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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

De Bourbon Street e a beira de uma lagoa

Uma pequena reflexão sobre a memória, uma música e seu eco.


São estranhos, muito estranhos os caminhos da memória. Ouço há alguns meses uma interpretação belíssima de Bourbon Street (de Sting) na voz e no violão de um amigo em encontros musicais que costumamos fazer, e foi graças a ele que me lembrei de como adorava essa canção e de como gostava de Sting. Nunca mais tinha escutado. As músicas do Police nunca deixei de ouvir, mas Bourbon Street... bem, Bourbon Street tinha ficado para trás no tempo e no espaço: o disco (em vinil) desapareceu em alguma caixa de mudança, quando saí de uma casa e fui para outra em São Paulo, nas priscas eras em que eu ainda acreditava que era possível viver naquela cidade. jazz.bmp

Foi graças também à Bourbon Street desse meu amigo que decidi me perguntar: Por onde anda o Sting? No ano passado, comprei o cd If On A Winter's Night, que ouvi algumas poucas vezes, porque me falta algo que me ate à sonoridade da música celta cantada por ele. Mas com Bourbon Street a coisa é diferente. Desde lá então, notícia alguma. Hoje descubro que ele está em turnê pela Europa... Mas, como disse, eu vinha caminhando de volta pra casa, depois de mais uma noitada de cantoria com os amigos, com a música de Sting na cabeça, mas na voz do meu amigo, sim, porque agora a música nasce na minha memória transformada em outra, ela é a música que meu amigo canta e toca tão lindo, e vinha eu cantarolando pela calçada, à beira da lagoinha iluminada pela lua cheia, o caminho que leva à nossa Bourbon Street amorosa e calorosa e criativa, um trajeto curto e certeiro até a casa onde nos reunimos para cantar, vinha eu caminhando de volta e em feliz ziguezague, quando decidi sentar-me num banco e me perguntar seriamente: "Por que você esqueceu essa música?" Ainda me pergunto e, talvez para me consolar por tanto tempo perdido, desperto de manhã com ela na cabeça. Isto já faz uns dois meses... Bourbon Street é uma música que se abre a muitas possibilidades de arranjo e interpretações. Num show na Alemanha alguns anos atrás, Sting a cantou acompanhado por uma sinfônica. O sentimento que temos ao ver o vídeo é o da tragédia, estamos na Bourbon Street ou em algum ponto obscuro de uma floresta encantada cheia de sons inesperados, suaves, doces, fortes e cortantes e... uma fuga? Em outros vídeos que pude ver na Internet, a mesma música se transforma num blues, num folk, em balada doce. De todas elas, a que mais me fascinou foi esta que apresento a vocês, uma interpretação solo, em que o eco da voz e a visão do túnel talvez expliquem por que estranhas razões essa música voltou a mim.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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