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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

"Contágio" escapa das armadilhas de gênero

Steven Soderbergh lança mão de uma epidemia para perguntar: onde está a verdade?


Um novo tipo de vírus se espalha pelo mundo, e a ciência corre atrás de uma vacina contra ele. Nem é preciso dizer quantas vezes já vimos filmes a partir dessa mesma ideia, mas enquanto eu lia mais informações sobre o dvd na locadora, pensei: por que Steven Soderbergh embarcou nela? Mais: por que escalou um elenco monumental (Kate Winslet, Matt Damon, Gwynet Paltron, Jude Law, Laurence Fishburne)? Mais ainda: por que esses atores aceitaram o convite? Diante de tantas perguntas, e ainda sem nenhuma referência que não fosse o diretor e os atores, decidi assistir o filme.contágio.jpg A surpresa foi boa. Contágio é diferente dos outros, a começar pela maneira naturalista como Soderbergh conduz a trama. São tantos os detalhes envolvidos na descoberta científica do vírus, que às vezes o espectador acredita estar diante de um documentário... mas, não, não está; o ritmo é outro, os cortes, os enquadramentos, a música... e logo ele está novamente mergulhado na história fictícia (mas tão verossímil) e nas pequenas tramas articuladas entre si de modo a aproximá-lo dos personagens iniciais: uma executiva em viagem a Hong Kong, um jovem chinês perambulando pelas ruas da cidade, agitação, ritmo frenético e tosse, muita tosse. É desse modo que se faz notar o protagonista do filme, o vírus aniquilador e desconhecido que viajará da China aos Estados Unidos no corpo da executiva (Paltrow) que, antes de voltar à casa para encontrar o marido (Damon) e o filho, manterá relações sexuais com um ex-namorado. À sua maneira, ou seja, costurando cenas aparentemente desconexas aqui e ali, Soderbergh vai escapando às armadilhas, e elas não vão lhe dar sossego em nenhum momento, porque é esse um risco inerente a toda e qualquer história que se queira contar como se fosse de verdade. Explico: a primeira armadilha é armada na situação inicial da personagem: a mulher trai o marido e carrega em si o vírus letal. Não é difícil chegar a uma conclusão moralista a respeito do incidente, e assim o seria se o diretor não tratasse de atenuar as relações entre os personagens envolvidos. Um a zero para Sordenberg.contagio2.jpg Ao mesmo tempo em que acompanhamos com grande interesse o desenrolar da história e aprendemos um pouquinho sobre as formas de transmissão dos vírus, os modos de pesquisá-los, as formas de combatê-los, as questões éticas e morais vão surgindo e, a cada uma delas, somos levados inicialmente a formular conceitos a respeito do que são os laboratórios farmacológicos, a imprensa, os órgãos públicos, as regras de Estado, etc etc etc. Sordenberg, porém, vai fazendo a trama girar de tal maneira que a certa altura já não sabemos mais onde está a verdade, e aqueles tais conceitos são sumariamente colocados em xeque. Uma situação assim (uma epidemia)envolve dezenas de camadas de problemas, um emaranhado de interesses, questões pessoais e sociais a perder de vista. Qual o interesse dos laboratórios? Quem se beneficia das descobertas? Há igualdade e isenção nas informações? Onde começa o público? Onde começa o privado? É muito ilustrativa de nosso tempo a maneira como o roteiro faz uso, sobretudo, da figura do blogueiro, um sujeito pronto a vasculhar aquilo que a mídia quer encobrir. Mas não se engane, não há heróis neste filme. Ao menos não da maneira como estamos habituados a vê-los na indústria do cinema, porque, apesar de elegermos algumas figuras salvadoras ao longo da trama, elas logo nos mostram suas piores características. São humanos, interesseiros, medrosos e vaidosos como qualquer um de nós.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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