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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

De volta à caverna de Chauvet

Em Chauvet, o diretor Werner Herzog nos reconecta com o nosso homo sapiens.


Impacto, lágrimas indomáveis, respiração entrecortada. Uma aparição sublime. Não há outra maneira de receber as primeiras imagens do interior da caverna de Chauvet pela lente do cineasta Werner Herzog em seu novo documentário, chamado no Brasil Caverna dos sonhos esquecidos. Pousar os olhos sobre as estranhas formas que a natureza esculpiu na pedra por milhares de anos é um deleite completo. Tudo brilha, mas não se trata de um brilho comum, pois há nele um deserto de tempo, um quê de perturbação. Nunca imaginei que as pedras de uma caverna pudessem brilhar assim e tanto. Sofri. Tanta beleza pode doer. Imagen Thumbnail para chauvet6.jpg A visão do primeiro conjunto de pinturas, das tais representações, das tais imagens gravadas por homens há mais de 30 mil anos, essa visão é acachapante. Um poderoso sentimento de comunhão com a nossa condição de humanidade se impõe. Reverência. No peito, um misto de intimidade e desconfiança - que homens foram aqueles, que homens somos nós? Imagen Thumbnail para chauvet4.jpg Enquanto nos perguntamos coisas, Herzog nos inebria com a música que, pouco a pouco, vai se tornando gutural, acompanhando a nossa transformação, ciente de que sairemos dali mais homo sapiens do que nunca. Cavalos, maravilhosos e vigorosos cavalos, uma profusão deles impregna as curvas de uma das alas da caverna; noutra, o bisão, o urso e o mamute, e quase ouvimos seus grunhidos. Os desenhos, muitos deles, simulam movimentos. Herzog não resiste, lembra do cinema, e somos levados a pensar sobre essa estranha conexão entre mundos tão distintos. Sobre a arte: Por que agora e antes? Novamente a intimidade, novamente a desconfiança.O domínio desses homens sobre nós. Ali, pelas lentes de Herzog, tudo está ao alcance das mãos. Muito próximas, as pinturas são tocadas por nossos olhos, enganados pela tridimensionalidade do filme. A certa altura, os exploradores falam de cheiros, dos cheiros de uma caverna que permaneceu fechada por séculos. Do cheiro dos ossos, das pedras. Imaginamos. Haverá o dia em que, sentados numa poltrona de cinema,sentiremos. Se não o cheiro da caverna de Chauvet, o de outros mundos tão inesperados quanto ela.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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