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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

Propaganda de sabonete faz pensar

Anunciante acerta ao oferecer a telespectador a possibilidade de pensar sobre a beleza, enfocando pontos de vista distintos.


Esta semana me surpreendi ao ver na televisão uma propaganda com conteúdo de verdade. Estamos cada vez mais acostumados a rir e até mesmo gostar de anúncios inteligentes, muitas vezes adotando no dia-a-dia expressões lançadas por eles -- "ah, o cara não é nenhuma brastemp" é uma das mais conhecidas, acho eu --mas raras vezes nossos olhos e ouvidos se voltam integralmente para a telinha. O conteúdo da propaganda, em geral, existe apenas para falar de um produto. Na melhor da hipóteses, para aliar uma ideia, uma mensagem, à marca. E ponto. Foi por isso que me espantei com a propaganda mencionada. Trata-se de um pequeno documentário ensaístico, no qual se pode acompanhar um artista (Gil Zamora, artista forense do FBI especializado em retratos falados, desenhando pessoas que iam ao seu ateliê. O processo de criação era mais ou menos assim: uma pessoa desconhecida do artista se sentava numa sala, longe das vistas dele, e dali ia respondendo às perguntas que ele fazia a respeito de seu rosto enquanto ia construindo o retrato com base nessas informações. Em seguida, o artista criava outro retrato da mesma pessoa, mas agora a partir de informações fornecidas por outro participante. O resultado, então, eram dois retratos da mesma pessoa, um deles mostrando como a própria pessoa se via e o outro mostrando como essa pessoa era vista por outra. foto dove.jpg Quando convidados a comparar um retrato com o outro, os participantes se viram diante de uma revelação: os retratos feitos a partir da descrição feita pelo outro mostravam rostos mais interessantes, mais bonitos. Obviamente, há que se levar em conta a escolha de alguns retratos e não de outros, a fim de que a propaganda possa cumprir seu papel, que, neste caso, é se adequar ao slogan: Você é mais bonito do que acredita ser. Como será que funciona isso na cabeça do consumidor? Com enfoque tão diferenciado, imagino que a intenção do anunciante é atingir um público com boa formação cultural, fisgando-o justamente por documentar um artista em ação. Bem editado e em tons pastel, o vídeo por si só já chama a atenção. Contudo, poderíamos abandoná-lo no momento seguinte, se não houvesse ali a sugestão de uma certa inquietação, uma suspeita de revelação. Somos fisgados. Vamos acompanhando o trabalho do artista e desobrindo aos poucos a engenhosidade da sua tarefa. Chegamos ao final satisfeitos por termos vivenciado essa pequena experiência cultural e felizes com essa instigante descoberta: posso não ser tão feio como penso. E quem te disse isso? Uma marca de sabonete. Ponto para o anunciante.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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