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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

As preliminares de Lars von Trier

Novo filme do diretor dinamarquês, "Ninfomaníaca - vol.1" faz da pornografia algo muito distante da pornografia que conhecemos.


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Antes de mais nada, quero aplaudir (não sem ironia) a grande jogada publicitária de Lars von Trier para o lançamento de seu filme mais recente, Ninfomaníaca. A fila para comprar os ingressos era grande no dia em que fui à sala do Cinespaço, uma terça-feira de calor em Florianópolis, e a noite convidava mesmo era para um chope. Imagino que noventa por cento do público que ali estava ali estava justamente para ver a proclamada pornografia pela imprensa nos jornais do fim de semana. Jovens, muitos. Casais, muitos. Risinhos na fila, muitos. Ou seja, a dose de feromônios se fazia sentir ainda fora da sala. Três garotas tentavam convencer o gerente do cinema de que poderiam entrar sem identidade e pareciam não ouvir o argumento de que nem com a permissão de pai o filme poderia ser visto por menores de 18 anos.

Lá dentro da sala escura, entretanto, o clima foi mudando. Os risinhos e cochichos ansiosos foram sendo enterrados por um silêncio sepulcral. Afinal, não estávamos ali para o gozo, pareciam finalmente compreender. Apesar de engraçado em muitos momentos, Ninfomaníaca é doloroso como um estupro. A protagonista da história (interpretada por Charlotte Gainsbourg, filha de Serge "Je te aime, mon amour" Gainsbourg) conta sua formação sexual para um curioso e tranquilo homem solitário, como se estivesse numa sessão de terapia. Lançando mão de uma linguagem que mescla os achados de uma sintaxe cinematográfica ágil aos recursos de um livro ilustrado à moda antiga, Von Trier enreda o espectador nas aventuras nada simplórias de sua heroína.

As cenas de sexo explícito são quase nada quando confrontadas com o peso das emoções (ou da ausência delas) reveladas pela personagem quando ela está em ação. A felação no vagão do trem, a transa num depósito do hospital e algumas poucas cenas mais tratam de dar o tom da encruzilhada arquitetada pelo diretor: veja e deixe-se levar pela excitação, se for capaz de ignorar o que está por trás de tudo isso. Um jogo que elege como combustível a perversão e o abjeto de cada um de nós.

Não há como imaginar o grau de frustração de todos os que foram ver o filme esperando uma hora de recreio na companhia das revistinhas de Carlos Zéfiro. Para os que acompanham a trajetória do diretor, nenhuma surpresa,apenas a constatação de que ele é sempre instigador e o seu cinema, cada vez mais fundamental. Aguardemos a continuação, o tal volume 2. Até isso, Lars von Trier soube fazer: estender o momento final, boicotando qualquer possibilidade de ejaculação precoce. Afinal, quem está no comando é ele, ou você achava que não?


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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