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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

Em Amsterdam, um TeTo incomum para as artes

O curador Hércules Goulart Martins cria espaço para as artes em sua própria moradia, desafiando os limites entre público e privado.


TeTo Projects. Grave este nome, porque ele é, digamos assim, algo de que você ainda não ouviu falar, mas agora vai ouvir e, sabendo do que se trata, se apaixonará pela ideia. Ela consiste no seguinte: uma casa, um curador e uma maneira incomum de lidar com as artes plásticas. O nome do curador: Hércules Goulart Martins. A casa: a dele - um pequeno apartamento numa bairro tranquilo de Amsterdam. O incomum: Hércules fez da sua moradia um espaço aberto a artistas de todos os cantos do mundo e, principalmente, aos jovens artistas da Rietveld Academy (conceituada escola de artes e design holandesa) para promover exposições, performances e instalações, entre outras coisas. A casa de Hércules é uma espécie de galeria que desafia os limites entre o público e o privado, obrigando o artista a estabelecer "um diálogo com as características do espaço", como explica o próprio curador. Isto significa que o objeto artístico (ou seja lá o que for) terá de conviver (e muitas vezes interagir) com a casa de Hércules e seus movimentos cotidianos.teto1.jpg teto6.jpg Tudo ali conflui para a ideia de conjunto e compartilhamento, menos uma coisa: a cama onde ele dorme. Afora este espaço, Hércules reparte móveis, utensílios, ar e humores. "Nem sempre é fácil. Tenho que lidar o tempo todo com meus limites. Além disto, moro num prédio, tenho vizinhos... É uma negociação constante", ressalta ele. O TeTo existe desde 2009, e ao longo destes anos já abrigou vinte projetos de áreas diversas, mas sobretudo de design gráfico produzidos por artistas recém saídos da academia holandesa, funcionando assim como uma espécie de trampolim para mergulhos mais ousados. "A proposta aqui é que eles dêem andamento às suas pesquisas", diz o curador. A seleção de trabalhos é feita por ele mesmo, em visitas que costuma fazer frequentemente às escolas de arte. "Quando encontro algo que me interessa, entro em contato com o artista. Mas não é uma via de mão única. Muitas vezes também sou procurado por eles", informa. Esse foi o caso, por exemplo, da exposição Virtual Eruption, que veio buscar o TeTo para abrigar um interessante trabalho de intercâmbio de artistas de Israel e Holanda, depois de seis meses de trocas entre os participantes. Mas não é só. O intercâmbio também tem acontecido com a Casa Tomada (residência de artistas localizada em São Paulo), e neles o curador atua como uma facilitador. Os eventos do TeTo são acrescidos de atividades paralelas, como bate-papos, palestras, mesas-redondas a fim de compartilhar uma reflexão e a troca de conhecimento informal, aproximando curadores, teóricos, galeristas e artitas do público especializado ou leigo. As mostras geralmente permanecem um mês e podem ser visitadas às sextas e aos sábados, das 13 às 18 horas, ou em horários distintos (neste caso, com marcação antecipada). teto3.jpg

Legendas das obras: Imagens 1 e 2: Trabalho do artista Justin Gosker e chama-se 'Until Outside'. Ele traça uma linha imaginária em um ponto da sala, criando uma espécie de túnel entre o céu de Amsterdam e o céu em algum ponto do noroeste da Nova Zelândia. Ele fotografa os pisos do apartamentos de baixo e também os tetos acima. Imagem 3: Trabalho da artista Esmee Gerken e chama-se 'In Between Below Above'. Ela constrói um túnel de vento, unindo a porta/janela do quarto com a da sala. É sobre o vento, elemento invisível e modável, mas que exerce força.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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