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Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

Salmão no Iêmen?

Novo filme de Lassie Hallström é romântico, mas vai além das paisagens do Iêmen e da ladainha das comédias açucaradas.


Como quem não queria nada, fui assistir "Amor Impossível" (impossível é este título em português para um bem mais apropriado - porque singelo e direto - "Salmon fishing in the Yemen"),dirigido por Lassie Hallström. Fui praticamente sem esperanças de ver um bom filme, apesar do elenco promissor: (Ewan McGregor, como Alfred Jones), Kristin Scott Thomas e, confesso minha ignorância, a até então desconhecida (para mim) Emily Blunt. Alardeado como "a melhor comédia romântica do ano" num cartaz tão suspeito quanto o título, o filme vai além do esperado. salmon-fishing-in-the-yemen01.jpg O sueco Lassie Hallström (diretor de "Chocolate" e roteirista de "Quem quer ser um milionário") não era referência de nada empolgante o bastante para me tirar de casa até eu descobrir que é ele também o diretor de um longa que me marcou profundamente na década de 80: "Minha vida de cachorro". Pois então resolvi encarar o filme sem pacotinho de pipoca, ou seja, disposta a correr o risco de me entendiar com mais uma comédia romântica ou, quem sabe, confirmar que o tal sueco continuava bom. E não é que o cara continua mesmo bom? A história, melhor dizendo, a camada mais superficial dela (homem idealista se paixona por jovem bonita e idealista, apesar dos míseros destruidores de ideais de sempre) tinha tudo para dar sono, não fosse algo improvável: o homem em questão tem que fazer com que salmões cheguem ao Iêmen e passem a viver ali, e este homem é ninguém menos que o maravilhoso Ewan McGregor. O dono da ideia: um xeique bilionário (interpretado por um lindo e talentoso Amr Waked). Mas como levar milhões de salmões para o meio do nada, e, diga-se de passagem, um nada tão árido como um deserto? Para transpor esse obstáculo haverá gente de todo tipo: bem intencionada (como o dr. Alfred Jones e a personagem de Emily Blunt) e mal intencionada (como a assessora do governo britânico, interpretada por uma hilária Kristin Scott Thomas). Se há algo de comédia neste filme, ele está com esta surpreendente atriz, que, em clave maior, expõe os exageros e interesses escusos do governo britânico. São estas duas camadas do filme que lhe permitem escapar do rame-rame comum a todas as comédias românticas atuais, fazendo com que ele se torne uma espécie de passatempo inteligente e informativo. Se não é muito, ao menos faz bonito frente à chuva de melodramas com boquinhas pintadas, saltos altos, músculos e carrões dos últimos filmes do "gênero" (detesto essa classificação, mas fazer o quê?). Posso dizer algo mais: não senti a menor falta da pipoca. O filme se sustenta, afinal, em sua abordagem bem-humorada e idealista. Foi algo como beber água de uma boa fonte.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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