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Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

Filosofando com Alain de Botton

Em seu novo livro, o filósofo suíço explora aspectos da obra de seis grandes pensadores, sugerindo sem nenhuma pose uma atitude filosófica para o bem viver.


Tem gente que torce o nariz para os textos dele. O seu último livro - As consolações da Filosofia - é um achado, mas foi tratado com certo desdém por parte da crítica por misturar filosofia com autoajuda. Entretanto, o livro é um achado justamente porque apresenta ao leitor as raízes do pensamento filosófico, fazendo ver que ele está historicamente ligado a uma atitude de questionamento voltado para a busca da felicidade. Autoajuda , portanto, mas que não vem pronta e não tem nada de fast food. Longe das facilidades (mas não da simplicidade), o que o filósofo Alain de Botton sugere é pensar. Antes, conhecer. E antes do antes, duvidar. Para tudo isso, apresenta métodos de Sócrates, Epicuro, Sêneca, Montaigne, Shopenhauer e Nietzche.

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Ao trazer a voz desses filósofos para os dias atuais, Botton cria um estranho mundo, onde impera a atemporalidade. Ou será o contrário? Ao ver tão vivo o pensamento dessa gente, o leitor tem a impressão de estar lá – um lá que tanto pode ser a Atenas de 460 a.C como a Leipzig de meados do século 19, época em que Nietzche fez sua primeira leitura de Shopenhauer, depois de comprar O mundo como vontade e representação em um sebo ao lado da universidade local. A descoberta marcaria toda a sua maneira de ver o mundo (e influenciaria toda a sua obra), como demonstram as palavras escritas numa carta a sua mãe: “Sabemos que a vida consiste em sofrimento e que, quanto mais nos esforçamos para aproveitá-la, mais ela nos escraviza. Devemos, portanto, abrir mão das vantagens que ela nos oferece e praticar a abstinência.” O conselho de Nietzche se opõe drástica e curiosamente ao que pregava Sócrates, e não por acaso Botton abre seu livro com o pensamento de um e fecha com o pensamento do outro. Nos dois extremos, a busca da felicidade numa ponta e a renúncia a essa busca na outra. Permeando essa trajetória secular do pensamento filosófico, estão as tais consolações que dão título ao livro: Consolação para a impopularidade (Sócrates), para quando não se tem dinheiro suficiente (Epicuro), para a frustração (Sêneca), para a inadequação (Montaigne), para um coração partido (Shopenhauer), para as dificuldades (Nietzche). Que ideias concebidas há milhares de anos encontrem eco na mente da gente de hoje não é novidade. Fiquemos, então, com aquelas que dão base ao método de raciocínio criado por Sócrates, lembrando que o filósofo foi condenado à pena de morte por filosofar e tentar contagiar os moradores de Atenas com o vírus do questionamento, desafiando o senso comum: 1. Selecione uma afirmativa que todos, sem pestanejar, consideram incontestável. 2. Imagine por alguns instantes que a afirmativa seja falsa. Busque situações em que ela não seja verdadeira. 3. Se uma exceção for encontrada, a definição deve ser falsa ou imprecisa. 4. Então, submeta a afirmativa a nuanças, levando em conta a exceção.

Alain de Botton então resume: “É por intermédio do ato de descobrir o que uma coisa não é que se chega mais perto do entendimento do que essa coisa é”. Aí está uma boa receita para encarar o mundo.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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