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Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

Serge Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres

Filme sobre a vida de Serge Gainsbourg é tão irresistível quanto foi o poeta e músico francês, autor de um dos maiores escândalos da música popular no final dos anos 60: "Je t'aime moi non plus".


Antes de tudo um aviso: Vi o filme (lançado no ano passado)somente agora e não tenho nenhum receio de dizer: é dos grandes que assisti na minha vida. Pretendo revê-lo ainda muitas vezes e, por isso, decidi escrever sobre ele. Diz a sinopse: "Um olhar sobre a vida do músico francês Serge Gainsbourg que cresceu em 1940, numa Paris ocupada pelos nazistas. O longa percorre sua carreira através de suas famosas canções, escritas na década de 1960, até a sua morte em 1991 aos 62 anos." gainsbourg-filme.jpg

gainsbourg+ego.jpg Pronto, estaria explicado de que se trata o longa-metragem realizado pelo quadrinista Joann Sfar (sua estreia no gênero), se não fosse indispensável dizer que "olhar", afinal, é este. O olhar de Sfar é cúmplice da vida absolutamente apaixonante e trágica de Serge Gainsbourg, figura que, para a minha geração, está indissoluvelmente associada a uma canção: Je t'aime moi non plus, que ele compôs para Brigitte Bardot (com quem teve um caso amoroso), mas acabou gravando com a atriz e cantora inglesa Jane Birkin, que depois se tornaria sua mulher e mãe de sua filha, a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg. Lançando mão de uma cenografia deslumbrante, com planos que dialogam com a pintura e o desenho, o diretor enreda o espectador já na primeira cena - uma composição ampla e clara que nos mostra um menino e uma menina numa praia vazia e enevoada. O menino é Lucien Ginsburg, criatura engraçada, insolente, esquisita e, por essas características, dono de um magnetismo que o coloca no mundo dos adultos precocemente. Filho de judeus russos, ele vive na França em companhia dos pais e das irmãs, e alimenta o sonho de tornar-se pintor. Aprende piano por insistência do pai e, nas horas vagas, desenha histórias de um personagem enigmático. Essa particularidade é sopa no mel para o quadrinista Sfar, que transfere para a tela a figura cartunesca de um homem, a Voz, que acompanhará Lucien e, depois que ele troca de nome, Serge Gainsbourg, por todo o filme, funcionando como uma espécie de superego às avessas, incitando Serge a fazer tudo aquilo que sua timidez o impede de realizar: seduzir mulheres, compor músicas incomuns e cantá-las com a maior cara de pau do mundo. Jane-Birkin-and-Serge-Gai-002[1].jpg E é assim que de Lucien Ginsbourg passamos ao irresistível poeta e músico Serge Gainsbourg e de Serge Gainsburg, a um homem de meia-idade detonado pela bebida, cada vez mais polêmico e provocador. Sfar traduz a liberdade desmedida de Gainsbourg com segurança e paixão, mas não se deixa impregnar pelo tom misericordioso nem pela glamourização da vida errante. Acompanhamos Serge e suas brigas com o mundo, dividos entre a perplexidade e a gratidão. Em tempo: o ator Eric Elmosnino, que interpreta Gainsbourg, é simplesmente perfeito.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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