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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

Hugo Cabret é Scorsese da cabeça aos pés

Martin Scorsese brinca com o tempo e o cinema em seu novo filme. Baseado em livro homônimo, Hugo Cabret só poderia ser filmado por um diretor experiente e apaixonado por filmes como ele.


Finalmente pude ver A invenção de Hugo Cabret (baseado no livro de Brian Selznick) no cinema. Foi minha primeira experiência em 3D, e nunca mais vou esquecer. O longa é um exemplo perfeito de casamento entre ideia e execução. Não poderia imaginar o filme feito de outra forma, nem por outro diretor que não fosse Martin Scorsese. A simplicidade do enredo se multiplica em possibilidades de invenção narrativa. Não é só Hugo (Asa Butterfield) quem inventa, afinal. Seu, digamos, interlocutor primordial é Scorsese e, como não poderia deixar de ser, um Scorsese experiente e livre o bastante para dar uma banana para qualquer coisa que não tivesse a ver com o seu cinema. Ao escolher filmar a história de um garoto órfão que vive escondido entre as engrenagens de máquinas do tempo (o que não é o relógio, senão uma invenção que mede um tempo inventado?), o diretor nos dá o primeiro sinal de domínio: uma criança, assim como ele, tem o poder de manipular o tempo, basta ter coragem para enfrentá-lo, no caso de Hugo, ainda que seja na triste companhia de um autômato quebrado.A-invenção-de-Hugo-Cabret_13.jpg A partir desse plot singelo se desdobra o grande desafio com que o garoto terá de lidar para que as engrenagens do autômato voltem a funcionar. O pequeno Hugo vai se defrontrar com uma série de perigos e descobertas. O tempo de Hugo congela-se sempre que ele se encerra em seu esconderijo imerso no grande relógio da estação de trem de Paris. O tempo de Hugo só anda quando ele perambula pelas ruas ou entre a multidão de pessoas que transitam pela estação todos os dias. A casa de Hugo é, então, o tempo: suspenso ou veloz, mas sempre o tempo. E há neste tempo a urgência de dar vida ao autômato, uma invenção de outro tempo a lembrar o garoto que mistérios precisam ser resolvidos para que ele possa se libertar. E é para compreender esses mistérios que Hugo se une à graciosa e vivaz Isabelle (Chlöe Grace Moretz), dona da chave que mudará todo o transcurso do tempo do menino e de sua história.hugo.jpg A invenção de Hugo Cabret é, então, antes de tudo uma história sobre o tempo. E acompanhar como Scorsese tece as suas várias camadas é a grande aventura do espectador. Ao eleger o cinema como matriz dessa aventura, o diretor harmoniza todos os tempos de que trata seu filme: o presente e o passado de Hugo estão vinculados ao presente e ao passado do cinema; o passado, atravé de Méliès e o nascimento dos primeiros filmes de ficção, as primeiras incursões aos truques de filmagem e montagem; o presente, através das peripécias de Hugo, que são também o presente que se abre ao espectador, por meio de duas narrativas que Scorsese trabalha com mestria em seu filme: a história de Hugo e a história do cinema.scorsese.jpg E quando o espectador se dá conta de que Méliès, à sua maneira, também inventava formas de trabalhar a tridimensionalidade agora a serviço de Scorsese, ele não pode mais escapar à doce e bela armadilha arquitetada pelo diretor, ficando totalmente à mercê do filme. A essa altura, irremediavelmente encantado, não resta mais nada a fazer, senão reverenciar Martin Scorsese e o seu amor pelos filmes e, por que não dizer, por todos aqueles que amam o cinema.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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