augusto Fisher e Michel laub, entre outros. O livro traz ao todo contos de 21 autores. O resultado me parece bastante afinado com a intenção manifestada pelos organizadores numa entrevista publicada no Portal Galego da Língua http://www.pglingua.org/noticias/entrevistas/4759-laiovento-edita-antologia-de-conto-brasileiro Perguntada sobre as razões para publicar uma obra em português (do Brasil) numa das regiões mais singulares da Espanha, Carmen disse: “Pretendíamos que a produção brasileira atual chegasse diretamente ao público galego, sem mediações; com um produto que trouxesse aquilo que de mais representativo estava sendo feito no Brasil da virada do século XX para o XXI.” Afora o grande prazer da leitura (alimentado tanto pela alta qualidade dos textos quanto pela variedade de estilos e temas), a coletânea se impõe como ponte necessária entre línguas e povos que compartilham tantas semelhanças, que só mesmo um brasileiro que vai à Galícia é capaz de notar. A língua galega é prima-irmã do portunhol, só que é o portunhol deles. O uso do “X” no lugar do “J” dá a ela uma graça que remete a tempos remotos e, até onde pude saber, o seu uso foi a maneira encontrada pelos galegos para diferenciá-la um pouco mais do português, escapando ao mesmo tempo da imposição do “J” espanhol. Não sei se é verdade. Tampouco importa; mais importante é saber que essa teoria circula pela Galícia. Deixo a investigação para os lingüistas, mas incluo aqui uma pequena descrição retirada da Wikipedia: “O padrão actual da língua galega foi definido pela Real Academia Galega, a qual afirma respeitar a ortografia do "Rexurdimento" (no século XIX) e ser mais próxima às formas cultas tradicionais do galego e ao mesmo tempo às falas populares; porém distancia-o do português padrão. Este padrão, oficializado pela Xunta de Galicia, é utilizado majoritariamente no ensino e nos meios de comunicação galegos, assim como pela maioria dos escritores e intelectuais, querendo ser mais próxima às formas cultas tradicionais do galego e ao mesmo tempo às falas populares.” De minha parte, fico entusiasmada com o lançamento por duas razões: em primeiro lugar, porque penso em publicar na Galícia e vejo uma porta aberta para a aproximação; em segundo lugar, porque gostaria de ler no Brasil obras publicadas em galego. Seria muito bom ver nas estantes de livrarias daqui autores consagrados como Rosalia de Castro e Méndez Ferrín, que aprendi a amar como tenho aprendido a amar a Galícia.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Milu Leite